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Chamados a ser profetas da justiça e do direito

Os profetas sublinham, fortemente, a conotação jurídica e ética presente no termo justiça. Amós em sua defesa dos mais pobres utiliza ao mesmo tempo a palavra justiça e o verbo “fazer justiça”, unindo assim a justiça aos atos de justiça (Am 5,7.24). Em sua pregação, ele denuncia a opressão dos pobres, que os próprios juízes exerciam, algo que está em contraposição direta à justiça presente no pacto de Aliança entre Deus e o povo. Na pregação do profeta, a concepção de justiça se relaciona de forma direta à Aliança de Deus com o seu povo, unindo, desta maneira, os homens ao Deus Vivente e aos seus desígnios de Amor. O agir justo, proposto pelo profeta, reconduz a um olhar para a ordem do mundo segundo o projeto de Deus presente na criação e na história da salvação, e não a uma norma abstrata de conduta.

Para Amós, a justiça, ou seja, o ato de realizá-la deve ser entendido a partir da imagem: “Que o direito corra como a água e a justiça como um rio caudaloso” (Am 5,24). Desta imagem provêm três dimensões da justiça na linguagem do AT, particularmente utilizadas na pregação dos profetas: A justiça é uma ideia dinâmica; a justiça é uma resposta e a justiça é uma atitude, uma escolha de vida.

A justiça é dinâmica: “Com que me apresentarei ao Senhor e me inclinarei diante do Deus do céu?”; a resposta logo é dada: “O que o Senhor exige de ti: nada mais do que praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o teu Deus” (Mq 6,6-8). A ideia de justiça para o profeta Amós é algo que está em movimento e agitação, uma torrente de águas. Sendo assim a justiça, na linguagem profética possui este caráter de constante busca e incansável desejo de purificação e promoção dos mais pobres e injustiçados, que estão unidos e amparados pelo incansável amor e misericórdia de Deus.

A justiça é uma resposta que se espera do povo pelos grandes feitos que o Senhor fez ao seu favor. No texto de Is 5,1-7, o profeta relata a história de um amigo que plantou uma vinha com grande cuidado e zelo, fazendo de tudo o que podia para que a mesma produzisse frutos. O seu cuidado é visto desde a preparação do solo até a construção de uma estrutura na qual fosse feito o vinho, mas os frutos não apareceram. Assim o profeta comparou a ação do Senhor para com Israel, já que, quando o Senhor veio procurar frutos de justiça no meio do povo não os encontrou. Deus sempre toma a iniciativa na direção do povo, em vista de sua Aliança, e espera do povo respostas de uma vida de justiça e reta, segundo os seus preceitos.

A justiça é uma atitude, uma escolha de vida que leva o fiel na direção do mais fraco, do mais pobre, dos indefesos, dos excluídos, enfim de todos os que se colocam em situação de necessidade. Quando se analisa os passos bíblicos que falam da justiça aparecem três categorias de pessoas: os pobres, as viúvas e os órfãos. O profeta Amós denunciou o culto vazio e desligado da justiça e da defesa da vida (Am 5, 21-27), da mesma forma o fez Isaías quando denunciou a dicotomia existente entre o culto celebrado e a vida vivida na terra de Judá (Is 1, 10-17). Fazer justiça significa, em ambos os casos, defender o indefeso e ir na direção dos que precisam, da mesma forma como o Senhor sempre fez com Israel.

Sendo assim, quando os profetas falam da justiça, as suas palavras nos conduzem aos lugares pobres das cidades, às periferias dos grandes centros onde vivem os pobres. Suas palavras nos convidam a olhar nos olhos das viúvas aflitas e dos órfãos famintos mendigando nas ruas e a olhar os jovens perdidos em nossos campos e cidades, marcados pelos vícios e pela violência. Ainda nas palavras dos profetas somos levados a contemplar os idosos esquecidos e os doentes abandonados. O testemunho dos profetas nos leva a um empenho na defesa dos fracos, como eles fizeram, rompendo com as malhas da corrupção e da miséria, dizendo um basta à exclusão e ao preconceito. A fim de que a justiça corra como água e o direito como uma torrente que não cessará jamais.

Pe. Andherson Franklin
Professor de Sagrada Escritura no IFTAV e
Doutor em Sagrada Escritura

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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