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Contra o medo é possível se levantar

Somos intensidades, forças, ardores, magnitudes, veemências. Somos fontes e fluxos de riquezas. Não por acaso a vida se tornou o alvo do investimento mais lucrativo. O poder (das riquezas concentradas) precisa ser constantemente alimentado de vida. Usam-nos, sequestram nossas vitalidades e, ainda, fazem-nos acreditar que o mundo é mesmo assim, por “natureza”, e que assim deve continuar. Fazem-nos crer que o que é engendrado por homens poderosos é pela mão magnânima de Deus que se fez, ou pela natureza, pelo destino, e assim tem que ser mantido. Estruturam um poder SOBRE a vida (com sua política) para destituir a todos do próprio poder DA vida.

Decerto, é obvio ululante, que essa política se articula capturando-nos pelo medo. Eles fabricam inimigos a quem devemos temer e odiar, criam monstros para nos alarmar e nos controlam pela administração desse medo. Que medo? O medo da mudança, do diferente, de novos mundos. Medo do comunismo, do bolivarianismo, dos muçulmanos, da China, etc. Do jeito que as coisas vão, logo surgirá o medo do reino de Jesus Cristo até, pois que esse reino estruturará o mundo e a vida em outras bases bem diferentes. Talvez já por isso sejamos ágeis em proferir “venha a nós o vosso reino”, mas lentos em nos propor o trabalho real de sua construção. Mais fácil é a liturgia de sua visão, do que a celebração de sua construção.

Continuando: há um poder (com sua respectiva política) sendo exercido impiedosamente sobre a vida de todos. E não há outro investimento mais rentável do que aquele que se dá sobre a vida. Ela se tornou o principal alvo dos mecanismos de produção de riquezas, e para isso, é claro, infelizmente, num caminho perverso, ela tem que ser dominada e assujeitada a despeito da mortificação que daí decorre. A produção de riquezas não visa o florescimento da vida, a sua promoção, o seu empoderamento. Se fosse assim a vida não seria apenas a fonte de riquezas, mas o destino das mesmas. Não por acaso o planeta passa por sofrimentos tão grandes, com tantas espécies ameaçadas, e com tantos seres humanos que apenas sobrevivem e que morrem bem antes do que seria de se esperar.

A política que se exerce para este fim tem obtido sucesso. E esta política vem se “especializando” ao longo dos últimos tempos para que o poder possa ser exercido a partir de dentro das próprias pessoas. E essa é a razão do seu sucesso. É custoso convencer as pessoas, então melhor é constituir as pessoas para que elas mesmas pensem favoravelmente à produção de riquezas do jeito em que ela se dá. É preciso constituir subjetividades que tenham medo das experiências, que não se lancem naquilo em que a vida é ótima, ou seja, na produção de diferenças, de caminhos inusitados e impensados, no cultivo de impossíveis (como fez Jesus). Dentro da lógica do poder que se sustenta de vidas é preciso produzir subjetividades que se encaixem nesse modelo e dele se sintam ardorosas guardiãs (os chamados “pobres de direita” que defendem o liberalismo selvagem em que o desfrute da vida se reserva a alguns).

Para tal, as subjetividades precisam ser serializadas, padronizadas, com identidades massificadas, com vontades similares, gostos iguais e pensamentos únicos. Obvio, então, que todo movimento que vai na direção das diferenciações, das pluralidades, da quebra desses paradigmas e da sondagem de outros desejos (sonhos, projetos) será combatido ferozmente.
E esse poder SOBRE a vida, no entanto – como apontam Espinosa, Negri – é superstição, pois se dá pela organização do medo. E sendo superstição é possível se contrapor a ele. Contra o medo é possível se levantar?

Dauri Batisti
Padre, psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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