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A atuação da Igreja Católica durante a Ditadura Militar

Era 1° de abril de 1964 quando os militares deram um golpe e instauraram a Ditadura Militar no Brasil. Paralelamente ao período de repressão, censura e perseguições, florescia na Igreja de Vitória as Comunidades Eclesiais de Base. Foi o despertar de uma Igreja que escolheu lutar pela causa dos mais pobres e oprimidos. Uma Igreja que despertou nos fiéis o pensamento questionador e a vontade de buscar uma sociedade melhor, mais justa e solidária. Um dos fatos que contribuiu para sustentar essa ação católica foi o Concílio Vaticano II, realizado de 1962 a 1965 e presidido, inicialmente, pelo então papa João XXIII. Dentre os vários objetivos propostos pelo Concílio, ressaltamos o que visava estruturar uma maior atuação do clero nos assuntos sociais.

Nesse contexto, a Igreja capixaba, liderada pelo arcebispo Dom João da Motta e Albuquerque e pelo bispo auxiliar Dom Luís Gonzaga Fernandes, foi vista como a instituição de resistência ao regime ditatorial, e utilizou os seus espaços e a sua influência para levar às comunidades a reflexão sobre o momento sócio-político vivido pelo país. Era constante nas reuniões, assembleias e encontros das comunidades, a presença de policiais infiltrados para espionar e gravar o que estava sendo dito. “Com grandes gravadores, esses caras marcavam presença nas nossas reuniões e nós os colocávamos para fora. Em uma determinada assembleia, houve a colocação de uma bomba em pleno auditório do Carmo. O auditório teve que ser esvaziado rapidamente, a bomba foi jogada mas não estourou e eu me lembro apenas de ser carregado escadas abaixo, foi uma correria medonha. Era uma bomba de fabricação caseira, que jogaram para amedrontar o movimento”, contou Cláudio Vereza, católico atuante, que militou durante a ditadura pela liberdade democrática.

Aos 14 anos, Francisco Celso Calmon iniciou a sua militância pelas causas sociais, ainda imaturo e com propósitos um pouco conturbados. Ao ouvir uma fala do padre Valdir Ferreira de Almeida, que deveria buscar a justiça por outros meios e não com revolta, houve a aproximação com os ideais da Igreja Católica. “Eu diria que a Igreja, por meio da ação católica, deu organicidade e rumo para a minha militância, que teve início há mais de 50 anos”. Celso foi diretor regional da Juventude Estudantil Católica (JEC) e lutou contra a ditadura, foi perseguido, exilado e preso.

Durante o período, a Arquidiocese lançou alguns documentos com o objetivo de provocar a reflexão para a conscientização sócio-econômica-política. Podemos citar documentos como o SIDAV (Serviço de Informação da Arquidiocese de Vitória), Boletim da Gente, Bate Papo Sobre Política, Manual do Eleitor, o Boletim Ferramenta, da Pastoral Operária que traziam informações diversas sobre a realidade social, esclarecendo questões acerca da política.

Também foram criados os concilinhos que, com linguagem popular, passavam as ideias chaves do período, conforme conta Marlene Cararo: “A gente participava de assembleias e encontros de Igreja para discutir o Concílio, onde essa perspectiva da realidade social estava muito presente. E esse trabalho ficou muito dentro da Igreja, nas pastorais, no estudo da Bíblia. Em 75, 76, o Concílio de jovens foi o ápice, o ícone desse trabalho realizado no interior da igreja. O DOPS participava desses momentos, sempre camuflado, espionando”, e completou: “Naquela época eu nem compreendia bem o que se passava, a noção exata do que era a ditadura, mas eu fazia tudo movida pela fé, pela dimensão eclesial de que aquilo era o correto a se fazer, na perspectiva da teologia da libertação. A gente fazia aquelas análises da realidade, de que o povo tinha que ter democracia, o povo tinha que participar. Dom João coordenava essas assembleias e puxava o canto: “A vida que a gente vive é cheia de divisão, mas Deus não quer isso não! Foi um momento muito rico na nossa Igreja”.

Em 1977, a CNBB lançou o documento ‘Exigências Cristãs de uma Ordem Política’, um documento que denunciava toda a forma de opressão e incentivando a liberdade democrática. Focada na responsabilidade social e consciente da importância do povo nos processos e reflexões, a Arquidiocese de Vitória, a pedido do bispo Dom Luís Gonzaga Fernandes, traduziu o documento para a linguagem popular. Ele foi estudado em, praticamente, todas as CEBs da diocese. O documento foi realmente um posicionamento da Igreja contra o regime instaurado, contendo críticas diretas ao governo, abordando o direito à liberdade ao voto direto e questionando a forma de desenvolvimento adotada pelos militares.

