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Coisas de cristãos

Às 6h30 do dia 9 de maio de 2015 já tem movimento no pátio da igreja Presbiteriana no Ibes. Não é um culto ou prática devocional, não é formação bíblica ou doutrinária, não são apenas presbiterianos e também não são pessoas necessitadas à procura de ajuda. Estes chegarão depois. Os primeiros são os voluntários da ADE (Ação Diaconal Ecumênica), responsável “pela logística e por fazer acontecer o Programa Dermatológico Salve a sua Pele”, como define Wanderlea Almenara, tesoureira da ADE e uma das coordenadoras pela Igreja Presbiteriana do Ibes. Eles chegam primeiro porque o atendimento a quem busca prevenção ou tratamento para câncer de pele depende da organização deles. Disposição para acolher é o que não falta. Pra começar, eles preparam a lista das pessoas agendadas, separam prontuários de quem já está em tratamento (quem já foi atendido no Programa tem uma matrícula), distribuem senhas, arrumam salas, preparam a cantina, o lanche para eles mesmos, os profissionais e os acadêmicos. Às 8h tudo está em ordem para receber aqueles que procuram ajuda. É mais um verdadeiro mutirão que se inicia e, a primeira atividade juntos, é um momento de oração.

Quem chega é acolhido com sorrisos, atenção e compreensão. E esse acolhimento faz toda a diferença. “Quando a gente procura o SUS, chega doente e sai pior, pois só o jeito que olham a gente já faz mal. Aqui não, desde a entrega da senha, os acadêmicos, os médicos, todo o atendimento é feito com carinho. Isto aqui é uma bênção de Deus”, disse Anemir Ribeiro, do Bairro Garoto. Como ela, todos os pacientes com quem conversamos elogiam o procedimento e, até mesmo quem precisa esperar um pouco, elogia a organização. Gleici da Vitória, de Viana, precisou de cirurgia e fez na Santa Casa, mas teve que retornar. “Liguei e logo me agendaram. Tudo aqui é ótimo. Já faz dois anos que eu faço tratamento e sempre fui bem atendida”, disse enquanto se encaminhava para um procedimento eletrocautério, após ser observada por duas acadêmicas e diagnosticada pelo Dr. Alberto de Paula. André veio de Terra Vermelha e diz que “o atendimento é igual ao particular, mais rápido e bem atendido” e Fabrício Castelo, da Ilha das Flores, que acompanhava a sogra, fez um desabafo: “ela passou no posto e o médico disse para vir aqui. Na verdade deveria encaminhar para o hospital já que o caso dela é grave, mas aqui resolve tudo em um dia. Ela já foi atendida e agora vai fazer a cirurgia para a biópsia. Aqui está mais rápido que o particular”.

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Ideia inicial e estruturação

Há 13 anos o Dr. Carlos Cley Coelho, médico dermatologista e professor da UFES, propôs um trabalho voluntário para atender gratuitamente a comunidade na prevenção e tratamento do câncer de pele tendo como base uma experiência semelhante com um ambulatório móvel que havia feito nas regiões de Santa Maria de Jetibá, Vila Valério e Vila Pavão. Por pertencer à Igreja Presbiteriana, foi nela que o Programa iniciou, e logo teve o apoio e envolvimento das Igrejas Católica (paróquia Santa Mãe de Deus do Ibes) e Luterana (de Alvorada). Para organizar os voluntários foi criada a ADE composta com dois representantes de cada Igreja e eleições a cada dois anos.

Com o apoio das Igrejas e parcerias importantes com a EMESCAM (Escola de Ciências da Santa Casa da Misericórdia) e HSCMV (Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Vitória), foi possível organizar um mutirão mensal que hoje atende cerca de 200 pacientes em uma manhã de sábado e, apresentar a quem quiser ver, uma estrutura que poderia ser modelo de atendimento à saúde em qualquer lugar.

Hoje o Programa, “tem o lado acadêmico, funciona como projeto de extensão universitária, contando com acadêmicos (estudantes de medicina), enfermeiros e médicos dermatologistas. E tem o lado ecumênico e de ação diaconal que entra para dar apoio e fazer o programa funcionar organizando a logística”, explicou Wanderlea.

Rotina para atendimento

Acompanhamos o mutirão de 9 de maio. O grande número de pacientes não provocou qualquer contratempo no atendimento. Após cadastro e receber a senha por ordem de chegada começaram as consultas. De 20 a 30 pacientes por vez foram encaminhados para a sala do atendimento. Estudantes escutaram atentamente os relatos, observaram os pacientes, preencheram prontuários para registrar o histórico, tudo sob o ‘olhar clínico’ dos médicos supervisores. A movimentação no salão era constante, mas sem tumulto. Os médicos, constantemente solicitados, acompanhavam cada situação indo a cada paciente e fazendo o diagnóstico. Os acadêmicos encaminhavam os pacientes para os procedimentos e os voluntários ajudavam na orientação de salas. Em cada procedimento enfermeiros e médicos seguiam as normas e tranquilizavam os pacientes. Na sala de pequenas cirurgias, enfermeiros verificavam as condições do paciente antes da intervenção cirúrgica e assim se sucederam as rotinas enquanto pacientes esperavam por atendimento. Quem já estava na fila para algum procedimento parecia não acreditar que tudo era tão rápido.

