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AS REFORMAS DE FRANCISCO E ALGUMAS RESISTÊNCIAS

Em função do convite que me foi feito pela Coordenação do Sub-Regional da CNBB para falar a respeito das reformas do Papa Francisco, gostaria de partilhar com os leitores da Revista Vitória algumas reflexões ali apresentadas. Volta e meia ficamos sabendo de questões que o Papa expõe para o público, e nem sempre as pessoas têm um conhecimento básico para entender o que está sendo veiculado pela imprensa.

Durante os encontros ocorridos antes do conclave que escolheu o Cardeal Bergoglio como Papa, um ponto aparecia em todas as propostas de pauta a ser desenvolvida pelo futuro pontífice que se referia à reforma da Cúria Romana. E foi na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium que o Programa de reforma foi apresentado para toda a Igreja.

O Papa expõe de maneira bem clara como pretende conduzir este processo: “Convido a todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades” (EG 33). Superação do projeto do “sempre assim” (EG 33). Renovação das estruturas, dos métodos, das linguagens, do papado, das paróquias, da teologia (EG 27-39).

Diante disso fica claro que Francisco não está se referindo apenas às reformas da Cúria romana, mas de toda a Igreja. E tem recebido algumas oposições dentro da própria hierarquia. Em 22 de dezembro de 2016, ele mesmo nominou os vários tipos de resistências. E com isso, volta e meia, vem a público algumas reações que são assim identificadas: há oposições claras e diretas reconhecidas pelo próprio Papa. Contudo, há uma rejeição mais sutil que é majoritária entre os membros da hierarquia: a indiferença aliada à insatisfação silenciosa e a oposição reprimida. Essas resistências ocultas são as piores, pois constroem um verdadeiro boicote de toda renovação e mantém intacto o fluxo regular da rotina pastoral. Francisco chama isso de resistência malévola.

O grande desafio do Papa, na verdade, não se refere à reforma das estruturas, mas a mudança de mentalidade que está impregnada nas pessoas. Por isso, de maneira frequente e sem medo expõe publicamente os problemas relativos ao “carreirismo” e à necessidade de “sacerdotes das ruas”, de padres que fazem barulho e criam confusão (no bom sentido) superando aqueles que estão satisfeitos com a manutenção da ordem estabelecida por leis e costumes entranhados numa burocracia eclesiástica.

As reformas franciscanas pressupõem uma conversão pastoral baseada no Querígma e na formação de uma nova cultura tendo por princípios a sinodalidade e a colegialidade, princípios estabelecidos no Vaticano II. As reformas não podem se apresentar como belos discursos repetidos, mas sem implicação ética. As reformas são propostas para toda a Igreja como sementes de transformação e mudança de valores e práticas enquanto caminho para uma Igreja colegial e sinodal. Este é o grande desafio de suas reformas.
Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciência da Religião

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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