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A Arte Sacra tem muito mais sentidos que o artista lhe atribui

Artista de arte sacra, Júlio Quaresma fala sobre a experiência de criação, desapego às obras criadas e dá dicas para o resgate do poder da imagem, segundo ele uma riqueza milenar que mostra a sabedoria da Igreja.

vitória – Fazer arte sacra coincide com o início da carreira?
IMG_4113Quaresma – De forma informal eu trabalhava desde 2015 eu já produzia arte sacra. Porém eu tinha uma grande dificuldade de apresentar esses trabalhos para o clero por ter um trabalho bastante distinto daquele corriqueiro que a gente vê nas igrejas locais e eu tinha um grande receio de receber muitos nãos.

vitória – De tudo que já fez qual trabalho mais o marcou?
Quaresma – Eu encaro o meu trabalho com o sentimento de um serviço. Pode ser uma capela particular ou uma basílica. Encaro cada trabalho de maneira muito honesta e com sentimento muito profundo e consigo me desprender da obra concluída como algo que pertence ao outro, ao outro no sentido do divino. A conclusão de uma obra gera um sentimento de satisfação, não tem como não ter esse comportamento diante de um dos trabalhos, mas eu consigo gerar esse desprendimento a obra não me pertence. Às vezes pode soar como um pouco de frieza, mas não é, é uma grande satisfação repito, mas é um serviço ao outro.

vitória – Nunca aconteceu de você concluir uma obra e dizer, esta eu queria ficar com ela, esta vou deixar na minha casa?
Quaresma – Vou ser bem sincero, isso nunca me aconteceu. Já fiz trabalhos que o resultado eu achei lindo, uma beleza que reflete o belo que é Deus, mas eu consigo desprender e não gerar nenhum envolvimento. Tanto é que não tenho nenhuma pretensão em assinar minhas peças. Sou um servidor, sabe? Tenho trabalhos ótimos, mas nenhum que eu queira ter comigo.

vitória – Quando você volta no lugar onde tem um trabalho seu e as pessoas estão contemplando, qual é o sentimento?
Quaresma – É um sentimento de muita gratidão a Deus e de um profundo sentimento de missão cumprida. Isso me fez recordar de um acontecimento que a meu ver foi um impulso para continuar. Na faculdade além de um trabalho artístico eu desenvolvia um trabalho de evangelização universitária, onde eu tinha a iniciativa de promover missas no campus. Um dia falei com um dos membros que ia trazer um crucifixo meu para colocar na parede quando se celebrava a missa no auditório. Aquela peça gerava estranhamento para muitas pessoas e eu fiquei ali olhando com aquela reação de receio. Então, entrou uma menina no auditório, subiu no palco, chegou perto do crucifixo colocou a mão nele e rezou. Isso para mim, parece que é pouco, mas eu consegui ver que aquela peça conseguiu tocar uma pessoa, eu não me esqueço disso. Acho que isso foi um grande incentivo e uma grande delicadeza de Deus para comigo.

vitória – Esse crucifixo ficou lá?
Quaresma – Eu levava toda a semana para a missa e depois tirava porque era o auditório da faculdade. Depois deve ter ficado com o padre, mas eu não me recordo.

vitória – Você é desprendido mesmo!
Quaresma – Eu sou, sou muito desprendido.

vitória – E hoje a força da sua evangelização são as suas obras ou você é fiel católico praticante?
Quaresma – O que me fez trabalhar com a arte sacra foi a minha fé. Eu tenho o ato piedoso de ir à missa diariamente há muitos anos, sou catequista na minha cidade e claro que o grande carro chefe são as obras. Eu encaro a minha vida como uma vocação.

vitória – Em algum momento você produziu peças que não eram sacras?
Quaresma – Não. Aconteceu no primeiro momento da escola mais por atividades dadas pelos professores, mas chegou uma etapa na escola que eu disse: a partir de agora só faço arte sacra e isso foi um divisor de águas. Desse dia em diante eu tinha certeza de que estava cumprindo a minha missão. Um episódio interessante foi que um dos meus amigos vendo esse despontar da minha produção artística sacra me convidou para construir uma capela particular. Aceitei e consegui negociar na faculdade que isso seria o meu trabalho final. Nesse tempo continuei produzindo peças. Na última exposição o atelier tinha uns 15 alunos e cada aluno tinha direito a expor uma peça produzida durante o semestre e nesse semestre eu tinha produzido 15. Com um certo jogo de cintura e talvez sabedoria, que deve ter vindo do céu, consegui falar com os professores e pedi se podiam me ajudar arrumando um espaço um pouquinho maior já que eu tinha mais peças e ainda argumentei que poderiam vir padres e essa poderia ser a minha oportunidade. Autorizaram que eu poderia ficar com uma parede, ou seja, metade da galeria ficou com as minhas peças.

