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A origem do IFTAV

Ele é membro do Conselho Editorial da Revista Vitória, é articulista e também o ‘curinga’ de plantão. Desta vez, ele é o entrevistado e fala sobre o ‘nascimento’ do Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória, que ajudou a fundar. Ele é Edebrande Cavalieri, doutor em Ciências da Religião, o “conselheiro” do Conselho Editorial.

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Como se deu a passagem para se criar o IFTAV e como foi sua experiência?
Edebrande – A primeira experiência começou com um convite do pe. Geraldo (Dom Geraldo Lyrio Rocha), que era reitor do Seminário Nossa Senhora da Penha, para ser professor de algumas disciplinas de filosofia à noite no Seminário em Santa Helena. Dar aula à noite não foi uma boa experiência do ponto de vista do magistério porque os alunos trabalhavam o dia inteiro, trabalho pesado na construção civil e à noite estavam cansados. Como professor eu me sentia um tanto quanto fracassado. Nessa época pe. Geraldo estava em Roma e o diretor do Seminário era o padre Rubens Duque. Foi feita uma reunião com Dom Aldo, Dom Silvestre, o padre Duque e o administrador da Arquidiocese de Vitória que era o pe. Ayrola Barcelos e me perguntaram se eu toparia ajudá-los a melhorar a formação presbiteral. Foi aí que se deu a primeira mudança na formação dos estudantes de filosofia que passaram a estudar pela manhã, tendo então outra estrutura de seminário.

Então você é o autor dessa mudança?
Edebrande – Eu participei da transição atuando tanto na visão antiga de formação, que era os seminaristas inseridos no mundo do trabalho, uma ideia forte na época, para um estudo mais metodológico, mais rigoroso, não mais inseridos no mundo do trabalho, mas no mundo da pastoral. O IFTAV, Instituto de Filosofia e Teologia, começou a funcionar em 1985, fruto dessa mudança e com o desafio de criar um caminho mais eficaz para a formação dos presbíteros do Espírito Santo. Na minha avaliação hoje, isso foi muito positivo, foi um passo muito corajoso de dois personagens: Dom Silvestre e Dom Aldo. Eles arriscaram e bancaram dentro de um clima de muita pobreza. Eu lembro que a mensalidade era feita assim: somava-se o que se gastou durante o mês e dividia pelos seminaristas, era um rateio das despesas.

Além dos bispos que deram todo o apoio, quem acompanhava o processo no dia a dia?
Edebrande – No dia a dia tinha o padre Rubens Duque como figura central, ele era reitor. Junto com ele os padres, Antônio Lute, Arthur Juliatti, Arnóbio Cruz, Tarcísio Caliman, Humberto Wutyz, Carlos de São Mateus, as irmãs Nilza e irmã Regina e o apoio administrativo da Mitra, através do pe. Ayrola.

Como se dava a escolha dos professores. Certamente não tinha tantos professores de filosofia e teologia em Vitória. Tinha professor para todas as disciplinas?
Edebrande – Eu conversava muito com padre Geraldo e padre Duque sobre as escolhas das pessoas sem nenhum prejuízo. Nós tínhamos uma pobreza também no campo do magistério. Então muitos professores eram convidados e vinham de fora para aulas intensivas, como frei Moser, Dom Fernando Figueiredo, Pedrinho Oliveira. Daqui tínhamos alguns professores da universidade que acolhiam o convite como uma honra e com prazer. Tínhamos pe. Antonio Lute e pe. Arthur Juliatti, Dom Mauro e Dona Ruthe Albuquerque, que era presbiteriana. Quando recebemos uma visita apostólica eles reconheceram como importante que essa formação dos presbíteros tivesse professores de outras Igrejas. Eu até perguntava para padre Geraldo, a gente pode dizer isso? E ele respondia, nós devemos dizer isso.
Esse esquema foi até qual momento, quando se deu a nova virada?
Edebrande – Essa virada aconteceu quando os seminaristas de Cachoeiro também se integraram ao IFTAV. O sentimento de unidade da província ficou muito forte. E aí Dom Luiz Mancilha Vilela teve um papel chave. Na hora que assumiu a diocese de Cachoeiro de Itapemirim, ele disse: vamos ficar em Vitória. Mas, o salto vai se dar exatamente quando o Instituto começa a formar alunos que vão para Roma fazer mestrado e voltam capacitados. O investimento de Cachoeiro, Vitória e São Mateus no quadro de docentes foi ponto chave e a grande virada na formação, isso já sob a direção do pe. Hugo Scheer no IFTAV e uma infraestrutura mais adequada.

