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A educação vista como um fator transformador na vida das pessoas

FOTO - WEMERSON 3Wemerson Nogueira não conquistou o primeiro lugar, mas conseguiu mostrar ao mundo todo que no Brasil existem professores de qualidade, que conseguem transpor milhares de barreiras para proporcionar a muitos uma educação de qualidade.

vitória – Como um filho de agricultores se interessou mais pelos estudos do que pela terra e se tornou professor?

Wemerson – Quando eu era criança e meus pais iam para a roça trabalhar, existia uma regra para os sete filhos. Ou íamos para roça com eles ou ficávamos em casa estudando. Eu não queria ir para a roça, então eu estudava. Passei a ser monitor das aulas na escola porque eu era hiperativo, muito agitado e a professora resolveu me dar essa função para me ocupar. Então, eu estudava os conteúdos das aulas do dia seguinte e usava isso como uma desculpa para não ir para a roça. Não que eu ache desmerecedor o trabalho agrícola, meus pais são agricultores até hoje, mas eu não queria ir. Isso fez com que eu tomasse muito gosto pelos estudos e, mesmo sendo semianalfabeta, minha mãe, ao chegar em casa da roça, me fazia explicar tudo que eu havia estudado para ela.

vitória – O que te motiva como professor?

Wemerson – O que me motiva como professor é saber que eu estou na sala de aula, trabalhando a metodologia teórica do ensino, mas de uma fora atrativa, envolvendo projetos educacionais com teoria de conteúdo. Isso me faz motivar os alunos durante as aulas a querer participar, brincar, se divertir, pesquisar, sair do espaço da sala de aula para aprender de uma forma diferente. Vejo com isso transformações e resultados acontecendo na vida dos alunos. Resultados como bom rendimento em notas, em participação, alunos sendo aprovados em universidades federais. Isso me dá estímulo diário para querer sair de casa e ir para uma sala de aula.

vitória – Onde você leciona atualmente?

Wemerson – Hoje eu trabalho na faculdade Multivix, em Vitória e Cariacica, e leciono as matérias de Química e Educação Ambiental. Tenho formação em Química e Ciências pela Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES) uma Faculdade de Educação à Distância.

Atualmente não estou no sistema público. Eu abri mão disso para atuar na faculdade, porque é uma nova experiência, pois desta forma estou atuando com futuros professores. Eu posso passar para esses alunos essa motivação que eu trago comigo, de querer fazer diferente e contribuir com uma educação inovadora no país.

vitória – Você está entre os 10 melhores professores do mundo. O que significa isso para você e como foi participar desse ranking?

Wemerson – Eu diria que estar entre os 10 melhores é algo inacreditável. Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo. Eu escolhia profissão de professor por amor, por paixão, jamais com interesses de buscar méritos, de buscar reconhecimento, mas a vida profissional me proporcionou caminhos para buscar esse reconhecimento. Então, a partir do momento que eu vi que o professor não é bem pago, e isso desestimula muitos profissionais, eu pensei que seria bacana buscar meu próprio reconhecimento de uma outra forma. Já que eu não posso ter um salário digno, um salário bom, eu decidi buscar pelo menos o reconhecimento e mostrar que eu sou um bom profissional, que eu sou um professor que atua para mudar constantemente a vida dos alunos e isso pode mudar minha vida, como de fato mudou. Eu fui buscando esses caminhos de prêmios envolvendo projetos educacionais, conquistei prêmios estaduais, nacionais e por fim cheguei a participar como finalista do maior prêmio da educação no mundo.

vitória – Como aconteceu a inscrição para esse prêmio?

Wemerson – Quando venci o prêmio Educador nota 10, uma amiga me marcou em uma publicação do Facebook. Eu entrei no site, me inscrevi e contei minha história, mas sem nenhuma pretensão. Respondi a um questionário contando minha história de transformação com os alunos. Confesso que não escrevi com intuito de ser classificado, porque sei que em países como África, por exemplo, onde a educação é precária mesmo, existem histórias fantásticas de professores que dão aula escrevendo com gravetos no chão de areia ou usando pedaços de porta para dar as lições. Achei que não tinha chances, e foi uma surpresa. Fui classificado entre os 50 e depois entre os 10 finalistas. Fui para Dubai, onde era a entrega do prêmio e vivi uma experiência incrível. Não saí como o vencedor de 1 milhão de dólares, mas enfim, voltei com tantos outros méritos e com tantas outras vitórias.

vitória – O que te faz diferente dos outros profissionais da área de educação no país?

Wemerson – O que me faz diferente na educação é que eu não olho para as barreiras, para as dificuldades, eu não olho para a falta de recurso financeiro, eu não olho para a falta de infraestrutura como algo que vai me dificultar alcançar o resultado para transformar a vida de um aluno. Eu acho que isso me faz ser diferente. Se todos encarassem assim, a educação no Brasil seria muito diferente.

vitória – É esse o papel do educador? Lutar pela transformação sem olhar para as barreiras?

Wemerson – Sim. É preciso olhar para a educação como um fator transformador que irá somar na vida de uma criança, na vida de um indivíduo, de uma comunidade, de uma sociedade, de um país. A gente transmite conteúdo, só que temos que saber como vamos transmitir essa informação. O aluno do século XXI está voltado para as tecnologias, para as redes sociais.  Ele não quer mais ficar em uma sala de aula, entre quatro paredes, olhando para o quadro com um professor escrevendo conteúdo, ditando matéria. Ele quer um método inovador. Isso só é possível quando agregamos o método de ensino com um método de transformação na vida desse aluno, juntando conteúdo à diversão, à atratividade e à brincadeira. Isso permite fazer a transformação.

vitória – Você considera a forma de você pensar a educação uma exceção no país?

Wemerson – Não. Conheço muitos professores que desenvolvem projetos educacionais incríveis. Entretanto, eu diria que muitos desses professores não têm colocado esses projetos em evidência, à visão do país, à visão do mundo. O organizador do prêmio mundial Global Teacher Prize, Vikas Pota, da Varkey Foundation, disse em uma matéria à Revista Veja que me considera um cara incrível pela transformação que eu consegui na vida dos meus alunos com o projeto que eu desenvolvi. Ele afirmou que, naquele momento, a oportunidade era para mim, mas que isso não impediria que outros professores brasileiros também se destacassem em outra oportunidade. Então é isso, acho que existem muitos professores transformadores pelo Brasil, pelo mundo.

vitória – Você acredita então que sua participação no Global Teacher Prize é uma motivação para os outros professores?

Wemerson – Com certeza. Acho que nossos professores precisam pegar essa ideia e transformá-la em uma ideia que vai contagiar outros professores, contagiar escolas, alunos. A gente precisa fazer isso. É um dos meus novos projetos. Eu pretendo iniciar uma nova carreira na educação em busca de profissionais que querem transformar. A partir disso, darei consultorias, orientações para que a gente faça uma educação inovadora no Brasil, para que a gente transforme a vida dos nossos professores a para que exista um incentivo para que nossos alunos queiram se tornar professores, pois é uma profissão digna que tem que ser reconhecida, valorizada. Existem mais de 50 prêmios educacionais para reconhecer o mérito de um professor. Eu gostaria de ver os professores brasileiros que têm projetos bacanas serem valorizados também através desses prêmios, que estão ao alcance de todos.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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