A Arquidiocese de Vitória criou também diversos organismos de atuação leiga. Um deles foi a Comissão Justiça e Paz (CJP), criada em setembro de 1977. Dom João dava a sustentabilidade representativa que a comissão exigia, enquanto Dom Luís trabalhava nos bastidores articulando e motivando a militância leiga para o desempenho das atividades.

João Batista Herkenhoff foi o primeiro convidado para fazer parte da CJP. Uma das lutas encampadas pela comissão foi uma ação contra os despejos coletivos. “Com o título de propriedade em mãos, foi realizado o despejo de mais de 500 famílias. A Comissão Justiça e Paz tomou o lado dos posseiros e essa foi uma luta bem difícil. A luta pela justiça é uma luta evangélica, luta pela dignidade humana, essa visão orientava a CJP”. Com advogados voluntários a comissão lutava pela causa dessas pessoas. Durante a ditadura, Herkenhoff sofreu com o terrorismo psicológico feito pelos militares. Ligações para a sua casa, perseguições de carro à sua mulher, telefonemas monitorados foram algumas das situações vividas. Já juiz na época, Herkenhoff passou pelo banco dos réus, no Conselho Superior da Magistratura, por julgarem que sua atuação na CJP era subversiva. “É um conselho disciplinar, eu fui chamado para responder a um processo onde eram julgados ladrões e bandidos. Liguei para Dom Luís e pedi uma orientação de como me preparar, ele então me pediu para abrir e ler o Evangelho, dizendo que assim eu estaria preparado. Abri e li: “Quando fordes chamado ao tribunal, não vos preocupeis com o que haveis de dizer, o Espírito lhe soprará” (Lc 12,11-12). Na hora marcada eu fui, os desembargadores no alto, a minha cadeira posicionada abaixo deles e eles começaram a fazer perguntas e ali, o espírito me soprou. Eu falei com tanta firmeza que depois me admirei, parecia que eu estava lá em cima e eles embaixo. Foi incrível”, detalhou.

A ditadura militar foi um período que deixou marcas em muitos militantes e trouxe um retrocesso para o desenvolvimento do país. Porém, a atuação da Igreja suscitou e estimulou o pensamento crítico coletivo que, segundo Vereza, foi primordial para a formação de lideranças capixabas. “Sem a atuação da Igreja do Espírito Santo, sem esse trabalho pastoral com conteúdo libertador, eu creio que o movimento social e a vida política capixaba seria completamente outra, seria muito mais atrasada, o movimento social não teria surgido. Podemos observar na formação de vários sindicatos, tem sempre o dedo de alguém da Igreja. Sem a atuação da Igreja nos anos 60, 70, 80 e 90, a vida sócio-econômica e política não seria a mesma, não seria crítica. Muitas lideranças políticas vieram desse trabalho pastoral sistemático que houve naquele período”.

ENCONTROS INTERECLESIAIS DAS COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE

A atuação da Igreja, porém, sempre priorizou a dimensão da fé. Os membros que lutavam pela justiça social eram pessoas de fé e agiam motivados por ela. Assim, no ano de 1975, aconteceu em Vitória o primeiro Encontro Intereclesial das CEBs, no casarão de Santa Helena, onde hoje funciona o Seminário Nossa Senhora da Penha. O encontro tinha como proposta ser uma partilha das diversas experiências pastorais que estavam surgindo no Brasil e fortalecer nelas a experiência religiosa e o sentido de justiça. Como tarefa preparatória para o encontro de 1975, a pedido de Dom Luís, representantes de diversas dioceses prepararam um relatório contendo informações sobre a vida pastoral das comunidades que cresciam sobre os anseios do novo jeito de ser Igreja. O segundo intereclesial, em 1976, também aconteceu na Arquidiocese de Vitória e contou com a participação de leigos, com o tema: Igreja, povo que caminha. Segundo Vereza, durante este encontro, os participantes flagraram um espião da Polícia Federal em cima de uma árvore gravando a reunião. “Os militares tinham noção da capacidade mobilizadora da Igreja, mas não tinham motivos para a perseguição, pois a Igreja não pegava em armas, é uma instituição reconhecida e respeitada em todo o mundo. Perseguir a Igreja era mais difícil. Até pessoas que participavam de movimentos clandestinos vinham participar das atividades eclesiais, e isso nós fomos perceber tempos depois”, disse. Marlene Cararo também se recorda dessa situação. “Houve esse momento da chegada de pessoas que não tinham essa dimensão da fé, mas encontraram na Arquidiocese espaço para debater as ideias”.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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