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Aprisionamentos e perdas

A utilização de toda e qualquer abordagem voltada para o crescimento econômico deve ser feita a partir de reflexão crítica sobre sua formulação original e o contexto histórico do local onde se quer aplicá-la. Defendida por aqueles que veem a globalização como irrefutável e inevitável, a abordagem de cadeias produtivas busca identificar oportunidades para inserção de regiões/segmentos econômicos em alguma etapa do processo produtivo mundializado.
Identificação que pode ser buscada na qualificação de pessoas, pelo baixo custo da mão de obra, pelo descaso para com o meio-ambiente, pela disponibilidade de recursos naturais, dentre outros fatores. Entendido e aceito que a lógica do processo de inserção da região/segmento pode ser perversa, é necessário que políticas públicas sejam estabelecidas com o objetivo de assegurar a sustentabilidade econômica, social e ambiental do crescimento almejado.

Políticas públicas que devem ser construídas a partir de visão crítica do que é importante para o processo de globalização e o que é fundamental para o desenvolvimento da região/segmento. Visão crítica necessária, porque nem sempre os interesses imediatos da globalização são convergentes com os objetivos de desenvolvimento. Na falta de convergência imediata, há que se ter clareza em prol de quem se deseja fomentar o crescimento.
Aprisionar-se ao conceito e aceitar pressões dos elos mais fortes como única alternativa possível para o desenvolvimento, empobrece a discussão e pode causar deteriorações. Deteriorações que muitos preferem desconsiderar como a que ocorre nos postos de trabalho e na qualidade do ar, solo, cursos d’água.

Deteriorações impossíveis de serem ignoradas quando se tornam tragédias. Tragédias como a provocada pela Vale/BHP/Samarco há quase dois anos; e como a que recentemente resultou do transporte indevido de um bloco de granito. Ênfase para o fato de ambas serem consequência da ânsia de crescer com base na exploração de recursos naturais. Crescimento insustentável a médio prazo pela própria finitude do que a natureza pode prover.
Finitude desconsiderada quando se apregoa um modelo de crescimento que busca inserir o Espírito Santo em cadeias produtivas cujos elos que mais se beneficiam ficam bem longe daqui. Inserção que pode ser feita de forma melhor qualificada.

Qualificação que leve à geração de riquezas que contemple valores sociais, culturais e ambientais para além do que deseja o abstrato mercado. Aceitar o mercado como uma abstração torna-o algo a ser venerado e acima do bem e do mal; como se fosse absoluto e inquestionável em seus objetivos de ganhos imediatos.

Veneração que causa tragédias como as da Vale/BHP/Samarco e a do bloco de granito. Em proporções diferentes, tragédias que causaram danos humanos, sociais e ambientais. Danos que precisam ser explicitados para que responsáveis sejam punidos; danos a serem reverenciadas com atitudes fora dos aprisionamentos acríticos de cadeias produtivas e de outras abordagens voltadas para o crescimento a qualquer custo.

Arlindo Villaschi
Professor de Economia 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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