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A judicialização da política e a politicagem do judiciário e da mídia

Reuniões vergonhosas, no adiantado da noite, entre autoridades dos poderes executivo, legislativo e judiciário e representantes do empresariado assustam, mas são apenas a ponta do iceberg a evidenciar que nossa democracia não vive do equilíbrio entre os três poderes, mas de um arranjo interesseiro e de autoproteção coletiva entre eles e o mundo dos negócios. Contudo, em vez de assustar, estas constatações devem servir de amadurecimento pessoal para nós e democrático para o país.

Fato é que o Brasil vive hoje o seu melhor momento de combate à corrupção. A declaração feita há alguns meses pelo patriarca da Odebrecht, de que toda a corrupção feita nos últimos tempos no âmbito da Petrobrás repete exatamente o que seu pai fez no comando da empresa ainda no período da ditadura civil-militar, assim como nos governos do PMDB e PSDB e continuou nos governos PT com ele e seu filho Marcelo. Esta é apenas uma das muitas provas de que a corrupção é endêmica no Brasil, com a diferença de que não era investigada, sequer vista antes. Ou seja, estávamos antes no fundo do poço, agora iniciamos a saída dele.

Constatamos que o Brasil tem – e sempre teve – um sistema político corrompido, imiscuído com o poder econômico, a ponto de não conseguir gestar um projeto de nação, de pensar um país para o amanhã. Quando se fala em reforma é para destruir as conquistas populares e engordarem os já fartos bolsos da elite nacional e estrangeira, como ocorrera sobejamente até à mudança de rumo das políticas nacionais, ainda que timidamente, a partir de 2003.

Constatamos, também, que temos um sistema Judiciário que abdica de suas funções para fazer as vezes do sistema político, lavando as mãos no caso do último impeachment, e se reorganizando para manter no poder um grupo com volume surpreendente de provas de corrupção. Um Judiciário que dispensa provas para decidir a partir de convicções pessoais ou de interesses particulares. Se faltam provas contra quem ele decidiu condenar, aumenta-se o número de pessoas que fazem delação semelhante, para dar a ideia de que o volume por si só gesta o fato. Se sobram provas contra os aliados, entra-se numa discussão jurídica sobre sua validade formal. É um judiciário onde impera a lógica: aos inimigos o rigor da lei, aos amigos os benefícios da lei.

Também clareou em nossas vistas, que temos – e sempre tivemos – uma mídia que não cumpre com seu papel essencial de vigiar os poderes, de fazer investigação, para se acomodar nas facilidades do jornalismo meramente declaratório. Notícia hoje é o que alguém disse que ocorreu, tenha ou não ocorrido de fato. Elevou-se à condição de verdade o que dizem, sem provar, certas pessoas, na sua imensa maioria inidôneas, isto é, corruptos pegos com a mão na botija que, para amenizarem suas penas, dizem apenas o que interessa para obter o prêmio de alívio prisional e seguir se beneficiando de grande parte de seus roubos. Uma mídia que nada mais investiga, nada mais pergunta, nada mais duvida, nada mais questiona, e cujos principais comentaristas se tornaram porta-voz chapa-branca das reformas propostas pelo governo, afirmando que são essenciais para não quebrar o país, sem sequer mostrar outras propostas de reforma possíveis. Um jornalismo que difunde como verdade, por exemplo, as mentiras de que a Previdência Social é deficitária.

Hoje já importa pouco saber quem foi pra rua, vestindo a camiseta da pouco proba CBF, convocado por movimentos sectários usando dinheiro do PSDB, PMDB e FIESP, sob a batuta da grande mídia, para pedir o impeachment de Dilma e os que estão na rua gritando Fora Temer. É ora de andar olhando para a frente e não pelo retrovisor.

Precisamos nos unir para exigir – nas ruas, nas redes sociais, escolas, universidades, igrejas e em todos os demais espaços públicos – que o sistema de Justiça investigue, julgue e puna todos os corruptos, independente de partido ou origem social; que o sistema político cumpra o que promete em campanha e desenvolva mecanismos para afastar os corruptos que dele tomam parte; que o empresariado pague seus impostos e suas imensas dívidas com o Estado assim como faz compulsoriamente todo trabalhador; e que a mídia cumpra com o que diz ser: imparcial. Ou então, que assuma de vez de que lado está.

E quem desses não cumprir que seja apeado do lugar social que ocupa, pelo voto ou pelas mobilizações sociais que a democracia exige. Ir pra rua é uma delas. Ficar parado, esperando que esses poderes se limpem por si só é pior do que crer em duendes, é ser conivente e, por isso mesmo, profundamente anticristão.

Elson Faxina
Jornalista e professor da UFPR

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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