vitória – A exposição deu algum impacto positivo na sua carreira?
Quaresma – Por incrível que pareça só um padre foi visitar a exposição quando já estava desmontando. Mas ele ainda viu alguma coisa e adquiriu uma dessas peças para a comunidade. Foi um dos primeiros crucifixos que eu fiz. Isso foi um dos incentivos, um incentivo financeiro também porque universitário é bem ruim das pernas.

vitória – Quando produz as peças fica preocupado com o que as pessoas irão pensar e sentir?
Quaresma – Quando estou produzindo uma peça eu não penso nas pessoas, não penso no que vão pensar ou deixar de pensar, será que vão receber bem, não vão receber bem será que vão criticar ou não, é claro que eu preciso ter essa preocupação, mas eu não tenho tanto. A minha maior preocupação é conseguir gerar uma intimidade com Deus que eu possa escutá-lo, fazer que ele consiga se manifestar.

vitória – Alguma vez você criou uma peça, fez uma experiência com ela e depois outra pessoa disse outra coisa que você não tinha imaginado?
Quaresma – Sim, isso acontece em alguns casos. O que acontece é que a arte sacra é sempre maior, ela nunca é inferior ao artista, ela sempre tem mais significados que aquilo que o artista pensou. Mas o que mais gera o sentimento de missão cumprida é ver pessoas simples que têm contato com uma obra que não tem um caráter tão naturalista, tem um caráter subjetivo se identificarem e conseguirem reconhecer naquela peça uma manifestação divina.

vitória – A arte fala para qualquer pessoa com qualquer nível de cultura ou de conhecimento?
Quaresma – A arte é a linguagem universal, não importa idioma, não importa a raça, a cor, ela fala para qualquer público

vitória – Nós vivemos numa sociedade extremamente visual, você acha que a Igreja se comunica bem com a arte?
Quaresma – A religião, tudo que nós temos de arte, na história da humanidade foi de certa forma impulsionado pela religião, seja ela qual for. A nossa Igreja perdeu muito da essência da verdadeira imagem, da pureza da imagem, dessa imagem que de fato representa o outro. Hoje eu percebo que o meio secular pagão se apropriou tanto desse poder da imagem que utiliza de forma mais “feliz” entre aspas que a Igreja. Sei que existe um movimento de retomada para que as obras retomem esse poder de gerar comunicação nas pessoas.

vitória – Você tem um conselho para a Igreja, como valorizar a comunicação pela imagem?
Quaresma – O conselho é trabalhar em cima de uma sabedoria que a Igreja tem, só que isso está meio que velado. Nós temos 20 séculos de sabedoria, nós temos 20 séculos de produção artística, é só procurar ver aquilo que já foi feito, o espírito que gerou essas imagens, esses vários estilos artísticos ao longo dos séculos e retomar esse trabalho e esse incentivo para com os artistas, esse incentivo cultural, palestras, encontros para gerar também um senso crítico naquilo que é produzido. É preciso investir mais em produção, em artistas, em pastorais artísticas. Trabalhar dentro dela, toda a sabedoria que já tem, toda a tradição milenar, pegar aquilo de bom e fazer apenas uma adaptação, uma atualização. A Igreja precisa acreditar nisso, a partir do momento que ela conseguir fomentar essa educação no seu interior ela vai retomar essa sabedoria artística que ela sempre teve.

vitória – As suas obras já chegaram a Portugal e Inglaterra. E no Brasil por onde estão suas obras?
Quaresma – No Brasil tenho mais na região de Minas Gerais, tenho cerca de 70 projetos em execução e em torno de 10 a 15 obras, tenho o projeto aqui em Vitória, São Paulo, em Manaus e Rio Grande do Sul. Tenho alguns trabalhos com bispos (insígnias episcopais).

vitória – Como você achou a paróquia São Pedro da Praia do Suá ou como é que a paróquia São Pedro o achou?
Quaresma – Na verdade, se não me engano, foi uma indicação de Dom Geraldo. Logo depois o padre Dauri entrou em contato comigo, provavelmente ele deve ter passado no blog e visto algumas obras e estamos aí tentando escutar o que Deus fala.

Os mesmos sentimentos de Cristo

Maria da Luz Fernandes

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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