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A VIDA NÃO É FALTA, MAS EXCESSO

Nossas vidas não foram criadas senão para criar. Somos movimento de criação o tempo todo.

A vida se realiza como produtora de realidades. Na verdade a vida só se realiza como máquina produtora de realidades. Somos máquinas desejantes, como diria Deleuze e Guattari. Máquinas, porque produtoras. Máquinas desejantes, porque movidas pelo desejo, essa força de viver.  Por isso, ela não é estável, não é sedentária, não se adapta a padrões. Muito pelo contrário, a todo instante a vida é superação e reinvenção de si mesma, apropriação e reapropriação de tudo o que vai se dando com e através dela. Em si a vida é, o tempo todo, passagem, mudança, revolução, realização e busca de mais realização. Realização como força produtora de realidades, como força sobre o mundo, transformando-o e a si mesma.

Como diria Deleuze, a vida não é falta, mas excesso. Nela nada falta, mas tudo se excede. Como uma fonte que não para de jorrar. O problema na vida, portanto, não é o que faltaria, mas como conduzir o que é abundante, como fazer fluir o excesso, como dar vazão a essas tantas forças, energias e capacidades. A vida é uma força constante de afirmação – diríamos inspirados em Espinosa – por isso ela quer continuar a ser. Para tal ela se depara e se compõe com o mundo e age sobre ele para fazer valer sua potencia de realização. Se a semente caiu numa fresta da pedra ali ela tentará se realizar. Ali ela fará acontecer sua potência. Ali ela constituirá sua beleza, mesmo que como retorcida, áspera e cascuda árvore.

Mas, por que olhamos a vida sempre como incompletude e carência? Por que somos marcados por essa “espiritualidade” que a diminui? Por que estamos sempre ocupando o lugar dos que sofrem a condição humana? Por que a condição de viventes sempre é associada à condição de sofredores?  Decerto há muita história para explicar isso, mas o que importa é assinalar outra possibilidade: afirmá-la e vê-la como abundância e excesso. E essa possibilidade não nega o mal, nem o sofrimento, nem as dificuldades que cotidianamente somos convidados a enfrentar, mas, sobretudo, afirma a vida em toda e qualquer situação. Ou seja, não se nega que o mal se faz presente no viver, não se nega que não são poucos os sofrimentos que se experimenta ao viver, não se nega que a vida é uma luta, mas não se cai nessa visão triste de considerá-la sempre como falta, insatisfação, exílio, dor, carência, sofrimento. E com essa nova postura se ajuda a romper esse grande coro dos ingratos, o coro dos que receberam a vida, mas a diminuem (até em nome de Deus e da religião) e a desprezam em função de uma idealização. Vivem, querem viver, mas esperam a vida que está lá não se sabe onde, ou talvez na obtenção dessa ou daquela coisa. O Deus de todo amor e de todas as alegrias não nos criaria para sofrer, claro que não. Criou-nos para a vida, e para a vida em excesso.

Então, a nós que pela vida ganhamos a capacidade de pensar nos é oferecida a oportunidade diária de sermos a favor dela, e não contra. Nem o céu pode pedir que desvalorizemos a vida desta ou daquela forma. A vida que se prolonga no céu só pode ser aquela que foi valorizada a cada instante e etapa, aquela que foi vivida com tanta dignidade no mundo que foi capaz de abrir um portal para a eternidade.

Dauri Batisti
Padre, Psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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