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As paredes e a solidão sonora

Um jornalista foi entrevistar o poeta vietnamita Ho Chi Minh que ficou vários anos preso. Perguntou ao poeta como ele conseguiu fazer poesias tão belas, suaves e amplas vivendo em lugar tão estreito e injusto como era aquela prisão comunista. O poeta respondeu com extrema simplicidade: “Eu só desvalorizei as paredes!”.

Também São João da Cruz ficou preso nove meses no cárcere conventual de Toledo, Espanha, em 1578. Nove meses sem permissão para celebrar a Santa Missa, nem tomar banho ou trocar a roupa… Naquele cárcere escreveu suas mais belas e profundas poesias místicas: “No Amado acho as montanhas, os vales solitários, os bosques, as ilhas mais estranhas, o barulho dos rios e o sussurro dos ares amorosos, a noite sossegada, o raiar da aurora, a música calada, a solidão sonora, a ceia que recreia e que enamora”.

Todo ser humano sente-se aprisionado por alguma coisa em algum momento da vida. A prisão do trabalho e do trânsito; está preso às contas para pagar no final do mês, aos deveres familiares… Talvez, a prisão maior seja a própria condição humana: estamos presos à nossa fragilidade, pequenez, impotência diante de problemas ou circunstâncias da vida que são maiores do que nós. Estamos todos presos ao tempo que passa e à morte que se aproxima!

A sabedoria está em desvalorizar as paredes. Olhar além das paredes da condição humana, isto é, olhar a vida com os olhos da fé. A contemplação é olhar a realidade com os olhos de Deus. O cristão pensa e age de acordo com o pensar e agir do divino Mestre: Jesus. Somos discípulos e, concomitantemente, missionários. A fé nos faz enxergar um horizonte infinito, além das paredes da realidade humana. A realidade humana é a caverna de Platão. Há vida além da caverna. Cristo ressuscitado literalmente saiu da caverna e nos mostrou a luz da vida!

Precisamos continuamente reeducar o nosso olhar (conversão!) para enxergarmos a vida com os olhos de Deus. Termino, com um singelo relato verdadeiro: Depois de uma noite de vento e chuva, uma menina, ao ver a calçada forrada de folhas e pétalas de flores, exclamou: “mãe, essa noite choveu flores!”.

Dom Rubens Sevilha

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Vitória

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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