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BOMBEIRA, ATLETA, PENHA, MARIA, PEPENHA.

entrevista

Quando você foi para os bombeiros e deixou a natação, a manchete dos jornais era: Pepenha troca maiô pela farda. Podemos dizer agora que você quer trocar a farda pelo jaleco?
Pepenha – Eu acho que a vida é uma constante transformação e eu vou trocando e dentro disso me transformando, mas não deixo meus princípios.

O que não mudou das crenças, valores e princípios?
Pepenha – Eu me identifiquei muito com o bombeiro porque eu sempre gostei de ajudar as pessoas, então juntei a capacidade física que consegui na natação para desenvolver o bombeiro. O bombeiro me despertou ainda mais para querer ser médica e poder ajudar mais as pessoas. Mas os princípios, as crenças, os valores, esses são os mesmos.

Gosta de trocas, de mudanças?
Pepenha - Não é que eu gosto, eu me adapto bem a transformações. Eu sou uma pessoa maleável, adaptável às situações, eu sei que a vida precisa de transformações.

Qual a sua expectativa com a medicina?
Pepenha – Outra característica que eu tenho é de me dedicar muito ao que eu faço, me entregar, me envolver. Quando eu era nadadora sempre me envolvi muito e tentei dar o meu máximo. No bombeiro também e, na medicina é a mesma coisa eu me envolvo muito e me dedico muito. Não que eu vou ser a melhor médica do mundo, mas eu vou dar o meu melhor.

Quando nasceu a vontade de ser médica?
Pepenha – Quando eu tinha 4 anos as pessoas me perguntavam o que queria ser e eu falava que queria ser médica legista, mas virei bombeiro ou contrário das crianças que querem ser bombeiro e viram médicos, então eu entrei na faculdade querendo isso, mas o leque é muito grande e você vai se apaixonando por tudo.

A medicina é muito visada, salário no atendimento público é baixo, as pessoas reclamam de mau atendimento por parte de alguns médicos, há falta de especialistas em algumas áreas. A constatação de uma carência poderia te ajudá-la a decidir?
Pepenha – Infelizmente não. Eu queria que fosse assim para ajudar, por exemplo a pediatria está precisando muito de profissionais, mas eu quero trabalhar com alguma coisa que eu me identifique.

Nas atividades que você desempenhou, desempenha e na medicina tem muita frustração também: perder um campeonato, não conseguir resgatar alguém que está em perigo, não conseguir salvar uma vida. Como você lida com a frustração?
Pepenha – Aí a natação já me ajudou desde o início porque eu fui uma criança bem cuidadinha em casa e não tive tantas frustrações. Quando eu saí de casa começaram as frustações de ver o mundo real. No início parecia que a natação era perder ou ganhar, eu pensava, vou treinar mais e vou ganhar mais. Parecia que só dependia de mim. Mas quando eu fui para o bombeiro as frustrações aumentaram, a situação piorou e é bom que vai aumentando devagarinho para a gente ir amadurecendo e entendendo. Nos bombeiro além das tragédias que a gente entra sabendo que vai ver, mas que faz sofrer porque às vezes é criança, é gestante, além disso, o meu convívio mudou porque não eram pessoas da minha família, não eram pessoas da natação que viviam mais ou menos o mesmo perfil que eu, os meus objetivos, as mesmas intenções, eram pessoas completamente diferentes, com idades completamente diferentes, de realidades completamente diferentes e eu tive que conviver com pessoas de todos os tipos. Passei a ver gente amiga que trabalhava no mesmo batalhão que eu, pulando de ponte, pessoas próximas, pais de amigos que morreram, e tive que conviver com frustrações e com a realidade de outras pessoas, pessoas normais (não aquelas que a gente vê na TV), pessoas como a gente que estão ali trabalhando e com problemas psicológicos, nessa hora eu recorri à natação. Eu procuro fazer atividade física que é o meu descanso, encontro pessoas que estudam, trabalham, igual a todo o mundo, mas tiram aquele tempo para se divertir, desestressar.