Ao mesmo tempo, isso não foi uma perda? Deixar de ter professores que vinham de centros maiores e com outras experiências?
Edebrande – Foi uma perda sim, e nós tentamos compensar isso sempre com seminários e com as chamadas semanas teológicas, elas vieram trazendo essa complementação, com temas e isso enriqueceu muito e supriu essa falta.

Você ficou no Instituto até o momento em que a filosofia foi para o Salesiano. Como você avalia essa mudança?
Edebrande – É uma questão difícil de ser respondida. O fato da filosofia e a teologia estarem no mesmo espaço, dá uma contribuição maior à formação, eu ainda hoje defendo isso. Por outro lado, há o valor de os alunos terem o diploma de nível superior, que eu também defendo. Mas o IFTAV não tinha condições de credenciar uma faculdade, então a saída era a faculdade Salesiana e eu atuei e ajudei a realizar isso. Acho que foi importante, mas acho que a gente também perde nesse processo.
Tem um aspecto que eu esperava que acontecesse, mas não aconteceu. Eu esperava que no momento em que os seminaristas fossem estudar numa faculdade privada, eles teriam uma inserção maior no mundo acadêmico universitário, eu imaginava os seminaristas convivendo com as diversas áreas acadêmicas, seria um enriquecimento, mas o que a gente tem percebido é que os alunos seminaristas acabaram se fechando no próprio mundo e não conseguiram estabelecer essa ponte com as outras áreas do conhecimento.

Se fechar no mundo deles mesmos não é uma forma de não confrontar pensamentos?
Edebrande – Acho que sim, acho que é o medo do confronto. Eu acho profundamente que é medo, porque eu trabalho nos dois mundos, o universitário e o religioso e a Igreja atual carece um pouco daquele estimulo dado pelo Concilio Vaticano II, a inserção, aquilo que Paulo VI tanto falava, a relação com o mundo da cultura, com o mundo do trabalho. Seminaristas dialogando com o mundo plural. Isso seria fundamental para a formação.

Está na hora de mais uma mudança na formação?
Edebrande – Essa pergunta é instigante. Para o mundo de hoje, sim. O mundo de hoje é um mundo de maior complexidade, só que a gente não tem muita clareza e cada vez menos clareza temos sobre o caminho. A gente não sabe onde vai dar. Acho que às vezes a gente se acovarda diante dele. Você imagina se no meio dos Apóstolos a covardia imperasse? Eles ficariam fechados em Jerusalém!

Se padre Jorge Campos, hoje reitor do Seminário chamasse você como padre Geraldo (Dom Geraldo) quando você iniciou, o que você proporia?
Edebrande – O que eu proporia? Eu avançaria para esse diálogo com o mundo de maneira mais forte. Eu diria vamos aprender a dialogar com esse mundo. É um mundo que às vezes a gente pensa que é ameaça, mas tem muitas portas aí para entrar. O Deus desconhecido que o Apóstolo Paulo fala, está em muitos lugares, falta a Igreja hoje acreditar nisso. Eu daria um salto maior. Proporia e me disporia a fazer isso para alargar esse campo formativo, uma igreja que seja aberta ao diálogo, aberta às diferenças, aberta ao mundo, à pluralidade. Uma formação para que se pudesse dialogar com esse mundo. Acho que falta diálogo.

Como seria a resposta à “Igreja em saída” do Papa Francisco, no campo da formação?
Edebrande – A proposta é essa: vai para o mundo, saia daqui deste cantinho, desça esse monte e vá para o mundo.

Maria da Luz Fernandes
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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