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A Radicalidade do Amor Fraterno

A experiência do Povo de Deus, relatada no Primeiro Testamento, da libertação do Egito, pela mão forte e poderosa do Senhor, é fundamental para a compreensão de toda a fé de Israel. De fato, Deus manifesta seu amor e predileção por esse povo, libertando-o e conduzindo-o, não somente do Egito, pelo deserto até à terra prometida, mas, em todos os caminhos de sua história. Um amor maior e sem limites, mesmo diante das grandes contradições e da perda de memória do povo. Nesta experiência de amor, na qual os filhos de Deus são acolhidos, formados, educados e conduzidos, nasce o compromisso de uma resposta positiva ao amor recebido. Existe uma dupla resposta a ser dada, diante de tão grande amor, a primeira é o amor a Deus e a segunda ao próximo. Nasce aqui o grande desafio para os filhos e filhas de Israel e, do mesmo modo, para todos os discípulos de Cristo: a radicalidade do amor fraterno, manifestação clara do amor a Deus.

O Amor a Deus e aos irmãos exige uma sincera adesão e comporta uma decisão radical e constante, um caminho trilhado por aqueles que são chamados ao discipulado missionário. O livro do Êxodo, em seu capítulo vinte e dois, traz a passagem conhecida como Código da Aliança, que indica a vivência do povo já instalado na terra que é chamado a reconhecer a dignidade de cada pessoa humana diante de Deus. O homem é visto naquilo que é diante de Deus e a sua dignidade deve ser preservada e mantida, a fim de que se reconheça a liberdade e a igualdade, como dons divinos, que fazem todos serem irmãos. Nesse caso, a recordação da saída do Egito, não é somente uma lembrança de um evento do passado, mas, um modelo para a vida do povo que sendo pobre e fraco, foi atingido por um amor maior. Desse modo, tal evento deve estar sempre presente na memória e deve fazer com que os pobres e necessitados sejam reconhecidos como preferidos de Deus, sendo assim, destinatários concretos do amor fraterno.

Os estrangeiros não possuíam nada e viviam do que recebiam das pessoas nas cidades onde tinham sido acolhidos. O mesmo pode-se dizer das viúvas e dos órfãos, visto que, sendo pobres, viviam das esmolas e da pouca ajuda que conseguiam. Assim sendo, o que o texto retrata é a situação extrema, na qual esse grupo de pobres devia viver e quantas vezes deviam empenhar a coberta que tinham como abrigo noturno para receberem dinheiro para a comida. Deus se apresenta como aquele que vê o sofrimento dos pobres e vem em seu auxílio, não está alheio às suas necessidades, mas, ouve os seus gritos e coloca-Se ao lado de cada um. Nesse caso, Deus mesmo requer de seus filhos e filhas uma postura de compromisso com aqueles que sofrem, ele pede dos seus um olhar atento e um coração capaz de se compadecer do sofrimento e das necessidades dos pequenos e pobres, dos preferidos de Deus.

Nesse caso, existe uma radicalidade no Amor, um compromisso que nasce no Amor a Deus e se desdobra no Amor ao próximo. Não é possível amar a Deus e não se propor ao caminho que leva na direção dos seus filhos e filhas, daqueles que sofrem e estão em situação de exclusão e miséria. Um grande Santo da Igreja, São João Crisostomo afirmava: “De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro, se ele morre de fome na pessoa do pobre? Primeiro dá de comer a quem tem fome, e depois ornamente a sua mesa com o que sobra. Queres oferecer-lhe um cálice de ouro e não és capaz de lhe dar um copo de água? De que serviria cobrir o seu altar com toalhas bordadas a ouro, se lhe recusas a roupa de que precisa para se vestir?” (Homilias sobre Mateus 50,3-4). Em suas palavras fica claro que o amor a Deus deve tornar-se visível na atitude de torna-se próximo dos irmãos e irmãs, de maneira especial, daqueles que sofrem e mais precisam.

Pe. Andherson Franklin
Professor de Sagrada Escritura no IFTAV e doutor em Sagrada Escritura

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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