Tratamentos

Foram os estudantes de medicina que explicaram os procedimentos que são realizados ali. Crioterapia (queimar a lesão com nitrogênio, com um jato de gelo); Eletrocautério (tratamento por laser); pequenas cirurgias (para lesões mais comprometedoras, o médico faz a retirada da lesão e envia para biópsia). O resultado da biópsia demora 30 dias e é entregue ao paciente na Santa Casa. Se confirmar que a lesão é cancerígena o acompanhamento é feito pela Santa Casa até a cura.

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Visão dos alunos

Além de atuarem no diagnóstico com a supervisão dos médicos, acadêmicos como Mariana e Júlia, que estão no 9º período, apontam o projeto como oportunidade e privilégio, pois podem ver de perto as situações e interagir com os médicos no diagnóstico. Já Jéssica Zanotti, que fica na sala de criocirurgia, tem a oportunidade de observar com mais detalhe os pacientes já diagnosticados e “perceber se a lesão é apenas aquela que o paciente apontou. Na sala ainda é possível ampliar o procedimento se for necessário”, disse Jéssica que está no 8º período e sentiu sua vocação pra medicina crescer após esse contato mais próximo com os pacientes.

Visão dos médicos

O Dr. João Basillo Filho é o responsável geral pelo Programa e atua desde o início. “Foi o Dr. Carlos que pediu porque precisava que este serviço tivesse uma ligação com a escola, com a universidade e eu estava na dermatologia lá na Emescam, achei bom e prontamente aceitei. É uma experiência muito boa e eu já sabia que seria muito bom”, disse. O médico considera o projeto um grande benefício para todos: “é um benefício para a escola (Emescam), para o hospital (Santa Casa), para nós (médicos), para os alunos, para as comunidades e para os voluntários. Aqui acontece a medicina comunitária que hoje é muito importante. Nós não temos o apoio que deveríamos, mas a gente não liga muito pra isso. Aqui eu estou praticando o bem, foi para isso que eu me formei. Tudo que é bom é muito bem vindo e o Poder Público deveria olhar isto aqui. É só saber como fazer. A gente fica aqui um final de semana sem ganhar nada, mas no final das contas se ganha”.

Para Dr. Alberto, responsável pela eletrocauteração e diagnóstico, trabalhar no Programa Salve sua Pele, “é uma gratificação pessoal e um pouco mais de conhecimento porque quando a gente ensina, ensina aprendendo e aprende ensinando. Por isso que a gente está neste projeto social como voluntário, porque o médico além de tudo tem que ter essa característica: visar mais o bem social de que outras coisas”.

DR Basillo

O lado ecumênico

Encontramos católicos, luteranos e presbiterianos entre voluntários, acadêmicos, profissionais e pacientes. Parece que a pertença a uma ou outra Igreja não faz diferença. Todos buscam fazer o bem. Para Wanderlea, “o Projeto é a ação concreta da palavra ecumenismo. No campo do ecumenismo o que acontece mais são os momentos de oração, de reflexão e debates, mas é tudo muito teórico ou celebrativo, e nem sempre a gente vê uma ação concreta. Aqui o Espírito Santo opera porque as Igrejas trabalham sem nenhuma preocupação denominacional, elas trabalham com amor, com dedicação, com carinho, no objetivo de levar o bem ao próximo e por isso conseguem angariar grandes apaixonados. Os nossos voluntários são pessoas apaixonadas por isto aqui independente da Igreja. Ninguém quer cooptar para a Igreja A, B ou C. O objetivo é prestar o atendimento, que a pessoa saia daqui curada de preferência e renovada no Espírito. Temos uma escala entre as Igrejas para a parte devocional, porque a gente está aqui não só para levar a cura física, mas também esse apoio emocional e espiritual. A ideia é trabalhar sempre para o bem do próximo e acho que é por isso que dá certo”.

E o Dr. Alberto concluiu afirmando que “o fato de ser ecumênico não tem importância quando você faz o bem social, independente de sua religião. Cada um tem a sua opinião religiosa”.

O espaço físico onde acontece o mutirão é a igreja Presbiteriana, que construiu salas adequadas para os procedimentos. Para manutenção e substituição de equipamentos, os voluntários, membros das Igrejas parceiras no projeto, promovem eventos ao longo do ano. A organização é de uma Igreja, mas todas colaboram na venda dos convites e participam do evento. O próprio bazar que acontecia no dia de nossa visita também possui essa finalidade.

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RESPONSABILIDADES DOS PARCEIROS
Igreja Presbiteriana – Espaço físico para o atendimento.
EMESCAM – Transformou o projeto em programa de extensão universitária.
Ação Diaconal Ecumênica – Logística e apoio organizacional e equipamentos médicos para pequenas cirurgias.
Hospital Santa Casa de Misericórdia – Retirada, limpeza, esterilização e evolução dos equipamentos para pequenas cirurgias e fornecimento de material descartável.
Igrejas Católica, Luterana e Presbiteriana – Manutenção do projeto, recrutamento de voluntários e eventos para angariar fundos.

Eventos previstos para 2015: em junho, noite de caldos, organizado pela Igreja Presbiteriana e em agosto um almoço organizado pela Igreja Católica.

CONTATOS PARA AGENDAR CONSULTA
Igreja Católica Santa Mãe de Deus – Ibes: 3229-2264
IPU – Ibes: 3229-7448
Albergue Martim Lutero: 3225-5386

CALENDÁRIO MUTIRÕES 2015
13 de junho
04 de julho
01 de agosto
12 de setembro
03 de outubro
07 e 28 de novembro

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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