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A MÍSTICA DE UM JUBILEU

Jubileu tem a ver etimologicamente e espiritualmente com ALEGRIA. E a alegria sempre brota no coração quando nos sentimos amados e amamos desinteressadamente e gratuitamente. Daí a teimosia de celebramos pequenos ou grandes jubileus. Há o jubileu de um ano de uma criança com direito a bolo, palmas, cantos e balõezinhos. E as crianças festejadas nem consciência têm do que acontece. Não importa. Deixam-se invadir pela alegria que expressam em sorrisos encantadores. E seguem os jubileus: 5, 10, 25 (jubileu de prata) e 50 (jubileu de ouro). Quanto mais o tempo passa mais necessitamos de celebrar o que passou. Não importam as marcas de tristeza, desenganos, frustrações… o que importa mesmo é o reconhecimento de que – “a pesar de” – somos amados e protegidos. Deus nos quer bem e nos acompanha. Júbilo. Zerar tudo. Dar razões para um novo começo.

Assim o ano jubilar querido por Deus e retratado na Bíblia no capítulo 25 do Levítico: “Conte sete semanas de anos, isto é, sete vezes sete anos; tais semanas de anos darão um período de quarenta e nove anos. No dia dez do sétimo mês você fará soar a trombeta. No dia da expiação vocês façam soar a trombeta no país inteiro. Declarem santo o quinquagésimo ano e proclamem a libertação para todos os moradores do país. Será para vocês um ano de júbilo: cada um de vocês recuperará a sua propriedade e voltará para sua família.

O quinquagésimo ano será para vocês um ano de júbilo: vocês não semearão nem ceifarão as espigas que tiverem nascido espontaneamente, nem colherão uvas das videiras não podadas.

O jubileu será uma coisa sagrada e vocês comerão o que o campo produzir. Ninguém de vocês explore os irmãos, mas temam o Deus de vocês porque Eu sou o Senhor o Deus de vocês ”( Lv 25,8-12.17).

Nesta passagem bíblica condensa-se a mística de um jubileu: o sonho de Deus é a libertação de todas as amarras que nos sujeitam à escravidão do maligno.

Deus nos quer irmãos, cada um (a) com o selo de diferentes dons, mas sem qualquer desigualdade que faça com que uns explorem outros, que uns se sintam melhores do que outros, que alguns se apropriem dos bens que deveriam ser partilhados com todos e que, mesmo a terra cultivada, tenha a possibilidade de descansar e ter também ela a alegria de produzir no ritmo que Deus lhe deu e não naquele que nós lhe impomos para sujeitá-la aos nossos pequenos e tacanhos interesses.

A mística de um jubileu tem também relação com três palavras que resumem a história de uma pessoa, de uma família, de uma instituição seja ela religiosa ou civil. MEMÓRIA, CELEBRAÇÃO E PROFECIA.

MEMÓRIA – faz parte essencial de um jubileu recordar que, quem não valoriza as raízes, quem não estica o seu olhar para o que recebeu dos antepassados, jamais conseguirá lançar-se para frente. É o mal hoje de muitos que não querem valorizar a sabedoria dos mais velhos, as experiências positivas e negativas do passado e somente se fixam no hoje e no amanhã. É o efeito “bodoque”: quanto mais se puxa para trás mais a pedra vai para frente. O jubileu então é essa oportunidade de voltar ao passado para que nossa vida corra bem para o futuro.

CELEBRAÇÃO – um jubileu nos convida sempre a ter alegria de celebrar as conquistas do passado, pedir perdão pelos erros cometidos e anunciar os grandes sonhos que se deseja realizar no futuro próximo, médio e longo.

PROFECIA – todo o jubileu depois de fazer a memória do passado, e celebrar o presente e o futuro nos convida a profetizar o que realmente queremos realizar para que se alcance o sonho de Deus: sermos todos irmãos, respeitando a natureza e construindo solidamente um futuro diferente à semelhança daquele que foi traçado pelo próprio Filho de Deus Jesus Cristo Nosso Senhor.

Tudo isso encontramos no cântico de Maria quando de sua visita a sua prima Izabel. Cantou ela a alegria de ser amada por Deus e mesmo sendo pequena escolhida para ser a mãe do Salvador. Cantou a memória de seus antepassados que lhe legaram a fé tesouro principal de seu coração. Cantou as realizações justas de Deus em favor dos pequenos e contra a maldade dos poderosos. Cantou finalmente o sonho de ver uma sociedade onde o amor e a misericórdia se estendessem para todas as gerações.

Encontramos aí um pouco daquilo que é a mística de qualquer jubileu. Não é apenas festividade, mas sobretudo o compromisso de afastar tudo o que indique escravidão e injustiça e construindo as bases sólidas de um mundo justo e fraterno.

09

Dom Décio Zandonade
Bispo emérito da Diocese de Colatina e reitor do Santuário da Saúde, Ibiraçú

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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