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A vida além do esporte

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Buru atuou pela seleção brasileira de futebol de areia por muitos anos e conquistou diversos títulos pelo seu desempenho. Nessa entrevista ele fala sobre a família, as desilusões com o esporte e a vida que leva hoje.

vitória – Você morou na Rússia?
Buru – Atualmente eu vivo 6 meses no Brasil e 6 meses na Rússia. A Rússia é um país que eu tenho um carinho muito grande, pois foi onde eu tive a oportunidade de levar aquilo que eu aprendi com o futebol de areia, e fui muito bem acolhido. Começamos lá um vínculo muito forte com o ramo da exportação, que é a área que a empresa trabalha e então eu indiquei granito, que temos muito no nosso Estado, pedras ornamentais, que somos um dos maiores produtores do mundo. Agora estamos com outro projeto que é o açaí, e a gente tem muito orgulho de poder vender lá fora as riquezas que o nosso país tem.

vitória – Você mora no Brasil e na Rússia. Considera um lado mais do que o outro?
Buru – Eu sou brasileiro, então considero muito mais o Brasil do que a Rússia, apesar de ter algumas mágoas de não ter tido todo o reconhecimento que eu deveria aqui, mas nada que me faça deixar de amar o nosso país. Eu falo de Brasil. Pois no Espírito Santo eu tenho o reconhecimento. Faço faculdade na UVV e até os professores têm um carinho muito grande. Eu me sinto abraçado pelo povo capixaba. Então eu jamais vou poder fazer essa comparação.

vitória – É Educação Física o curso que você faz?
Buru – Sim. Há alguns anos que eu tento me formar, dar sequência a esse curso que é um objetivo, um dos sonhos que eu tenho. E também é um presente para a minha mãe. Nós somos de família muito simples e lá em casa nenhum dos sete irmãos tem um curso superior.

vitória – Qual foi o seu aprendizado no futebol de areia?
Buru – O futebol de areia é um esporte novo, então como atleta eu pude fazer parte desse crescimento. O beach soccer me ensinou que eu devo sempre começar e terminar um vínculo com total conhecimento do que você se propôs a aprender. E sem falar disciplina, pois é um esporte que exige bastante do seu corpo, seu condicionamento físico. Por exemplo, 80% dos jogos são durante o dia, então tem a incidência do calor, do sol. Se você estiver 50%, você não consegue se sair bem na atividade, tem que estar sempre 100%.

vitória – Como você começou o futebol de areia?
Buru – Eu saí para jogar muito novo, tive uma passagem no futsal do Álvares Cabral e depois tive oportunidade de ir para fora jogar futebol de campo. No final de 97 eu fiquei sem contrato, retornei para cá, voltei a jogar futsal e nesse meio tempo pintou o futebol de areia. O Paulo Sérgio, juntamente com o Marco Soares, estavam formando uma equipe para disputar um campeonato brasileiro, e me foi proposto esse desafio. No momento eu hesitei, pois era um esporte que não possuía tradição, não tinha a rentabilidade que te dava segurança para o futuro, mas resolvi encarar e nos treinamentos já comecei a me destacar, e aí veio a convocação para ser atleta da seleção brasileira.

vitória – O seu sonho era ser jogador?
Buru – Desde criança. E se não fosse na areia, seria no futsal, que eu sempre tive um grande destaque também. Joguei os dois em paralelo porque eu precisava. Em 99 meu filho nasceu e eu sempre fui arrimo de família. Todos investiam e acreditavam nisso. Eu nunca levei isso como carga, pelo contrário, eu ficava muito feliz deles confiarem em mim, então não podia decepcioná-los.

vitória – Quando você saiu do país foi como esportista, e agora está partindo para um lado mais comercial. Como fica a sua relação com o esporte?
Buru – Eu não gostaria de finalizar minha carreira, pois acredito que ainda tenho saúde para jogar. Mas eu acho difícil continuar. O futebol de areia possui um dono, diferente de outros esportes, então não depende apenas de suas forças para resistir na carreira. Por eu expor bastante as minhas opiniões, acabei sendo taxado como indisciplinado ou revoltado, que não aceitava as regras impostas. Mesmo assim, pelo meu talento eu joguei durante 17 anos pela seleção brasileira. Quando eu vi que começou a ficar difícil de lidar eu comecei a buscar outros caminhos. Eu estava na seleção e acabei me lesionando, quando me recuperei não tive mais espaço, pois julgaram que eu estava velho, e não me deram a chance de continuar na modalidade.

