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A família e suas relações

Há algum tempo atrás tínhamos claramente uma definição do núcleo familiar, como sendo composto de um pai, uma mãe e filhos. O pai saía para trabalhar, a mãe ficava em casa e cuidava dos afazeres domésticos e dos filhos. Era possível às famílias se sentarem à mesa para fazerem suas refeições em conjunto, rezarem juntos; os pais sabiam onde os filhos estavam, havia um “olhar nos olhos” ainda que os diálogos fossem curtos, ou acontecessem por meio de “causos” contados pelos mais velhos reunidos numa sala. Os limites eram mais claros, ainda que muitas vezes impostos, e os papéis mais definidos.

Atualmente ainda encontramos essa configuração tradicional no núcleo familiar, mas também configurações familiares distintas, bem como mudança nos papéis. Agora, também as mães passam a ter uma jornada de trabalho fora do lar, e os filhos estão sendo cuidados e educados por avós, babás, escola, televisão… A distância entre pais e filhos tende a aumentar quando esses se tornam adolescentes e jovens. Apesar de viverem na mesma casa pouco “com vivem”.
Pais e filhos estão mais conectados às mídias do que uns aos outros, mais focados em satisfazerem desejos imediatos, do que às necessidades que os realizem como pessoas. Filhos não precisam ter cada um, uma televisão em seus quartos, onde podem ver o que não devem. Precisam “com viver”! O que fazer então para resgatar a convivência familiar saudável, mediante tantas mudanças? Fazendo uso de forma adequada das novas tecnologias, para que favoreçam a unidade familiar.

É preciso reinventar o modo de estar junto. Não é necessário se desfazer das modernidades tecnológicas, mas é fundamental lembrar que nós precisamos nos “servir delas”, e não “servir a elas”. Posso me servir de uma rede social virtual para matar as saudades daquele membro da família que se encontra distante geograficamente. Mas posso, e devo procurar falar pessoalmente com aquele que está perto geograficamente, fisicamente na mesma casa, sem depender dessa “rede social” virtual.

Nas relações humanas “reinventar” significa encontrar novos meios de se manter unido naqueles momentos em que não é possível estar junto fisicamente, mas sem negligenciar ou substituir esse convívio real, em que se pode tocar um no outro por meio de um carinho, um abraço, olhar nos olhos, pois necessitamos de toques afetuosos que nos permitem perceber que somos pessoas e não máquinas. Certa vez uma jovem se queixou com outra, o quanto sentia sua vida vazia, sem sentido, carente de afeto. Ela morava com o pai, que era separado de sua mãe, e a única forma de falar e ter contato com ele, era pelo computador ou mensagens de whatsApp. Tinham horários diferentes de atividades sim, mas até quando estavam no mesmo horário dentro de casa, a comunicação era feita da mesma forma, cada um no seu quarto, usando a sua mídia.

Unidade é a palavra chave na vida familiar “ontem” e “hoje”! É importante lembrar a máxima de que o “ser” vale mais que o “ter”. Atualmente muitas pessoas não se sentem valorizadas pelo que são, mas pelo que têm, e isso começa em casa, quando os filhos recebem “coisas” no lugar de abraços, e de elogios por suas conquistas, como essa jovem solitária em seu quarto, com tudo o que há de mais moderno para se comunicar, sentia falta do que há de mais antigo e necessário a qualquer ser humano, que é a troca de afeto, amor concreto em forma de abraço por exemplo. Por mais difícil que seja conseguir momentos em que se possa fazer um “programa de família”, é possível estar unidos em pequenos momentos.

Com muita criatividade, tirando os exageros, as famílias podem usar os grupos de WhatsApp, ou o Instagram, por exemplo, para se atualizarem dos acontecimentos nas vidas uns dos outros, não com intuito de bisbilhotar, mas para se alegrarem com suas conquistas, rezarem por suas necessidades, compartilhar informações importantes, viagens, anedotas e até mesmo pedir conselhos! É possível também aos pais, por meio dessas mídias, saberem onde os filhos estão e com quem, se estão em lugar seguro. Há famílias, que usam esses grupos para marcar almoços, estabelecendo o que cada um irá levar para ser compartilhado. Isso é um facilitador para o sucesso desse almoço, onde finalmente estarão juntos, sentindo uns aos outros, compartilhando enfim mais do que o alimento para o corpo, mas também para mente e o espírito! Isso é “servir-se” da mídia colocando em primeiro plano as pessoas, e não o contrário “servir a ela”, esquecendo-se das pessoas.

As famílias “ontem”, “hoje” e “sempre”, não podem abrir mão do seu papel de proporcionar um ambiente seguro para o desenvolvimento da autonomia do indivíduo. Como? Fazendo um bom uso das modernidades a seu favor, usando-as para promover momentos de diálogos, em que se possa também olhar um nos olhos do outro pessoalmente e não apenas vitualmente. É preciso lembrar aos pais que os filhos, tenham a idade que tiverem, precisam de tempo de qualidade, ainda que sejam cinco minutos, mas que nesses minutos eles olhem para seu filho, ou sua filha nos olhos, escutem o que ele ou ela diz, percebam o que ele ou ela está sentindo, e não necessariamente digam alguma coisa, apenas os abracem. Isso é mais valioso do que o brinquedo mais caro! Nesse tempo de Natal, que as famílias possam dar mais tempo, abraços, olhares, sorrisos uns aos outros, pessoalmente de preferencia. Bens preciosos que não custam um centavo! Mas se de tudo não for possível, que seja virtualmente, mas que seja dado!

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Suy Ferreira Nunes Ortolon
Psicóloga Clínica

 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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