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Vitória, por quê?

Estamos nos primeiros anos da colonização do solo espírito-santense que a história oficial marcou início em dia 23 de maio de 1535. Duarte de Lemos, fidalgo português, tendo recebido em sesmaria a ilha de Santo Antônio, em 1536, doada pelo Donatário da Capitania do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho, iniciou ali uma povoação que, já em 1550, era chamada de vila, conforme documentação real, tendo a data de sua fundação comumente aceita fixada em 1551.

Nesse mesmo ano, o Donatário e Duarte de Lemos entraram em desacordo sobre os limites da doação. Coutinho afirmava que havia doado ao correspondente da fazenda de Duarte de Lemos, nas proximidades da capela de Santa Luzia. Lemos por sua vez, escreveu ao rei fazendo intrigas a respeito de supostas ideias separatistas de Coutinho. Se o rei acreditou na versão contada, não se sabe. O fato é que Lemos foi parar em Porto Seguro como capitão-mor, quando seu donatário Pero do Campo Coutinho já não estava mais ali, e a ilha chegou a ter seu nome, ao que um dia os indígenas também chamaram de “Guananira”, isto é, Ilha do Mel.

Continuando as reações dos indígenas à presença dos colonizados na Vila do Espírito Santo, sediada na atual Prainha, decide o Donatário se transferir para a Ilha de Santo Antônio que se encontrava abandonada com a partida de Lemos. A ilha ocupada passou a se chamar Vila Nova em relação à Vila do Espírito Santo que foi renomeada de Vila Velha.

Convencido de que ali teria mais segurança, provendo mais condições de defesa, ainda assim no dia 8 de setembro de 1551, Vila Nova é atacada pelos Goitacazes. Após combate renhido, os indígenas foram vencidos e a ilha foi chamada de Vila de Vitória ou Vila de Nossa Senhora da Vitória, conforme consta em documentos, inclusive do diário de viagem de Saint-Hilaire (1779-1853), e, por corruptela, se abreviou unicamente à palavra Vitória. Dom João Batista Corrêa Néri (1863-1920), primeiro Bispo da Diocese do Espírito Santo, também registrou esse episódio, por ocasião de uma visita pastoral e evidenciou a relação dos fatos: “Em agradecimento por este singular benefício dão a nascente localidade o nome de Victória, e sobre o altar colocam um painel de N. Senhora da Victória, nome que foi confirmado por decreto de 2 de março de 1822 e 18 de março de 1823 quando foi elevada a cidade”.

Encontramos em alguns autores relacionando ao título mariano de “Nossa Senhora da Vitória” o episódio da vitória dos colonizadores sobre os indígenas que atacaram à ilha de Vila Nova, no dia 8 de setembro de 1551. O dia em si, isto é, 8 de setembro, é a celebração litúrgica do nascimento de Maria, Mãe de Jesus, e a ele são associadas comemorações de diferentes títulos marianos tais como: da Natividade, da Pena, Menina, do Monte Serrat, dos Remédios, entre outros, por várias partes do mundo.

O único lugar em que se festeja o título de Nossa Senhora da Vitória no dia 8 de setembro é em Vitória do Espírito Santo, pois, via de regra, a comemoração de Nossa Senhora da Vitória está vinculado ao dia 15 de agosto, causando um pouco de estranheza.
Segundo, porém, a historiadora Nilza Botelho Megale, o título de Nossa Senhora da Vitória já era conhecido desde a época do rei João I de Portugal (1357-1433) quando o soberano obteve sucesso em Aljubatorra contra o exército de João I de Castela, no fim da tarde de 14 de agosto de 1385, portanto, vésperas do dia 15 de agosto, largamente difuso como dia reservado para diversas e tradicionais comemorações à Mãe do Senhor (a celebração da solenidade da Assunção de Maria só foi regulamentada após a proclamação do mesmo dogma, em 1º de novembro de 1950, pelo papa Pio XII).

A festa de Nossa Senhora da Vitória está ligada, mais recentemente, às confrarias do Rosário que começaram a ser fundadas na segunda metade do século XV. O papa Pio V, dominicano, atribuindo especialmente à eficácia da oração do Rosário a vitória obtida na Batalha de Lepanto, no dia 7 de outubro de 1571, encabeçada pela República de Veneza contra os otomanos, desejou comemorar seu aniversário com uma festa a Nossa Senhora da Vitória. Os papas incrementaram essa festa especialmente Clemente XI que após a vitória sobre os turcos em Peterwardein pelo príncipe Eugenio de Savoia, do Sacro Império Romano-germânico, em 5 de agosto de 1716, estendeu a celebração à toda cristandade.

Para além de todos esses precedentes e da historiografia recente, não se conhece nenhum documento da época ou próximo à época que evidencie a relação entre o título de Nossa Senhora da Vitória e a batalha de 8 de setembro, o que põe uma suspeita ainda não depurada. É fato, porém, que a relação é a explicação mais simples e com muito sentido, ainda que as datas em nada se coincidam.

Pe. Renato Paganini
Mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma.

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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