vitória – E isso dói?
Buru – Dói muito. Eu não deixo transparecer isso, inclusive é a primeira vez que estou falando sobre esse assunto, pois dói não só pra mim, dói na minha mãe, na minha esposa, no meu filho. Eu vou à casa da minha mãe e ela pergunta se eu não vou treinar. Explico para ela que passou, acabou, mas ela não admite, diz que eu sou muito novo. Mas isso porque ela é cobrada, as pessoas perguntam “cadê Buru que não estava no jogo ontem?”. Meu filho está com 16 anos e os amigos também o questionam “Cadê seu pai?”. Mas há também algo em mim de orgulho, eu não vou ligar pedindo uma chance. Eu sempre fui um cara grato por todas as pessoas que fizeram por mim. Mas eu aprendi que a gente não pode querer que façam pela gente o que fazemos pelo outro. Essa ferida vai permanecer até o dia que eu conseguir me libertar completamente, até eu me desligar do futebol de areia, do esporte.

vitória – E a exportação?
Buru – É um ramo que eu gosto bastante, pois trabalho com outras culturas, outros países, gosto de negociar também. Nesse meio tempo que havia saído do campo eu trabalhei como vendedor no Shopping, e em São Paulo, em feira livre, vendendo tamanco. Então eu tenho esse lado empreendedor, de venda.

vitória – O convite para ir para a Rússia foi por causa do futebol de areia?
Buru – Sim. Estava jogando na Itália e o meu atual patrão e amigo me fez um convite para jogar na Rússia. Fui sem saber absolutamente nada, mas com uma curiosidade muito grande. Os dois primeiros meses foram bem difíceis, a adaptação com a língua, cultura, alimentação. Pedi um professor de russo e hoje graças a Deus eu consigo me comunicar.

vitória – Como você avalia os casos que vemos de apontarem o esporte como uma saída para a vida daquelas crianças que são de realidade mais pobre?
Buru – A minha posição é radical quanto a isso, eu sou contra. Meu filho tem prancha de surf, skate, bicicleta, ele ganhou o mundial de Jiu Jitsu, mas eu nunca incentivei isso nele. Sempre o incentivei a estudar, pois o estudo é 100%, o esporte não. Uma coisa que eu sempre falo nas minhas palestras: o conhecimento ninguém vai te tomar. Podem falar o que quiserem de mim nas ruas, mas nunca vão poder mexer naquilo que eu conquistei que é o meu conhecimento. O meu conselho para as crianças hoje é: se conseguir unir o estudo e o esporte, ótimo. Se não conseguir, dê preferência ao estudo.

vitória – O que você destaca da sua vida?
Buru – A educação que recebi do meu pai e da minha mãe, coisas corriqueiras que eles falavam no dia a dia, como “não mexa no que não é seu”, “não tente querer ter sem ser”. Apesar de nossa condição um pouco melhor hoje, nós nunca perdemos a simplicidade e a humildade, não esquecemos as nossas raízes, as dificuldades que passamos. Aprendi muito com a vida também, a fase em que eu precisei morar na rua, em São Paulo, atrás do meu sonho de ser jogador.

vitória – Como você passa para o seu filho hoje a sua experiência de família?
Buru – Desde cedo meu filho aprendeu que eu não tenho dinheiro, então ele foi educado a não me pedir nada, e ele não pede. Tudo o que ele tem eu dei porque eu tinha vontade de ter e não tive. Eu digo que ele só tem uma coisa para fazer que é estudar. O que eu passo para ele é que tudo em nossa vida vem com muito sacrifício. Só peço que seja um menino bom, disciplinado.

vitória – Você tem religião?
Buru – Eu deixei a religião católica há 3 anos e optei pela Igreja Assembleia Nova Aliança, mas, como eles dizem, voltei para o mundo. Eu vejo as coisas legais na Igreja, mas acredito que a pessoa precisa pregar o que ela vive, e muitas pregam uma coisa e fazem outra. Eu tenho muita fé, mas não deixo de fazer aquilo que me deixa feliz porque a doutrina ou o pastor me diz que isso irá impedir minha entrada no Reino do Céu.

vitória – E o Buru daqui a 5 anos?
Buru – Quero estar na roça tranquilo, plantando alguma coisa, estar em um lugar sem trânsito, sem o tumulto da cidade. Eu gosto desse clima mais pacato, de reflexão. Eu acho que pela agitação que sempre tive na minha vida, pela visibilidade que o esporte me deu, os julgamentos e vigilância o tempo todo das pessoas, tudo me cansou um pouco, hoje isso me incomoda.

vitória – E ser professor?
Buru – É meu sonho. Tenho muito carinho de passar a minha experiência de vida, o que eu vivi, principalmente no esporte. Mas eu quero trabalhar dentro de escola, ou ser preparador físico de um grande clube, que eu gosto dessa parte técnica também.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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