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Amor pra recomeçar

Entre tantas coisas que me vem à mente quando me ponho a responder à convocação do fim do ano litúrgico está esse verso: amor pra recomeçar. A frase já foi cantada por outros, mas é Cazuza da época do Barão Vermelho quem me recorda esse amor. “Desejo que você tenha a quem amar, e quando estiver bem cansado, ainda exista amor pra recomeçar”. É tempo, por que não, de se propor a estas meditações sobre o fim… pra recomeçar.

Para além de todo fim, teimosos na esperança, descortinamos no horizonte de todos os eventos um recomeço. Para além de um dia, outro. Para além de um ano, outro. Para além de uma vida, outra. Não outra vida porque depois da morte, mas outra porque depois da decisão que o fim nos pede.

Qual decisão? Aquela que se levanta da clara visão acerca da precariedade e provisoriedade das coisas. Aquela que se ouve em ruído estrondoso e desestabilizador questionando nossos vícios e apegos: o que estamos fazendo de nossas vidas? O que queremos fazer de nossas vidas?

Decisão que se firma na necessidade premente de redescobrir a vida como supremo e absoluto dom. Decisão que afirma da vida a beleza que é sua força de transformar-se. Converter-se para viver. Viver para mudar. Que o fim me peça e me exija belezas, aquelas que decorrem dos recomeços, da não oposição a eles, mesmo e apesar das dores e sofrimentos que podem acompanhá-los.

Se pode ser um tanto dramático o exercício de pensar o fim – como nos incitam as leituras dos últimos dias do ano litúrgico – ainda assim é salutar entrar nestes pensamentos. Mesmo que seja desagradável pensar nisso quando as notícias mostram evidências claras e irreversíveis dos maus tratos que ao planeta impomos, ainda assim parece produtivo exercitar-se nas meditações sobre o fim.

Olhamos o fim para, quem sabe, ganhar na vista uma nova capacidade, a de enxergar o mal que fazemos, o bem que deixamos de fazer, e o que podemos fazer para que a vida seja mais em todos e em todo o mundo.

Fato é que a vida está a nos pedir mais, muito mais: humildade para recomeçar. Não somos deuses. (É sempre bom que alguém nos lembre isso como fez aquela agente de trânsito ao juiz parado numa blitz lá no Rio de Janeiro). Não somos deuses, não podemos continuar destruindo este mundo simplesmente porque não temos poder de fazer outro. Não podemos prejudicar a vida e nem expô-la a tantos riscos simplesmente porque não temos poder nenhum para fazê-la surgir.

Digamos de novo, fato é que a vida está a nos pedir mais, muito mais: coragem para recomeçar. Há muito por fazer. Não podemos exigir de ninguém hombridade, honradez e dignidade se não começar em nossas mãos o gesto transformador das duras realidades que nos massacram.

Enfim, fato é que a vida só se abrirá em nova porta se dela nos aproximarmos com a chave: amor pra recomeçar. Pois bem, desejo a todos um feliz fim de ano, um feliz Natal, um feliz 2015. Mas especialmente desejo que em qualquer situação sempre em nossas vidas exista amor pra recomeçar!

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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