buscar
por

Catequese prepara surdos para receber Sacramentos

reportagem

A Igreja desde sempre teve um olhar especial para com aqueles que por uma ou outra razão ficam à margem. Em Vila Velha, uma experiência recente na Paróquia Nossa Senhora do Rosário coloca o foco no processo de inclusão dos surdos na catequese. O projeto foi iniciado por Brígida Mariani Pimenta e Kátia Baldi da Vitória.

Brígida, que é intérprete da Língua Brasileira dos Sinais (Libras) e Kátia, coordenadora da Pastoral dos Surdos, desempenham a missão da evangelização no Santuário de Vila Velha desde 2012. Elas realizam encontros com o grupo aos domingos, cerca de 25 surdos, para estudos bíblicos e preparação para a Primeira Eucaristia e Crisma.

Após o encontro, os surdos participam da Missa no Santuário. Eles ficam posicionados nos bancos em frente ao altar para visualizarem as intérpretes durante a Missa e, assim, entender todo o ritual da Celebração Eucarística.

Alguns já fizeram a Primeira Eucaristia e em julho deste ano, alguns integrantes receberão o sacramento da Crisma.

Para o pedagogo e professor de Libras Davi Queiroz Oliveira, 35 anos, que faz parte deste grupo, a emoção de receber o Cristo pela primeira vez é imensurável.

Com o auxílio de Brígida, Davi contou na língua dos sinais que sempre sentiu necessidade de aprender sobre as questões católicas, mas que por conta de sua deficiência, tinha muita dificuldade.

Ele também deixou de frequentar a catequese quando criança, já que sem o auxílio de um intérprete, era impossível compreender as palavras dos catequistas. Quando foi criada a Pastoral dos Surdos no Santuário, ele percebeu que teria a oportunidade de conhecer e desenvolver sua religiosidade.

O aposentado Jorge Assis de Oliveira, 47 anos, também abre o sorriso ao falar da preparação para a Crisma. “Eu realmente não entendia nada antes de frequentar a catequese aqui no Santuário. Toda essa preparação e entendimento que tenho adquirido com a participação no grupo, me fazem sentir uma enorme gratidão e uma alegria muito grande por estar aqui”, contou através de gestos.

É para proporcionar aos surdos essa emoção que Brígida afirma ter se preparado. Ela contou que se aproximou da Língua dos Sinais em 1995, quando conheceu o marido.

“Ele começou a me ensinar a língua dos sinais, e fui me aprimorando no aprendizado. Quando começamos a namorar passei a frequentar a comunidade surda e atuar como intérprete. Com a legalização da Língua dos Sinais pela Lei de número 10.436 de 2002, houve a regulamentação da profissão, e em 2008 surgiu no estado a primeira turma de Bacharel em Línguas de Sinais para formação de tradutores e intérpretes que atuassem nas escolas regulares.

Eu ingressei no curso e concluí o bacharelado. Como tinha uma participação ativa na Igreja, senti vontade de compartilhar minha vivência religiosa com os surdos. Eu senti um chamado muito forte, porque Deus me deu o dom de interpretar bem a Língua dos Sinais e eu queria usar esse dom para ajudar as pessoas”, relatou.

A intérprete pediu ajuda a um casal de catequistas em Cristóvão Colombo, bairro onde morava, e começou na comunidade de Santa Clara o trabalho de evangelização dos surdos. Além disso, atuava como intérprete durante as missas na comunidade.

Foi através de um convite do Frei Paulo Roberto Pereira, na época pároco no Santuário de Vila Velha para que ela participasse de um curso no Santuário, que Brígida e Katia se conheceram.
Katia explicou que seu contato com a língua dos sinais aconteceu após um período de depressão. “Fiz o curso, que para mim foi um santo remédio contra a doença, e me surgiu uma vontade muito grande de usar a língua dos sinais para evangelizar os surdos. Eu já era muito atuante na Igreja e quando vi a Brígida dando o curso, resolvi convidá-la para trabalharmos juntas nessa missão”, relatou.

