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Viva São João

Desejo a todos um dia e uma noite cheios de alegria e paz. Curtam com suas famílias e seus amigos com simplicidade e respeito, para que essa alegria se estenda para todos os dias de suas vidas. É bom o povo fazer festa, dançar e celebrar a vida. Coitado do povo que se deixa arrastar por ritmos frenéticos e não sabe parar para festejar.

Mas é bom lembrar que o São João tão celebrado é o Batista, o profeta austero que vivia no deserto, vestia pele de camelo e comia gafanhotos. Ao preparar a iminente chegada do Messias, pregou “o batismo de arrependimento para a remissão dos pecados”. À multidão que lhe perguntava o que precisava fazer para mudar de vida, ele propôs a partilha dos bens para ninguém passar necessidade: “Quem tem duas túnicas dê uma a quem não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo”.

Dos publicanos, responsáveis para a coleta dos impostos, exigiu honestidade: “Não exijam mais do que vos foi ordenado”. E aos soldados que agiam a mando dos tiranos, pediu o fim da violência e da corrupção: “Não pratiqueis violência nem defraudeis a ninguém, e contentai-vos com o vosso soldo” (Mt 3).

Estes apelos à partilha dos bens, à honestidade e à construção de uma cultura de paz que promova o cuidado com a vida são de extrema urgência para o nosso País. Em sua missão profética, São João não teve medo de denunciar o rei Herodes e todas suas mazelas. Para calar seu grito profético contra as injustiças e por um mundo melhor, foi trancado numa cela nos porões do Palácio e chegou a ser decapitado.

Mas ninguém consegue calar a voz dos profetas. Os tiranos e seus seguidores podem prender os corpos dos profetas, submetê-los a longos e extenuantes processos difamatórios e matá-los, mas suas idéias, sobretudo quando inspiradas pelo Espírito do Deus de Jesus Cristo correm soltas de geração em geração sem que ninguém consiga acabar com seu intrínseco poder de incomodar e transformar.

A festa é desse São João. Portanto é com esse espírito profético que deve ser celebrada. Assim deve ser com todas as outras festas populares. Libertemos as nossas festas do risco de se tornarem somente momentos de evasão coletiva, patrocinados pelos poderosos com a finalidade de dopar e alienar o povo.

Devolvemos às festas populares seu valor celebrativo, comemorando a vida; colorindo nossos dias cinzentos trazendo à tona em nossos enfeites as cores da natureza cada vez mais devastada; encantando-nos com as abundantes colheitas proporcionadas pelas copiosas chuvas; sentindo o gosto da comida caseira e não da industrializada; partilhando o milho ingrediente principal de tantas receitas que a criatividade do povo e não das multinacionais foi capaz de elaborar; vencendo o medo e saindo das casas para se juntarem com os vizinhos ao redor da fogueira; balançando e entrelaçando os corpos ao ritmo de som e danças que inspiram alegria e não baixaria e, enfim, agradecendo o Criador por tudo aquilo que nos oferece.

Que a festa de São João seja celebração da vida genuína, sinal da resistência do povo que ainda continua experto e organizado, impulso para continuar a luta e, sobretudo, sinal firme e forte da grande festa que celebraremos juntos o dia em que o mundo melhor se tornará realidade. (

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