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A força política das igrejas (neo)pentecostais

Na vida política brasileira este tema é dos mais atuais e com muitas repercussões na vida republicana. A população evangélica, segundo dados do IBGE, é de 42 milhões de pessoas (22%). Por ano, estima-se a criação de 14 mil novas Igrejas no Brasil. Em função deste crescimento populacional e político, em 18 de setembro de 2003 foi criada a Frente Parlamentar Evangélica com a assinatura de 198 Deputados e Senadores de diversos partidos. Uma Frente Parlamentar pode ser definida como uma associação civil, de natureza não governamental, integrada por Deputados e Senadores da República do Brasil. Hoje a Frente Parlamentar Evangélica, segundo o DIAP, é das mais atuantes e representativas. A força religiosa dos pentecostais se veste de força política e econômica.

Entre os partidos com maior número de representantes nesta Frente estão o PR, o PRB, o PSC, o PSD e o PMDB. Em 1998 haviam 44 parlamentares. O plano para as eleições deste ano é de um crescimento de 30%, passando dos atuais 93 para 150 deputados, e de 3 para 15 senadores. Este número é ainda maior se contarmos os parlamentares simpatizantes da causa evangélica e alguns católicos. Este cenário nos traz algumas questões e preocupações. Há que se acrescentar ainda que todos os partidos possuem interesse em ter evangélicos em seus quadros tendo em vista o volume de seus eleitores.

Qualquer grupo tem o direito de ser representado no Congresso Nacional, portanto, os evangélicos pentecostais não estão errados neste interesse, assim como qualquer outro grupo. A democracia pressupõe esta prática, e cada grupo tem também o direito de pautar sua conduta nas votações do plenário. Muitos temas que são objeto de sua pauta como aborto, casamento gay e criminalização das drogas os aproxima de outros grupos religiosos, entre eles os católicos.

Uma crítica que vem crescendo ao grupo dos religiosos é que eles reduzem a política a questões morais e comportamentais. Mas nem sempre a questão moral é o principal interesse desta bancada. Muitas vezes, o que está em jogo é a chegada ao poder, a ocupação dos diversos níveis de poder desde os municípios até a Presidência da República. A tomada do Estado pelo interesse religioso poderá constituir uma nova cristandade no molde pentecostal.

A força evangélica pode ser sentida na influência que seus representantes possuem a respeito da concessão de rádio e TV e no poder de contestar leis junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). Além disso, sua força está também na crescente participação nas principais Comissões como: de Constituição, Justiça e Cidadania; de Seguridade Social e Família; de Direitos Humanos e Minorias; de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática. Esta força e presença refletem muito bem os interesses que guiam suas participações na vida parlamentar.

E neste ponto, necessitamos incluir uma reflexão da mais alta importância: a relação entre os interesses particulares das Igrejas e a configuração do Estado laico. Até onde sua atuação não estaria afetando a estrutura de um Estado que zela pelo bem público em detrimento dos interesses privados ou particulares? E ainda mais, considerando o êxito de muitas lideranças com ideias excludentes e discursos de ódio, não estaria em risco os princípios da vida democrática que fundam a liberdade e a tolerância?

A questão do financiamento das campanhas eleitorais não levou em conta a influência e as práticas advindas das Igrejas. A proibição de doações por parte das empresas já representou um avanço. E o STF aponta que agora são as Igrejas que mais possuem dinheiro e capacidade de mobilizar a população para o voto. Como controlar a captação de votos que ocorre nos púlpitos das Igrejas? O fiel evangélico tem perfil bem diferente do católico. Então o templo vira palco e o púlpito vira palanque político. As discussões pragmáticas acontecem muitas vezes ali mesmo neste espaço. Ao contrário, a Igreja Católica tem um posicionamento de abstenção na indicação de candidatos às eleições.

As coisas vão ficando mais complexas em relação à constituição do Estado laico quando a liberação de emendas parlamentares por parte do Executivo situa-se na linha direta de beneficiar hospitais e instituições evangélicas e ações e serviços orientados para beneficiar as bases eleitorais. É do nosso conhecimento expressões como: “Santas emendas” ou mesmo “foi Deus que mandou votar assim”. A instrumentalização do Estado avança nas lutas por isenção fiscal de templos religiosos, alvarás de licença de funcionamento das Igrejas, doações de terrenos, distribuição de concessão de rádio e TV, transformação de eventos evangélicos em eventos culturais visando receber financiamento proveniente da Lei Rouanet e organização da lei do silêncio. Portanto, nem sempre as pautas morais são a questão principal da Frente Evangélica. Muitas vezes, a questão moral encobre outros movimentos que configuram o enfraquecimento da vida democrática em que as ações do Estado devem ser dirigidas para bem público, o bem comum, e não particular desta ou aquela Igreja. Todos possuem os mesmos direitos num Estado democrático.

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Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências Religiosas

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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