Segundo a coordenadora, depois de dois anos de encontros com o grupo de surdos no Santuário, ela entrou em contato com a coordenação da Pastoral do Surdo Nacional e relatou o trabalho que estava sendo desenvolvido. Foi então que em 2014 elas receberam o aval da Pastoral Nacional para oficializar a Pastoral dos Surdos na Paróquia Nossa Senhora do Rosário.
No ano passado, a pedagoga Simone Angeli Santos, se uniu ao trabalho de Brígida e Katia na Pastoral, passando a atuar na evangelização e como intérprete auxiliar durante as missas. Ela contou que conheceu a língua dos sinais durante a faculdade, cursada em Montes Claros, Minas Gerais, quando um colega surdo fez com que ela se interessasse pela Libras.

“Direcionei o curso para essa área, fiz cursos de especialização e me tornei intérprete, passando a atuar na igreja de lá. Quando mudei para Vila Velha, algumas pessoas me falaram da Pastoral dos Surdos e procurei a paróquia para entrar em contato com elas”, relatou.
Para Simone, o fato de se colocar à disposição dos surdos para a evangelização é uma forma de agradecer a Deus pela oportunidade profissional que teve com a língua.

“Eu pude fazer da língua dos sinais a minha profissão, trabalhando com crianças surdas em salas de aula. O trabalho de evangelização é uma forma de agradecimento por eu ter tido essa oportunidade profissional”, explicou.

Para o frei Djalmo Fuck, atual pároco do Santuário de Vila Velha a oportunidade que está sendo dada aos surdos de conhecer o Evangelho é de imensa importância.

“Do meu ponto de vista, acho que a Pastoral tem desenvolvido um trabalho muito importante, que tende a crescer, pois provoca na comunidade uma reflexão de acolhida dessas pessoas, e a gente precisa ser, cada vez mais, uma Igreja que promove a inclusão. Temos o desafio de futuramente oferecer para a comunidade não surda o curso de Libras, colaborando para possibilitar aos surdos uma inclusão não apenas na igreja, mas em todos os segmentos da sociedade”, disse.

O frei afirmou ainda que o Santuário de Vila Velha se tornou uma referência para os surdos e a atuação de evangelização da pastoral tem sido para eles motivo de muita alegria.

Esta alegria está estampada no sorriso da auxiliar administrativa aposentada Mirtes Pereira de Oliveira, 63 anos. Através da língua dos sinais ela contou que se sente muito feliz e agradecida por ter a oportunidade de entender realmente o Evangelho.

“Fiz minha Primeira Comunhão e agora serei crismada. Estou sempre na igreja e não falto aos encontros de catequese. É muito bom vivenciar a fé quando a gente consegue ter entendimento sobre ela”, contou através dos gestos.

Mas a alegria também contagia as pessoas que frequentam as Missas no Santuário. Emocionados com o testemunho de fé dos surdos, algumas pessoas tem usado as redes sociais para postar mensagens de apoio e incentivo ao trabalho da Pastoral.

Depois de participar de uma missa no Santuário com a presença das intérpretes e do grupo de surdos, o seminarista Vítor César Zille Noronha postou em sua página no Facebook.

“Uma iniciativa muito importante e que deve ser copiada em todas as Igrejas de grande porte. Por dois motivos; o primeiro é que os fiéis têm a oportunidade de participar mais ativamente da Santa Missa, não há graça maior do que essa. Em segundo, porque é um passo importante rumo a uma Igreja mais próxima, mais inclusiva, mais samaritana! Deus abençoe a Pastoral dos Surdos!”, escreveu em seu post.

Sempre presente nas missas de domingo, Elenir Costa Basseti, integrante do Apostolado de Oração, disse que é emocionante ver a participação e o envolvimento dos surdos nas Missas. “Eu consigo ver o Cristo e Maria dentro dos olhos deles”, comentou.

grupo de surdos - leitura do Evangelio grupo de surdos e coordenadoras da pastoral

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS