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Boatos e desinformação nas redes sociais

Quem nunca compartilhou uma notícia alarmante ou polêmica nas redes sociais e aplicativos de celular e depois de algum tempo descobriu que a informação se tratava de um boato? A atitude, comum no mundo todo e no Brasil, foi alvo de um estudo realizado pela agência Advice Comunicação Corporativa, por meio do aplicativo BonusQuest, em novembro do ano passado.

A pesquisa indicou que 78% dos brasileiros se informam pelas redes sociais, destes, 42% admitem já ter compartilhado notícias falsas e só 39% checam com frequência as notícias antes de difundi-las.

Antes conhecidas como hoaxes, as informações falsas disseminadas na internet são também conhecidas como pós-verdades. Infelizmente, o que para muitos parece um hábito inocente, sem grandes prejuízos, na verdade pode causar danos à saúde das pessoas, influenciar ou modificar a opinião pública ajudando a reforçar um pensamento errôneo e até mesmo mudar o rumo político e econômico de um país, dependendo da influência deste país, com repercussões em todo o planeta.

Para exemplificar a última colocação basta avaliar a quantidade de boatos que circularam nas redes sociais durante as últimas eleições nos Estados Unidos sobre os dois candidatos à presidência, e que segundo avaliação de especialistas, influenciaram os eleitores norte-americanos.

Mas não precisamos sair do Brasil para avaliar o estrago que esse tipo de notícia traz. Os últimos acontecimentos políticos e econômicos do país estão sendo um prato cheio para a propagação de boatos.

Para o coordenador Geral da Faculdade Pio XII e economista Marcelo Loyola, boatos na área da economia são difíceis de serem desmentidos imediatamente, e podem levar a problemas maiores. O endividamento é um deles.

“Notícias que informam queda da inflação porque o país está em recessão são boatos. Com a recessão há desemprego, e claro, as pessoas passam a consumir menos. Com isso, os empresários vão produzir menos, e haverá menos oferta o que não significa queda nos preços. As pessoas se enganam com isso e passam a comprar sem poder”, esclareceu.

Outro assunto importante da área econômica foi abordado pelo vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-ES), Eduardo Araújo. Ele chamou a atenção para as discussões sobre a reforma da Previdência.

“Notícias divulgadas recentemente informaram que a Previdência não tem deficit. Isto é um boato. Só do Governo Federal nós temos um deficit superior a R$150 bilhões nas contas da Previdência. Se incluirmos os trabalhadores do regime celetista, o deficit atinge 300 bilhões. Acontece que algumas correntes de economistas, algumas associações, até por uma questão de interesses, pois estamos lidando com o jogo político, fazem esse tipo de afirmação e tentam provar através de equações sofisticadas.

Quem acompanha as informações na política, afirma com tristeza que a guerra de informações falsas faz parte do jogo. O professor Paulo Moura, cientista político com mestrado pela Universidade Federal do Rio Grande Sul (UFRGS), comentou que quem cria esse tipo de notícia está pensando em produzir uma mudança, em um curto espaço de tempo, para alterar o comportamento das pessoas.

Tal fenômeno é avaliado com preocupação pelo historiador Rafael Simões, pois ele defende que um dos critérios básicos da democracia é a participação das pessoas nas mais diversas questões do país.

“A disseminação de informações inverídicas contribui para uma participação baseada em premissas falsas e isto é muito ruim. Não é justo que a ideia de liberdade de expressão dê o direito às pessoas de mentir. É necessário punir quem cria estas notícias e estimular nas pessoas que têm o costume de compartilhar, o hábito de checar a procedência dessas informações”, avaliou.

Na opinião do professor do curso de Comunicação da Ufes, Fábio Goveia, as pessoas não estão preparadas para a democratização da informação, na qual todos são produtores de notícias, sendo necessário processos educacionais para que tal processo se aperfeiçoe.

A saúde é outra área que também é alvo dos boatos, e nesse caso com o agravante de colocar em risco a vida das pessoas.

A oncologista Edelweiss Soares lembrou o caso da substância fosfoetanolamina, conhecida como pílula do câncer. O uso desta substância passou a ser propagado quase como milagroso e dezenas de histórias de pessoas curadas circularam nas redes sociais e veículos de notícias.

