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CANTANDO A GENTE APRENDE A TRANSFORMAR

entrevista 1O bairro de periferia onde nasceu e as dificuldades sociais que vivenciou na infância não impediram a maestrina Alice Nascimento de fazer da música uma ferramenta para modificar o contexto em que estava inserida. Aos cinco anos ela colocou na cabeça que queria aprender a tocar piano e na adolescência, quando conseguiu trabalhar e pagar um curso, desenhava em uma tábua o teclado do instrumento para não esquecer a lição. Atualmente Alice é regente do Algazarra Coral, um projeto social que possibilita dezenas de jovens a também encontrar um caminho diferente através da música.

Todo mundo pode cantar ou é necessário ter uma voz bonita, um dom?
Alice – Sim, todo mundo pode cantar. A música não é apenas para quem tem uma linda voz. Nós somos seres musicais, nosso coração bate de forma musical, rítmica, a gente caminha de forma rítmica, a gente fala de forma melódica. Acontece que algumas pessoas demonstram mais facilidade para a música, um carisma vocal maior, mas somos musicais e a desafinação, é na maior parte das vezes, apenas falta de experiência musical, de orientação musical.

Você trabalha a música dentro de um contexto social, com jovens de periferia que convivem com problemas sociais complexos. A música tem um papel transformador?
Alice – Eu tenho certeza. A música transforma, a arte transforma, a expressão artística transforma. A música vem, entra e move de uma forma que é impossível não se modificar, porque ela sensibiliza, ela vai tocar em todos os pontos sensíveis das pessoas e vai ajudar a questionar, a refletir. Quando se trata da música vocal, isso é potencialmente mais forte, porque é impossível você cantar sem olhar para si. É impossível aprender técnica vocal sem ter que olhar para dentro. As pessoas até conseguem tocar um instrumento por bastante tempo sem olhar para dentro de si, mas cantar não, elas têm que olhar. O som precisa passar pela traqueia, precisa vibrar na cabeça, a gente precisa ouvir a voz do outro porque também cantamos em grupo e isso tudo é uma construção como pessoa e é um crescimento fantástico.

Os jovens ou as crianças que chegam para cantar no coral têm essa consciência? O que você acha que as faz chegar até você?
Alice – Elas estão lá para cantar. A música é fascinante e está inserida em todo o contexto da nossa sociedade. Ela está inserida nos ritos religiosos, nos meios de comunicação e em todos os meios de entretenimento. Então é natural que as crianças e os jovens tenham esse fascínio, de querer lançar mão da música para se expressarem através dela. Acredito que é isso que os faz ir até alguém que os oriente. Agora, o que os faz permanecer, que é a essência do projeto, é eles experimentarem acessar a expressão artística musical. Essa é a minha teoria.

Alguma transformação nesses jovens e crianças marcaram você?
Alice – Sim, em muitos. Teve uma história que me marcou muito, a experiência que tive com um menino que era muito fechado, que ninguém conseguia se aproximar dele no coral. Essa criança estava lá porque era um projeto social e enquanto ele estava ensaiando a mãe podia trabalhar. Não era algo que ele queria, mas era muito importante que ele ficasse lá porque ele não podia ficar sozinho em casa. Na época eu sugeri que a gente iniciasse um trabalho de coro para os pais das crianças que participavam do projeto para tentarmos acessar melhor a comunidade, e para a felicidade de todo mundo a mãe dessa criança veio participar. Aos poucos eu fui entendendo a história. O menino, uma criança que não foi muito aceita, fruto de um relacionamento que não tinha dado certo. Na época, a mãe estava vivendo outro relacionamento e tinha tido uma outra criança. Então, quando a gente percebeu isso, após criar vínculos com ela, comecei a conversar até que lá na frente, ela entendeu o que estava acontecendo com o menino. Eu lembro como se fosse hoje; ela desabou chorando e falou “eu vou para minha casa porque eu amo meu filho”. Essa família tem contato comigo até hoje e em vários outros momentos essa mãe verbalizou que o contato deles com o coral mudou a vida da família inteira.

A música tem função de resgate?
Alice – Olha, eu acho sim. Eu acredito que, por exemplo, uma pessoa que se sabota, que se machuca, que se agride usando algum tipo de entorpecente, algum tipo de droga, está pedindo socorro. Eu acredito que a linguagem artística tem a função de despertar no ser humano o seu lado sensível, colaborando para que ele faça escolhas positivas. A música é uma forma de expressão, independente de ser uma profissão ou não, e penso que o ser humano que não tem a oportunidade de trabalhar a sua expressão artística, fica incompleto. Não estou dizendo que trabalhar esta expressão é suficiente para livrar as pessoas de qualquer coisa, mas quando isso acontece a pessoa vai ter olhado muito mais para ela, vai ter se conhecido, conhecido seus limites, suas vontades, sua essência.

Quando olha para a juventude você vê esperança?
Alice – Olha, apesar de eu ser bastante racional por um lado, eu vejo sim. Eu vejo bastante esperança porque é uma juventude que discute preconceito. Quando eu tinha 16 anos, a gente não discutia preconceito, é uma juventude que está discutindo política, do jeito deles, mas está. Quando eu tinha a idade dessa meninada, eu sequer sabia o que acontecia no mundo. E olha que eu era bastante preocupada com o meu futuro por causa da minha história, do contexto em que eu estava inserida, de menina de favela que precisava batalhar para vencer. Então, eu vejo uma juventude um pouco menos encanada, um pouco menos estressada no sentido de regras, dessas regras que realmente não ajudam muito e ao mesmo tempo discutindo coisas de fato importantes, como por exemplo, o preconceito em todas as suas formas. A juventude de hoje em dia discute o respeito e eu acho isso fascinante.

entrevista 2

Andressa Mian
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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