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A Amazônia é tratada como colônia do Brasil

O polêmico decreto presidencial que poderá extinguir a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), uma área de 4,6 milhões de hectares na floresta Amazônica, foi criticado pela sociedade e pela Igreja, que se posicionou oficialmente contra o documento. Em entrevista concedida à Revista Vitória, Dom Flávio Giovenale, bispo da Diocese de Santarém, no estado do Pará, fala sobre a repercussão do decreto, assinado no dia 22 de agosto, e faz uma análise das consequências que ele pode trazer para as populações indígenas e para a natureza.

vitória – Como o senhor recebeu a notícia do Decreto Presidencial que poderá extinguir a Reserva Nacional do Cobre e minerais Associados (Renca)?
Dom Flávio – Para nós foi surpresa. Nada foi anunciado antes sobre a Renca. Outra coisa é a amplitude da área, porque a Renca, na prática é uma reserva de cobre e minerais associados. Temos duas reservas indígenas e três de minerais, então é um conjunto muito grande, com uma extensão do tamanho do estado do Espírito Santo e tudo seria colocado à disposição de empresas mineradoras. A primeira estranheza que nós tivemos foi a pressa com que foi anunciado. Só depois é que vimos que já tinham estudos, desde novembro do ano passado, quando foi divulgado pela imprensa que as grandes mineradoras já sabiam do processo e que provavelmente teria a liberação desta área. Mas nós fomos pegos de surpresa mesmo.

vitória – Por que tanto interesse do governo e das empresas na Amazônia e mais especificamente nesta reserva?
Dom Flávio – Porque a Renca, além do cobre, tem muito ouro e outros minerais. A Amazônia é muito rica em metais preciosos raros, como Urânio e também o Nóbio, encontrados mais do lado do estado do Amazonas. Então, são minerais estratégicos para o mundo todo. O interesse é porque é uma riqueza, na prática, incalculável. São reservas mineiras de bilhões e bilhões. Claramente que, tanto o governo como as grandes mineradoras, estão de olho nesta busca. O fato de já ter um bocado de exploração ilegal, através dos garimpeiros, é a justificativa que o governo dá dizendo: nós vamos entrar legalmente, fazendo as coisas todas bonitinhas e vamos tirar os ilegais. Mas a história demonstra que não é bem assim. Normalmente, junto com as empresas legais, que depois faturam muito mais do que o previsto, continuará a pesquisa ilegal e ainda os desastres, especialmente para as populações indígenas.

vitória – A Igreja se posicionou contra o decreto. Qual a certeza para se posicionar contra com tanta firmeza?
Dom Flávio – A primeira preocupação é com as populações. São duas reservas indígenas dentro desta área. O governo garante que não vai autorizar a pesquisa mineral, a exploração mineral dentro dessas áreas indígenas, porém, repito, a história mostra que é bem ao contrário, porque há um certo aumento quando se tem a possibilidade de avançar. O freio para ganância humana não existe mais. Então, nós estamos preocupados. A Igreja se posicionou muito fortemente também porque o Papa Francisco fala da ecologia integral, quer dizer, não é só a fauna e a flora, mas é também a população que ali mora. A defesa da Amazônia parte da constatação da certeza de que aqui temos 17 milhões de pessoas vivendo na Amazônia legal brasileira, sem contar a Pan-Amazônia somos 17 milhões. Temos direito a viver e direito a viver com dignidade.

vitória – Aos olhos do senhor, o que representa a Amazônia para o Brasil?
Dom Flávio – Na época colonial, Portugal tinha duas grandes colônias, naquilo que agora chamamos o Brasil. Tínhamos o Grão-Pará, que inicialmente foi chamado Maranhão e tinha a Terra de Santa Cruz depois chamada de Brasil. Quem declarou a independência em 1822 foi o Brasil. O Grão-Pará continuou por quase um ano unido a Portugal e só em 15 de agosto de 1823, portanto o ano seguinte, é que teve a declaração da independência, anexa da Amazônia, a parte do Grão-Pará ao Brasil. E ali continuou a mesma coisa, me parece, que se substituiu o colonizador. O Brasil viu a Amazônia, como uma terra, como um grande depósito, um grande estoque de riquezas minerais, agrícolas e de madeira pronto para ser aproveitado. É como se fosse um depósito enorme que é pra vir pegar e levar. A Amazônia não é tratada como Brasil de verdade, é tratada como colônia do Brasil. Isto é a situação chata que eu vejo, que as políticas, as intervenções para Amazônia só são definidas, na maioria das vezes, por pessoas que não entendem da Amazônia, podem entender de outros biomas, podem entender de outras partes do Brasil, mas não conhecem a Amazônia e a tratam, portanto, com mentalidade e conhecimentos, inclusive biológicos e antropológicos, que não se podem aplicar automaticamente à Amazônia. Nem sempre aquilo que funciona numa outra parte do Brasil, funciona na Amazônia. Nós quase não temos estradas, são só rios, não se calculam as distâncias por quilômetros, mas por horas ou dias de navegação, por exemplo, começando daí. A maioria da população da Amazônia já mora nas grandes cidades, nos centros urbanos, não é mais como se pinta normalmente, índios pelados andando pelas ruas, nem de Manaus, nem de Belém, nem de Santarém, nem de outras cidades. Então, ainda tem muitos mitos, muitos medos e muita falta de conhecimento. Agora, é uma terra riquíssima em minerais e em recursos naturais, e também, não é só a madeira, não é só o espaço para criar gado, mas temos o maior aquífero de água potável do mundo, que também é uma das riquezas que está começando a ser cobiçada, não só pela cobiça brasileira, mas internacional.

vitória – Como o senhor percebeu a reação dos nativos diante deste decreto?
Dom Flávio – Os nativos diretamente interessados naquelas duas reservas não se manifestaram porque, provavelmente, nem souberam do decreto, do que estava sendo feito. São tribos muito isoladas, enormemente distantes. Para alcançá-las, indo de Santarém, porque uma parte pertence à Diocese de Santarém, eu tenho que fazer 18 horas de barco até Almeirim e depois dali subir outras 12, 15 horas de barco até a região deles. Ou indo do Amapá, também as distâncias são na base de quase um dia de viagem. É extremamente difícil contato com eles, com essas tribos indígenas, que são extremamente isoladas. Eles não reagiram, quem reagiu foram as outras organizações indígenas de outras partes do Brasil que se mobilizaram para que o processo de demarcação de terras pudesse ser reiniciado e garantido mesmo.

Andressa Mian

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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