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A TECNOLOGIA NA ROTINA DAS ALDEIAS GUARANIS EM ARACRUZ

Quando se fala em índio, vem naturalmente à mente de brancos e negros urbanos, pessoas nuas ou seminuas, vivendo na mata, morando em ocas, felizes, inocentes e contentes, sem influências de fora das aldeias, sem problemas, como se estivessem congeladas no tempo e no espaço, tendo como atividade a caça e a pesca, adorando o sol e a lua e falando uma língua incompreensível.

A Revista Vitória visitou algumas aldeias no Espírito Santo na região de Aracruz e viu sim um pequeno índio nu, moradias de pau a pique no meio da mata, harmonia com a natureza, preocupação pela falta de peixe, gente feliz. Mas, viu também casas de alvenaria, intimidade profunda com o Deus Criador com lugar próprio para rezar (a casa da reza), caciques lutando por direitos e preservação da cultura e, pessoas conectadas e informadas. Então, os índios mudaram? Sim, e o cacique, Antônio Carvalho, da Aldeia Boa Esperança foi logo explicando: “as casas são de alvenaria porque não dispomos mais dos materiais que eram usados nas moradias e a alvenaria é melhor, porque não entra água e não precisa trocar a cada 5 anos. Mas, nem o próprio português, espanhol, inglês e outros não estão no mesmo jeito daquela época”. Nossa ida foi para entender se e como as aldeias são impactadas pela tecnologia.

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A tecnologia nas aldeias
Visitamos três aldeias Guaranis (Três Palmeiras, Boa Esperança e Piraquê-Açu). Na Três Palmeiras visitamos o lugar do artesanato e conversamos com a índia Eliane Bilhalvo de Lima. Ela explicou que vivem de artesanato, agricultura e pesca e disse que estão preocupados porque o peixe diminuiu muito na região e a agricultura não é suficiente, pois a terra não produz tudo que precisam e que a região mudou muito e para pior, porque antes tinha mais casas na aldeia e mais peixe que garantia a subsistência. Rodrigo da Silva, (vice cacique da aldeia Piraquê-Açu) informou que grande parte das terras da aldeia serviram de lixão para empresas e a Prefeitura, e, Antônio, cacique de Boa Esperança, explicou que as terras recuperadas da Aracruz Celulose estão improdutivas. Por conta disso eles precisam recorrer às compras no comércio da região para se manterem e de maquinário para preparar a terra e voltar a produzir.

Entramos no objetivo da visita: como a tecnologia entra nessa relação com o mundo fora das aldeias? Como percebemos na chegada, nossos entrevistados confirmaram a existência de uma convivência com o mundo urbano, relações com as empresas Fíbria e Samarco responsáveis pelos prejuízos na agricultura e na pesca, contato com brancos e negros urbanos para vender o artesanato que fabricam e, diálogo com o governo em busca de projetos de ajuda às aldeias para que mantenham sua cultura, como disse Rodrigo “hoje fui na reunião do Ministério da Cultura, eles queriam ver se a gente tem interesse em fazer alguma coisa no site. Claro que a gente tem interesse porque a gente preserva muito bem nossa cultura”.

img 02Para que tudo isso seja possível, os índios possuem transporte (vimos carros e motos), celulares, computadores e televisão”. Mas, por lá os instrumentos de comunicação são utilizados do jeito deles. Tanto na aldeia Boa Esperança quanto na Piraquê-Açu existem regras para uso da tecnologia: “mesmo tendo a globalização na nossa aldeia, nós sabemos escolher o que pode ajudar. A locomoção por exemplo, eu dirijo carro, mas eu sou Guarani, o meu espírito nunca vai ser mudado só porque tenho um carro. Tem que ter tecnologia, mas tem que ter o controle sobre isso. Aqui a gente sabe até que horas pode usar, o que pode ver assistir, se for violência tem que conversar. Graças a Deus aqui na aldeia você pode ir lá na outra aldeia e sabe que vai voltar, na cidade você não sabe se vai voltar ou não. A diferença é que a gente sempre está falando sobre isso, desde quando começa a aprender a falar a Língua Portuguesa, a gente já começa a falar sobre isso. Nós sabemos como passar oralmente porque a gente sempre tem os conselhos na casa de reza (Opy). Eu sempre estou com os grandes líderes das nossas aldeias passando quais são os perigos, dizendo onde tem que pisar. Esses são os ensinamentos para respeitar” contou Antônio. Já Rodrigo da Aldeia Piraquê-Açu acrescentou “Eu não assisto tv por opção. Deixei há 4 anos, depois eu vi que não era adequado para mim nem para meus filhos. Eu vi que não é coisa boa. Cada vez que a gente liga a tv é muita morte, político roubando, criança morrendo, é muita notícia ruim. Então, prefiro desligar a tv”. Mas Rodrigo também acrescentou “Hoje em dia deixar a tecnologia é difícil, já está na aldeia, o índio já está conectado a tudo, principalmente o jovem. A gente só tem que tomar cuidado, os caciques têm sempre que ficar atentos de ver como a tecnologia vai ser abordada dentro da aldeia, a gente precisa cuidar para o jovem se conectar bem”. Sobre a influência da TV, Eliane da aldeia Três Palmeiras disse: “eu assisto a novela Carinha de anjo, mas não muda nada, eu não tenho vontade de imitar”.

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A relação com a sociedade branca e preservação da cultura
Embora seja raro, alguns índios guaranis trabalham fora da aldeia e os jovens estudam fora da aldeia a partir da oitava série. Perguntamos se esse contato não introduz nas aldeias outros costumes como uso de drogas e bebida, mas a resposta é de que para essas situações, que são raras, seguem as mesmas regras: dialogar e aconselhar. “A gente sempre comunica aos jovens que não pode, sempre dá esse conselho e por isso que os mais velhos sempre dão palestra na escola sobre droga, doenças sexualmente transmissíveis”, disse Rodrigo. “A gente sempre fala que o objetivo principal da nossa aldeia é a família, que não se deve usar isso porque isso não faz parte da nossa cultura e não faz parte de outras culturas também, a gente mostra que isso não traz felicidade só traz infelicidade para a pessoa”, afirmou Antônio.

Perguntamos a Antônio se as crianças e jovens escutam os ensinamentos e se existem regras. Ele respondeu: “Escutam. Muitas vezes os alunos que estudam lá foram dizem assim: o ensinamento da nossa aldeia sempre vai ser melhor”, e acrescentou: “as recomendações são gravadas no coração e na mente. A gente sempre coloca que não pode pegar ou roubar coisas de outro, a briga é completamente proibida. Mas isso é tudo oralmente, não está escrito no papel, é preciso gravar no coração. Minha avó passou para nós oralmente e a gente gravou no coração e na mente. Se eu tivesse anotado alguns valores que minha avó falou, se eu anotasse no papel eu creio que já teria esquecido, o papel já tinha desbotado ou uma goteira tinha molhado ou podia ter queimado. Então, se eu não tivesse gravado na mente e no coração tudo que ela falava do nosso criador, que o equilíbrio da natureza traz mais força para nós, porque a natureza que faz a gente estar bem, eu já tinha perdido tudo”.

img 03Se houver problemas também tem punição que pode chegar até à expulsão, quem explicou foi Rodrigo: “se fizer alguma coisa grave pode ser expulso, já aconteceu vários (se bater na mulher, se usar bebida alcoólica é expulso da aldeia). Mas isso é difícil acontecer, porque o cacique está sempre de plantão para “manter a ordem e a harmonia da aldeia e não deixar nada atrapalhar”, explicou Rodrigo.

img 07Curiosidade: Todo o índio tem um nome “Nós temos um nome sagrado, o meu não é Antônio Carvalho, isso é para tirar identidade, o meu nome sagrado é Relâmpago no pôr do sol. Minha avó dizia que não podia colocar um nome sagrado no papel que foi feito pela mão do homem. O nome é revelado ao líder espiritual antes da criança nascer, não são os pais que escolhem. O nome sagrado vem para ser o alicerce da vida daquela pessoa. Por isso, não é qualquer um que pode colocar o nome na criança”.

Casa da Reza
Essa harmonia entre eles que compartilham a vida, os recursos agrícolas e a pesca tem como base de equilíbrio o encontro para rezar no final do dia. Nas três aldeias existe a Casa da Reza, uma tradição Guarani. “Todas as noites às 18h todo o mundo tem que estar, não é só no sábado ou domingo, se chegar atrasado não pode entrar e nem sequer bater na porta, é um lugar sagrado, tem que respeitar. Esse ensinamento de ir rezar às 18h foi Deus que ensinou para a gente, não foi o padre, não foi o pastor. Dizem que a gente adora o sol, a natureza… não, nós adoramos porque Deus criou. Todo o ser tem que respeitar o que foi criado por Deus, explicou Antônio e Rodrigo acrescentou “A gente reza toda a noite, a gente reza para todo o mundo e principalmente pelos mais velhos e as crianças. Ao anoitecer todo o mundo vai para a casa da reza, a gente canta, conta história, o curandeiro reza e não tem horário para sair porque isso envolve a parte espiritual da humanidade”.

Maria da Luz Fernandes
Jornalista 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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