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A versão dos fatos apresentados pela grande mídia tem origem, cara e sobrenome

Em tempo de guerra é comum ouvirmos dizer que um meio de comunicação se torna uma das armas de guerra. Dependendo das mãos de quem a manipula, o conteúdo – seja uma narração ou uma imagem – a versão é diferente. Você se lembra das falas aguerridas do governo norte americano justificando os “nobres” motivos da invasão do Iraque? Você se lembra o que representou a divulgação de fotografias e audiovisuais de cenas bárbaras de tortura militar estadunidense, captados por celulares, durante a invasão no Iraque? Em tempo de conflitos de menor proporção ou de clima de normalidade na sociedade a noção de fundo sobre a versão dos fatos seria diferente? Não. O que as mídias divulgam são versões dos fatos, quando não os criam…

Os meios de comunicação são canais de expressão criados pela sociedade ao longo da história. Evoluem do tambor ao megafone, do rádio analógico às mídias sociais virtuais… Em cada época alguns meios de comunicação se tornam mais importantes que outros, embora os diferentes tipos continuem a conviver e a cumprir um papel social. O jornal teve seu auge e do mesmo modo o rádio, a televisão e a agora é a internet. O que não tem mudado é a supremacia que alguns setores têm sobre os meios de comunicação (jornal, rádio, televisão, cinema, revistas, provedores de internet, portais eletrônicos etc.). Ou seja, segmentos das classes dominantes sempre dominaram e dominam os principais meios de comunicação no país. Os meios de comunicação de propriedade privada, permitida por lei, pertencem a grandes grupos econômicos e políticos que os operam como empresas de um negócio altamente lucrativo. Sobrenomes como Marinho, Frias, Sirotsky, Lindenberg, Câmara são exemplos de proprietários de grupos midiáticos que dominam os principais meios de informação do Brasil e das regiões brasileiras. Se observarmos bem, veremos que os mesmos grupos detêm a propriedade de redes de televisão, emissoras de rádio, jornais, provedores de internet etc. simultaneamente, o que amplia o seu poder de influência. Tendo como origem os interesses de classe da burguesia em suas diversas vertentes e a função de zelar por seus interesses, usam esses canais para difundir os acontecimentos e os demais serviços que prestam, mas o fazem segundo a sua visão político-ideológica, própria desses grupos, mas que se coaduna com as concepções de mundo e de política dos segmentos defensores da livre iniciativa e do conservadorismo político.

Faço essa introdução para poder dizer de forma mais segura que nem tudo que é difundido pelas mídias é o que acontece de fato. Alguns são distorcidos, outros omitidos e outros recortados nos aspectos que interessam frisar. Os acontecimentos são “lidos” (interpretados) e explicados por profissionais que sabem deles apenas parcialmente. Trabalham para empresas (ou governos) que ditam as regras e a linha editorial que o veículo midiático deve seguir. Se não bastasse o jornalista ou o comentarista que tem o poder de “editar” os fatos segundo sua própria visão e segundo a orientação da empresa, seu trabalho ainda é supervisionado por editores que fazem cortes, “melhoram” a redação para nada escapar ao controle editorial. Em outras palavras os meios de comunicação, melhor dizendo, meios de informação, editam. O que aparece, salvo em cenas ao vivo, foi editado segundo as visões e interesses, nem sempre transparentes, daqueles que controlam as mídias. Essa é a razão do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) ser tratado de modo negativo e criminalizado pela imprensa, (que deveria analisar as questões de Reforma Agrária e de agroecologia sustentável que o movimento coloca). Essa também é a razão de um processo de impeachment ser defendido por importantes mídias em sua legalidade mesmo que ilegítimo, (e sem discutir em profundidade o jogo de interesses políticos e econômicos de classe e partidários que o moviam). Na mesma linha, recentemente foi possível testemunhar o ocultamento ou distorção das notícias sobre as grandes manifestações públicas contestadoras da reforma trabalhista e da previdência. Quem se limitou a assistir os noticiários dos horários nobres da TV Globo, por exemplo, não soube das dimensões dos reais acontecimentos de rua. Estes foram transmitidos ao vivo pelas mídias alternativas, como a Mídia Ninja, nas redes sociais virtuais. Outro exemplo é a ênfase dada pelo noticiário dos grandes meios a alguns temas e personagens ao repetirem insistentemente, em matérias jornalísticas em determinados veículos, as denúncias, a exemplo de daquelas contra um ex-presidente da República com origem de esquerda em evidente desproporção a de outros acusados. O jogo de interesses político-ideológicos explica essas estratégias, os quais se entrelaçam àqueles de ordem conjuntural, política e de mercado.

Porém, pode-se se perguntar: então por que de repente os meios de informação passaram a dar espaço para denúncias de corrupção e a fazer críticas ao Temer após a divulgação das delações de empresários em maio de 2017? Está aí um bom tema para o debate… Bora aí, discutir os meios de comunicação nas comunidades…

Cicilia M. Krohling Peruzzo
Pós-doutora em Ciência da Comunicação 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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