O exercício físico é um descanso?
Pepenha – A natação para mim é como se fosse uma meditação, eu entro para nadar ou saio para dar uma corridinha, como se estivesse meditando, é mais para a minha cabeça que para atividade, claro que acaba sendo bom para o cardiorrespiratório, mas é mais para a minha cabeça, senão eu não aguento. Tem quase um ano que eu fui transferida para trabalhar no CEODES, Secretaria de Segurança Pública. Então eu fico de 7 da manhã às 7 da noite vendo doença na escola, no hospital. Saio do hospital e vou para o Ceodes e vejo tragédia das 7 da noite às 7 da manhã e assim eu fico, trabalho dois dias e folgo 4 nessa escala de doença / tragédia.

Da natação você trouxe alguma coisa que te ajudou nos bombeiros. O que vai levar dos bombeiros para a medicina?
Pepenha – Eu acho que amadureci muito com as coisas que eu vivi. Aprendi a me dedicar porque as minhas frustrações estão relacionadas à vida de outras pessoas e, se falhar, pelo menos eu dei o meu máximo. Eu também sou muito religiosa, sei que tudo tem um propósito, sempre coloco tudo nas mãos de Deus, a minha vida, os meus planos. Faço o meu melhor e confio. Então para descansar eu nado que é a minha meditação ativa e vivo a minha fé na minha religião.

Sua mãe me contou sobre sua fé. Disse que de criança você puxava o terço na catedral, como é hoje?
Pepenha – Minha mãe é muito religiosa e eu acho muito importante desenvolver o que eu chamo de vidas: cuidar da saúde, fazer um lazer, ter uma espiritualidade, isso ajuda a desenvolver. No meu caso sou católica, identifico-me muito com a religião, gosto do ritual, de chegar num lugar e procurar a Igreja, encontrar o padre, gosto dos ritos da Igreja, do silêncio, das leituras, a gente interpreta conforme o momento, quando eu estava na natação interpretava de um jeito, no meu relacionamento de outro jeito. Tentar fazer o certo dentro da Igreja é mais fácil, mas fora é mais difícil. Então, eu estou lá nos bombeiros, lá na faculdade, mas eu volto para a Igreja para ver se estou indo bem, se é por aí. Se eu escuto as leituras e vejo que estou fazendo diferente, então eu sei que está errado, aí é um momento de reflexão.

Você carrega tudo de bom que vai aprendendo?
Pepenha – Não parei para pensar nisso, mas é um aprendizado, a gente vai amadurecendo e vai percebendo a maneira melhor, a mais fácil, mas são aprendizados. Eu não gosto de falar que é bom ou ruim. O que eu carrego não sei se é bom, mas são aprendizados e eu vejo se é o melhor para mim e para as pessoas que estão ao meu redor, é melhor para conviver. Para mim conviver é um desafio.

Como nasceu o apelido Pepenha?
Pepenha – Pepenha é o nome artístico. Quem criou foi a minha professora de piano, ela me colocou esse apelidinho e quando eu fui para a natação já era Pepenha.

Confortável para você?
Pepenha – Sim, é. Do jeito que Maria é, do jeito que Maria da Penha é. Eu gosto de Maria acho forte, Maria da Penha, Pepenha, tanto faz.

entrevista4A gente procurou você porque julho é o mês do bombeiro. Qual a mensagem para a sua categoria?
Pepenha – Hoje eu estou um pouco distante quase nem me sinto muito bombeiro atendendo o telefone. Eu fiquei 7 anos na prontidão, fui motorista do caminhão durante 3 anos e eu vivia muito mais. Atender o telefone é importante, mas às vezes acho que eu contribuía muito mais na prontidão. Eu faço o meu melhor e é esse o recado que eu deixo para que eles não percam esse amor ao próximo, essa vontade de ajudar. Ainda que a gente tenha dificuldades administrativas e diferenças salariais, a gente sofre com diferentes aumentos de postos dentro da organização, ainda que a gente tenha um regime fechado que é um militarismo, já entramos sabendo que éramos subordinados à secretaria de segurança pública que por sua vez é subordinada ao governo do estado. Já sabíamos que estávamos sujeitos a aumentos diferenciados ou a não ter aumento, mas isso não pode deixar que a vontade de ajudar o próximo se perca, nosso objetivo principal, nosso juramento em ajudar o próximo até com o risco da própria vida, não pode se perder.

Maria da Luz Fernandes
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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