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A ESCOLHA E O LEGADO DO BISPO

Em uma Celebração Eucarística na capela da Casa Santa Marta em maio deste ano, o papa Francisco tomando como referência o texto de Atos dos Apóstolos (At 20) em que Paulo se despede da comunidade de Éfeso e se dirige para Jerusalém “sem saber o que aí me acontecerá”, faz uma reflexão séria a respeito do ministério episcopal. Segundo o Papa, “é uma passagem forte, que chega ao coração, é também um trecho que nos mostra o caminho de cada bispo no momento da despedida”.

Na história da Igreja a escolha dos sucessores dos Apóstolos seguia critérios que diferem muito do que estamos acostumados a ver no mundo moderno. Com o advento de muitas Igrejas Pentecostais que também nomeiam seus ministros de bispos com comunidades que tem mais aparência de empresas que comunidades eclesiais, corre-se o risco de afastamento dos critérios adotados nos inícios da Igreja Cristã.

Para ser bispo, o critério para a escolha é que fosse pessoa ensinada pelos Apóstolos, que teve contato direto com algum Apóstolo. Isso garantia maior grau de autenticidade a sua pregação. É preciso ter sido ensinado por alguém que recebeu a doutrina dos Apóstolos e manteve-se fiel a esse ensinamento. Quando morreram os apóstolos, este mesmo critério deveria continuar na linha direta do ensino da dou-trina. Outro critério era que os escolhidos fossem “mansos, sinceros e provados”. Não há lugar para ministros raivosos, intolerantes, violentos.

Esta era a preocupação fundamental da Igreja dos primeiros tempos e, por isso, era preciso muito cuidado na escolha dos sucessores. Trata-se de garantir e manter viva a doutrina na luta contra todo tipo de distorção, preservar a linha apostólica, a memória viva representada por aqueles que conheceram os Apóstolos e foram postos à frente das Igrejas por eles.

A sucessão significa sempre a entrega e a recepção oficial da doutrina dos Apóstolos. Não se trata de uma carreira. Esta é a grande tentação que pode acometer os ministros eclesiásticos. A trilha seguida é indicada pelo Espírito e não pelo mundo. Um bispo não deve ser escolhido, por exemplo, em função de sua capacidade administrativa. Ao despedir-se de uma comunidade ou diocese só tem como herança a deixar a graça de Deus, a coragem apostólica, a revelação de Cristo e a salvação. E como Paulo, ao despedir-se o bispo não leva nada para si, nem prata e nem ouro ou vestes.

Conclui o Papa: a experiência do bispo é aquela de alguém que sabe discernir o Espírito, que sabe identificar quando é Deus que fala e que sabe defender-se quando fala o espírito do mundo. Não sabe o caminho que virá pela frente. O bispo vai avante sempre, mas segundo o Espírito Santo e não segundo os critérios do mundo. “A missão do bispo é cuidar do rebanho, não fazer carreira eclesiástica”.

Edebrande Calalieri
Doutor em Ciência da Religião

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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