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Chamados à comunhão no seguimento de Cristo

Já no início da Quaresma, a liturgia propõe uma parte do livro do Gênesis que traz o relato da criação da humanidade. O texto não tem o intuito de oferecer respostas históricas e nem mesmo científicas sobre a criação do universo e do próprio homem. Todavia, deseja apresentar algumas das questões fundamentais que dizem respeito ao sentido da vida, qual a origem do homem, qual o seu propósito de estar aqui. O homem procura as suas próprias raízes e nessa busca contínua, comete erros e acertos nesse seu caminho de encontro consigo e com Deus. Diferentemente de todos os mitos que circulavam ao redor dos autores do livro, na época em que fora escrito em terras babilônicas, os escritores sagrados relatam a criação do homem da argila, exaltando o fato de que o mesmo ganha vida com o sopro que sai da boca de Deus. O homem foi criado frágil, pequeno, inconsistente, mas com a dignidade e a beleza de ser imagem e semelhança de Deus, chamado à comunhão com ele.

Ao utilizar o verbo plasmar para referir-se à ação de Deus ao criar o homem, o autor do texto revela o cuidado divino comparável ao de um artesão que se debruça sobre sua tarefa de criar uma obra prima, partindo de um material tão frágil quanto a argila. De fato, o homem foi criado por meio do amor de Deus que lhe ofereceu de si mesmo, seu hálito de vida, seu espírito. Tudo isso, a fim de que o boneco de barro se tornasse um homem vivente, chamado à comunhão e à intimidade com o seu Criador.

O pecado do homem é um rompimento com a comunhão com Deus, a qual ele é chamado por vocação. Como consequência, o homem é lançado na terra seguindo a sua própria sorte devido às suas próprias escolhas. A proposta de comunhão e vida de Deus para o homem é desvirtuada pelo discurso da serpente, que perverte o que o amor divino propôs, a fim de que o homem se afastasse daquele que lhe conferiu a vida. A serpente era um animal que representava os ritos de fertilidade pagãos, com os quais Israel sempre teve que lidar, muitas vezes sucumbindo à tentação de se dirigir a tais espaços para lá oferecer os seus sacrifícios. Pela boca desse animal vem apresentada ao homem uma exegese enganosa da Palavra de Deus, algo que seduz o coração do homem que acaba por preferir a voz do ídolo à aquela de seu Criador. Sendo assim, a intimidade e comunhão, originárias da relação da humanidade com Deus, que por amor criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, dão lugar à vergonha e à fuga. O homem foge e se esconde de Deus por perceber que rompeu com ele a comunhão que lhe garantia a intimidade e a bênção.

Na postura de Adão percebe-se o afastamento de Deus e a escolha da voz do ídolo, representado pela serpente. Na longa estrada de Israel em seu caminho pelo deserto, a escolha não foi diversa, pois o povo prefere se dirigir aos ídolos e abandona a confiança na providência divina. Nos dois casos a busca da proteção e segurança, mesmo que infundadas, levaram a humanidade a se afastar daquele que lhe podia garantir a vida. Jesus, por sua vez, não sucumbe ao diabo, ao divisor, aquele que separa e distancia, ao contrário, não se afasta do projeto de Deus que é de comunhão e de grande confiança. Ele sai vitorioso onde Adão e todo o Israel se perderam, ao depositar a sua total confiança em Deus ele vence a tentação e abre espaço para que os seus discípulos sigam o mesmo caminho. O próprio Jesus indica um caminho possível para os seus discípulos, no qual devem trilhar para viverem, no deserto de suas próprias vidas, em comunhão com Deus. Enquanto Adão se afastou de Deus e o desobedeceu, perdendo assim a comunhão e a graça, Cristo, de forma inversa, buscou o Pai e na intimidade com Ele se fortaleceu e saiu vitorioso sobre as tentações. Desse modo, a estrada aberta e indicada pelo Senhor é uma via para todos os que desejam trilhar o caminho do discipulado missionário, isto é, viver na comunhão com o Senhor que garante a graça e a força de serem obedientes e fiéis ao projeto de amor de Deus.

Pe. Andherson Franklin
Professor de Sagrada Escritura no IFTAV e doutor em Sagrada Escritura

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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