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A BUSCA DO SÍMBOLO PERDIDO

“ Vocês vieram aqui porque querem se casar. Poderiam fazê-lo no civil, mas querem fazê-lo na Igreja, então, por que casar na Igreja? ”

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Com essas palavras ou semelhantes, um jovem casal foi interrogado no momento do juramento, isto é, um diálogo entre os noivos com o pároco para verificar as predisposições necessárias para assumir o matrimônio religioso validamente. Esta frase por um lado é gravemente errônea; por outra, esconde uma grande verdade. Casar-se no civil não é o mesmo que se casar na Igreja, ao menos não o é para duas pessoas que, tendo sido batizadas na Igreja católica, não a tenham abandonado mediante um ato formal.

Desde o Concílio de Trento, 1545, a Igreja estabeleceu que os casamentos dos católicos fossem celebrados, em princípio, na presença de um sacerdote e de duas testemunhas comuns.
Daí tornar-se necessário enfatizar que entre católicos não tem o mesmo significado casar-se na Igreja “no Senhor” e casar-se no Estado, perante um seu funcionário.

Contudo, um casamento celebrado com todas as bênçãos do bispo e na catedral de uma cidade pode ser perfeitamente nulo, quer dizer, inexistente, caso as partes não se entreguem reciprocamente, ou seja, deixem de prestar um consentimento interior livre, verdadeiro e real. Um casamento com muito luxo, não só porque se desenrola na catedral e é presidido pelo bispo, mas também porque é celebrado diante de uma multidão de convidados e que se torna público porque dele dão notícia todos os meios de comunicação. Ora, apesar de todas as aparências de que ali começa a existir um casamento, pode ocorrer que tal união venha a se constituir somente nisso, um casamento aparente e nada mais. O casamento, portanto, não é concretizado pelas aparências sociais, pelos ritos civis, sagrados ou outros inventados da moda atual, e sim pelo consentimento dos cônjuges. E assim é precisamente porque o casamento não é cerimônia, mas a união do homem e da mulher nascida pelo consentimento matrimonial, ou seja, do pacto em que um e outro se entregam e se aceitam mutuamente. Se esse “sim” não é dito como coração, se esse “sim” não se faz acompanhar da verdadeira vontade de se entregarem e se aceitarem mutuamente, estamos na presença de uma pura cerimônia, mas ali não haverá casamento. Não é cerimônia que faz o casamento, são os cônjuges, com seu consentimento real, com mútua entrega de suas pessoas.

Tem se tornado cada vez mais comum pedidos dos jovens casais de namorados ou noivos realizar a celebração do seu matrimônio fora da Igreja, ou seja, fora do espaço sagrado. Há também os pedidos mais “criativos” (para não chamar de criatividade selvagem ou fantasia) para se incluir na celebração. O que achamos “legal” incluir na liturgia do casamento pode ser uma visão enganosa da cultura dominante nos últimos séculos que acentua como mais importante do casamento um elemento que não tem relevância humana e existencial. Não são poucas vezes que a cerimônia “legal”, seja religiosa seja civil, não possui absolutamente conteúdo matrimonial. Por exemplo, o uso de placas que precedem a noiva ou o noivo com a seguinte frase: “fuja enquanto é tempo”, “como é que eu vim parar aqui?” e “agora é tarde para fugir, amor!”.

No casamento, deve-se distinguir o nível interpessoal – o poder soberano dos esposos – do nível social. Ambos os níveis são essenciais, e por isso se pode falar de dois co-princípios constitutivos do casamento: o principio consensual e o principio formal. Para que um casamento possa ser considerado válido, é necessário que se cumpram esses dois princípios. Portanto, eu não posso manipular a liturgia do matrimônio ao meu bel-prazer.
Então, como fazer para que os elementos rituais do sacramento do matrimônio sejam experiências verdadeiras e conduzam os casais à sua finalidade última? Como fazer para que o barco não naufrague num mar de “criatividades” vazias?

A experiência quando é verdadeiramente humana, não pode separar-se da reflexão e da busca de um sentido. O poeta T.S. Eliot exprime essa ideia na sua obra Quatro Quartetos: “Tínhamos a experiência, mas tínhamos perdido o sentido. Mas aproximar-se ao sentido restabelecia a experiência de modo diferente”. Tínhamos a experiência, mas era incompleta, pois faltava uma reflexão, uma luz; somente a compressão do sentido consente uma real experiência da vida e do mundo. Assim, podemos concluir que experiência e a reflexão sobre o significado não se opõem; antes, o significado faz parte da experiência e a faz plenamente humana.

O matrimônio tem um significado próprio enquanto implica uma entrega mútua dos esposos, de caráter pessoal e corporal, e abrange um projeto de vida aberto à comunidade familiar. Essa união é fruto do amor e da decisão voluntária do casal, mas se insere na vontade da própria natureza humana e na intenção do Criador.

O sacramento do matrimonio significa e realiza o “mistério” da Igreja num momento e numa situação singular da vida humana. Quando os noivos cristãos se sentem chamados a unir-se em matrimônio, a “tornar-se um só corpo”, para realizar o projeto que Deus teve ao criar o homem e a mulher, convertem-se em sinal da união que existe entre Cristo e sua esposa, a Igreja. Quem realmente se entrega e aceita ao outro como esposo (ou esposa) está respondendo a uma vocação divina, ainda que não esteja consciente disso.

O número 68 da Exortação Familiaris Consortio oferece diversas orientações pastorais para a celebração do matrimônio e a evangelização dos batizados não-crentes. O núcleo central desse número consiste em recordar a peculiaridade do matrimônio com respeito aos demais sacramentos: “… ser o sacramento de uma realidade que já existe na economia da criação: o mesmo pacto conjugal instituído pelo Criador ‘desde o princípio’. A decisão do homem e da mulher de se casarem segundo este projeto divino, a decisão de empenharem no seu irrevogável consenso conjugal toda a vida num amor indissolúvel e numa fidelidade incondicional, implica realmente, mesmo que não de modo plenamente consciente, uma disposição.. de profunda obediência à vontade de Deus, que não pode acontecer sem a graça. Portanto, inserem-se já num verdadeiro e próprio caminho de salvação, que a celebração do sacramento e a sua imediata preparação podem completar e levar a termo, dada a retidão da intenção deles”.

A Igreja recorda, ainda, a todos os membros a urgente “…necessidade de uma evangelização e catequese pré e pós-matrimoniais, feitas por toda a comunidade cristã, para que cada homem e cada mulher que se casam o possam fazer de modo a celebrarem o sacramento do matrimonio não só válida, mas também frutuosamente” (FC, n. 68).

 

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Pe. Renato Criste Covre
Mestre em teologia do matrimônio e família

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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