buscar
por

A VIDA SE REJUBILA

Revista Setembro - VII.cdr

Somos o universo admirável e infinito concentrado. Somos o mundo de Deus vasto e maravilhoso sintetizado. Somos as abertas distâncias e grandiosidades contraídas. Somos água, terra, luz e ar resumidos num corpo. Somos uma pequeníssima parte do tecido do cosmo que ao se dobrar sobre si mesmo nos criou como uma sua interioridade.

Descobrimo-nos e experimentamo-nos como vida.
Para além do fogo e da imensidão, das luzes e escuridões, dos vazios e das explosões o universo se rejubila em e através da vida e de cada um de nós. De nossa parte, vindo à luz e dela tomando posse, nos vemos encantados com o mundo e com tudo que nos rodeia, atravessa e constitui. Tomados de admiração percebemos que tudo se conecta e se liga numa dança em que a vida está sempre se expandindo, se diferenciando, se rejubilando por estar em constante acontecimento. E dando-nos conta desse acontecimento a cada instante, a cada respiro, fazemos a experiência de que viver é bom, viver é muito bom. A “experiência” de Deus diante da própria criação passa a ser a nossa experiência diante da vida. Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era bom. Nós, diante da vida, tendo-a e vivendo-a, contemplando-a e sentindo-a, chegamos à mesma conclusão: a vida é boa, a vida é bonita.

Somos convocados pelos tempos atuais, tendo em vista os muitos prejuízos e ameaças assustadoras que a vida sofre, a proclamá-la como força, beleza, plenitude. Sim, a vida é. A vida é plena em si mesma e pode ser experimentada como fonte de bem-estar e felicidade nela mesma. Não é preciso isso nem aquilo para fazer a experiência da vida como bem-estar, satisfação e alegria. Em si ela é isso. Ela é a causa e a razão da satisfação de viver. As crianças – a título de exemplo – bem expressam isso. As crianças se envolvem com a vida e com suas possibilidades e vivem a alegria do seu desfrute simplesmente, nada mais que isso. Ali, nada falta. Claro, e infelizmente, que ao longo do tempo e condicionados por isso e por aquilo vamos buscando fora da vida os contentamentos e satisfações para viver. Vamos nos amparando nas coisas, nas identidades, nos papéis, nas pretensas importâncias, nos poderes, ilusões e efemeridades na esperança de termos mais vida. Amparamo-nos em todas essas coisas, mas tudo não passará de muletas… e seguiremos perdendo a vida.

A necessária compreensão da vida como bem-estar e satisfação nela mesma deveria nos levar a superar aquelas ideias que a concebem como carência, sofrimento, miséria, incompletude, falta. Ao encarar a vida afirmativamente pela sua beleza e força estaremos facilitando a manifestação em nós de sentimentos e pensamentos que confirmem, a cada dia e em cada situação que ela é um feliz e jubiloso acontecimento. Essa afirmação da vida, decerto, não se dará com bases em ilusões e não negará, portanto, sua temporalidade, suas contingências, suas delicadezas. Sua afirmação também não negará que a grande maioria dos seres humanos não tem experimentado a vida assim, como força, beleza e alegria. Para tantos e nos mais diversos lugares desse planeta a vida tem sido dor, angústia, sofrimento, privação. E, a despeito de tantos que se colocam como arautos propositores de sua força e beleza, ela segue prejudicada, maltratada, explorada de inimagináveis formas.

Sua afirmação se dá com base na certeza de que ela é o que de mais extraordinário acontece no universo e que sua valorização segue exatamente pelo resgate de sua força e presença. Não são poucos os condicionamentos que nos fazem negá-la, desprezá-la e desvalorizá-la. Logo, bom é estar consciente: a afirmação da vida se constitui num desafio. Dentre outras coisas a afirmação da vida exige que permaneçamos no presente. Somos viciados em carregar conosco (como fardos) o acontecido em detrimento do acontecimento. Ou nos limitamos com cultivos exagerados de esperanças em detrimento do acontecimento. A tentativa de carregar o fardo do acontecido nos torna ressentidos e tristes. A sobrecarga de esperanças nos faz ingratos e míopes em relação ao dia de hoje. A vida é acontecimento. A vida é jubilo. A cada instante somos convocados ao júbilo pelo seu acolhimento no presente, no acontecimento, na abertura para os seus muitos “milagres” e possibilidades.

Dauri Batisti
Padre, psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS