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A SOCIEDADE E O OLHAR SOBRE OS RISCOS DA POSSE DE ARMA

Afinal, a posse de armas em casa servirá mais para defesa e proteção ou apenas mais mortes e violência?

Responder positivamente ou não é ter um pensamento linear e essa é uma questão muito complexa para ser respondida assim. Tentar prever as consequências da posse de armas exige correlacionar muitas variáveis. Aqui vamos olhar apenas uma parte desta complexidade.

As estatísticas oficiais mostram que somos majoritariamente urbanos, de classe média, com pouca escolaridade e nos sentimos inseguros dentro de casa.

Separando uma geração em períodos de 30 anos, temos no Brasil três gerações convivendo. Na 1ª geração (0-30anos) temos 30% da população. Os mais velhos deste grupo tinham 16 anos quando foi aprovado o Estatuto do Desarmamento no Brasil (projeto do Gerson Camata, ironicamente morto por uma arma de fogo). Essa geração não conviveu com o Brasil “armado”. Não sabe dizer como era culturalmente comum se ter arma em casa, especialmente na região rural, quando não havia, nem de longe, os índices de criminalidade atuais.

Em contrapartida, essa geração celular convive, desde muito jovem, com os avanços tecnológicos e com a rapidez da informação, muitas vezes distorcida e mal processada pela cultura da urgência instaurada, tornando esse grupo altamente sujeito ao stress e facilmente frustrado. Vivenciam a violência por todos os lados: do mundo real exposto na televisão ou vivido dentro ou fora da casa, ou imaginada pelos filmes e games muitos dos quais absurdamente violentos. Cresceram com a desconstrução dos valores éticos e morais, acreditando que tudo é relativo, que o individualismo é valor e as relações são superficiais e descartáveis.

Os indicadores crescentes de suicídios e o amplo consumo de antidepressivos, entre outras drogas, nos mostram claramente os resultados deste ambiente. A vulnerabilidade deste grupo é visível. Arma em casa pode ser mais risco que proteção.

Se olharmos a 2ª geração (31-60 anos) é possível esperar que tenham sido criados por pais mais liberais que os da 3ª geração (61-90 anos). Eles estão submetidos ao mesmo stress da 1ª geração, nem sempre estando tão preparados para enfrentar os desafios digitais, culturais e até os afetivos. Muitos passam por questionamentos que confrontam seus sonhos e suas conquistas, e se frustram.

Em sua maioria criados na lógica patriarcal, precisam lidar com mulheres que estudaram mais, tem novas chances profissionais, sendo que quase 40% são “chefes do lar”. Frustração, stress e relações conflitivas não combinam com arma em casa.

A 3ª geração (61-90 anos) concentra mais pessoas que foram criadas em um ambiente cultural mais autoritário, menos tolerante e mais “machista”, somando-se a fragilização profissional, social e física. Os sonhos foram ou não conquistados e a depressão facilmente ronda essas perdas.

Os mais vulneráveis por arma em casa?

Os suicidas terão mais um meio, os companheiros(as) frustrados(as) ou ameaçados(as) também, mas a real preocupação fica com o 1º grupo. Acidentes? Uso para enfrentar bullying ou outras injustiças vividas? De fato, armas são perigosas e não solucionam problemas. Amar e perdoar sim.

Vânia Reis
Psicóloga – vaniareis@gap-es.com.br

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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