O caso ganhou repercussão nacional, com aprovação, no Congresso Nacional, de uma “lei pela vida” que autorizava a comercialização da substância, sem qualquer estudo que comprovasse a eficácia. No final de março deste ano, o Instituto do Câncer decidiu suspender os testes com a substância porque nenhum resultado satisfatório foi obtido após uso em 72 pessoas com dez tipos diferentes de câncer.

“Estive recentemente com o chefe do Hospital Sírio Libanês, Paulo Rossi, ele relatou que de acordo com seus estudos sobre essa substância, em vez de ajudar o paciente, ela pode agilizar o processo do câncer e levar a pessoa a morte mais rapidamente”, contou.

Edelweiss orienta que as pessoas pesquisem mais e aguardem estudos científicos que comprovem a eficácia de tratamentos alternativos divulgados na Internet.

Esta também é a opinião da pediatra Cláudia Roldi. Cláudia chamou a atenção para um vídeo de uma mãe lavando o nariz de uma criança usando seringa e soro fisiológico. “Essa técnica é uma forma incorreta. O canal da narina de um bebê é muito pequeno e tudo é interconectado; o canal do olho, do ouvido, o pulmão. Já temos casos de aspiração pulmonar por causa dessa técnica. O que aquela mãe fala no vídeo é uma inverdade, um absurdo. A forma correta é lavar as narinas de crianças é usando um conta-gotas, de forma delicada, sem aplicar jatos”, esclareceu.

Ainda na área da saúde, a nutrição é outro tema que dá margem a milhares de boatos. “Parece lugar comum, mas não existem fórmulas mágicas para alcançar um corpo magro e saudável. Não existem alimentos que eliminem gordura, ou dietas mágicas que façam a pessoa emagrecer do dia para a noite como tem sido difundido insistentemente nas redes sociais” A afirmação é da nutricionista Mariana Herzog que defende a reeducação alimentar e a prática de exercícios como a única fora saudável para eliminar o peso.

“Dietas da moda como a Low Carb, a dieta intermitente, a dieta do glúten e outras farão a pessoa emagrecer sim, mas por privação de alimentos. Isso não é legal, pois as pessoas não conseguem se privar desses alimentos para o resto da vida e, além disso, esse tipo de alimentação pode desencadear transtornos alimentares. Muitos se privam de certos alimentos e quando se permitem, comem exageradamente. Em seguida vem o arrependimento”, ponderou.

Mas como saber se uma informação encontrada na Internet é verdadeira ou não. O especialista em Segurança da Informação, Gilberto Sudré orienta que a primeira atitude é verificar o site no qual a informação foi divulgada. Sites de notícias sem referências de profissionais, com nomes esquisitos, com erros de português no título ou no corpo do texto, não têm credibilidade.

Outra dica é pesquisar no Google e verificar como os grandes portais de notícias estão tratando aquele tipo de informação. Se não há registro nesses sites mais conhecidos, provavelmente a informação é falsa.

Sobre as motivações que levam pessoas a criarem informações falsas e disseminá-las na Internet, Sudré explica que muitos sites se beneficiam financeiramente quando acessados pelos usuários.

“Acontece que existem banners de anúncios nesses sites e o valor das propagandas aumentam de acordo com o aumento no número de acesso desses sites”, esclareceu.

O Diretor de Tecnologia de Informação Raonny Lourenço, confirmou a afirmação de Sudré dizendo que conteúdos apelativos impulsionam as visitas. Além disso, Lourenço conta que muitas pessoas criam notícias falsas apenas para criar polêmica. “Existe este tipo de atitude sim, infelizmente”, observou.

Para ele, as pessoas gostam de criar notícias para polemizar ainda mais alguns temas, promovendo a desinformação em grande escala.

A checagem sobre a veracidade de uma informação pode ser feita em sites especializados. Os mais conhecidos no Brasil são o www.boatos.org, criado em junho de 2013 pelo jornalista Edgard Matsuki e o site www.e-farsas.com , criado no dia 1 º de abril de 2002 e mantiddo pelo ex-pedreiro e atualmente analista de sistemas Gilmar Lopes.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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