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Vale a pena ser honesto

O jornal A Tribuna do dia 01 de outubro de 2017 traz como manchete principal de capa este título, revelado por uma pesquisa feita na Grande Vitória, na qual 95,59% das pessoas entrevistadas não apenas afirmam a importância da honestidade, mas também que ser honesto vale a pena, mesmo neste cenário de tanta corrupção na vida política.

Contudo, mais da metade dos entrevistados reconhecem ter cometido algum ato que não se coaduna com a honestidade, apesar de 82,37% dos entrevistados se considerarem honestos. Ou seja, admite-se a sua importância, mas reconhece-se que também se pratica atos que afetam este valor ético, tão necessário para os dias atuais.

As respostas acabam mostrando um grau de contradição entre reconhecimento do valor da honestidade, do próprio caráter de ser honesto, e a prática com atos que ferem este valor.
Ao ser entrevistado por este mesmo jornal, fiz algumas considerações que apresento neste artigo.

A honestidade é um valor intrínseco ao caráter de uma pessoa e se refere à dimensão da probidade, do ser verdadeiro, ou do falar a verdade. É um valor fundamental para a vida política e a convivência social. Ninguém gosta de estar perto de alguém mentiroso, enganador, falso.

Nenhuma relação social e profissional se sustenta sem honestidade. Tanto o chefe deve ser honesto, quanto o empregado. A honestidade dá segurança nos negócios e na vida.
Contudo, os tempos atuais estão sendo chamados de tempos da “pós-verdade”. Eleições são decididas com mentiras e engôdos. Parece que as redes sociais acabaram fortalecendo a prática da não verdade, ou seja, da desonestidade.

É muito comum que as pessoas no facebook curtam ou compartilhem notícias falsas, ampliando ainda mais o horizonte da mentira e fortalecendo os interesses que subjazem por trás da notícia falsa.

Para a vida política em tempos de eleição, muitos candidatos se utilizam deste artifício e criam inclusive personagens tipos robôs. Ninguém nasce honesto ou desonesto. A pessoa precisa ser formada honestamente. Então o primeiro lugar onde se aprende a ser honesto é na família. Se neste lugar o pai engana a mãe, o filho mente para os pais, com toda certeza as pessoas não serão formadas para o valor da honestidade.

Na escola, a honestidade tem lugar especial. Por isso, a famosa “cola” é vista negativamente. É uma fraude, uma enganação. Os professores jamais deveriam tolerar a fraude, a cola. Mas no meio político predomina a dissimulação e até a mentira descarada.
Tem jovem que falsifica até sua autodeclaração racial para fraudar as provas de seleção para ingresso nos cursos superiores. Isso é improbidade acadêmica, pura desonestidade.

Vivemos numa sociedade em que pouco se faz para a educação de valores como a honestidade. Fica parecendo que o honesto é um “trouxa”, como se diz no cotidiano.
Em minha percepção, os tempos atuais não estão propícios para o desenvolvimento de uma sociedade honesta.

Os exemplos vindos das esferas superiores da sociedade política não é motivo de alegria. O mau exemplo vem de cima. Portanto, as instituições como Igreja, escola e Estado, no passado, desempenhavam um papel formativo muito mais eficaz que nos dias atuais. Estamos em crise de valores como da honestidade, em todos os ambientes.

Até nas igrejas cresce a desonestidade. A transparência é irmã siamesa da honestidade. Tanto na vida pública, como na vida social e eclesial a transparência fortalece os laços do caráter da honestidade. É preciso acertar isso, senão entramos num caos nas relações. Há que se ter transparência nos negócios, e por este motivo as empresas são obrigadas a publicarem seus balancetes.

É péssimo quando uma empresa busca ludibriar o fisco para não pagar imposto de renda. Os órgãos de controle como Tribunal de Contas, Controladoria Geral, Ministério Público e Polícia Federal veem seu trabalho de fiscalização cada vez mais intensificado.

A transparência também é exigida nas igrejas e comunidades. A publicação dos balancetes resultantes dos dízimos e ofertas deveria ser objeto primordial na conduta dos dirigentes eclesiais. Das igrejas e comunidade não apenas se exige a prática da honestidade, mas também projetos de formação de cada comunidade nesta via do caráter.

Todo mundo se acha honesto, mas muitos tentam enganar a Receita Federal na hora de declarar imposto de renda; nos negócios não emitindo nota fiscal. Veja, por exemplo, os profissionais liberais que cobram um determinado valor maior, caso a pessoa exija recibo. É triste ver advogados e médicos fazendo isso. Mas todos se dizem pessoas honestas. E batem no peito exaltando seu valor de honestidade em todos os círculos sociais. E vão para as ruas combatendo a corrupção. Esta é a forma mais cruel da desonestidade.

E aqui chegamos a necessidade de se constituir uma cultura da honestidade. E isso demanda muito tempo e trabalho. O nosso processo de colonização teve um papel forte na formação a cultura de desonestidade e do famoso “jeitinho brasileiro”.

Os poderosos portugueses que para cá aportaram começaram a enganar primeiramente as populações indígenas com a oferta de presentes. Na verdade, não eram presentes, eram armadilhas para a escravização. Depois os negros vieram nesta mesma condição. E eles também acabaram reagindo praticando formas de enganar os donos das minas de ouro. Quem não conhece os famosos “santos de pau oco”? Era a forma de contrabando do ouro.

O jeitinho brasileiro de levar vantagem decorre deste processo de colonização. E isso tem crescido. Quem não conhece a prática de cartórios em que se diminui o prazo para a entrega de documento se houver uma compensação financeira para o funcionário? A demora na confecção de documentos e a burocracia são fatores geradores do jeitinho brasileiro.

Nos dias atuais, a explosão das situações de corruptores e corrompidos deveria nortear um conjunto de ações na sociedade, na escola, nas igrejas, em vista de se constituir uma cultura oposta ao que é mostrado todos os dias nas mídias. O pior cenário é aquele em que alguém se justifica dizendo que “ninguém é honesto, ninguém pratica”. E desenvolve mecanismos de caráter de tentar ludibriar os outros nas mais diversas situações.

Nem todos os políticos são desonestos, contudo o número dos corruptos tem crescido muito nos tempos atuais. A própria legislação criada por eles mesmos facilita esta engrenagem de corrupção. Há uma autodefesa e autojulgamento. Ninguém fica punido. Vivemos sim uma profunda crise ética que reflete no crescimento da desonestidade, da improbidade, da mentira, da falcatrua.

Começa no momento das campanhas eleitorais. É difícil encontrar algum candidato que não fez uso do caixa dois, ou seja, de valores não declarados ao TSE. Em razão disso, a pesquisa citada revelou que, para os entrevistados, 95,7% dos políticos são corruptos.

Os políticos estão desacreditados e são eles que governam o país. Alguns partidos estão buscando candidatos de outros meios, mas com os mesmos vícios dos políticos tradicionais. O próximo ano teremos eleições e fica a questão para a sociedade. Em tempos eleitorais todos os candidatos são “santos”, “imaculados”, e somente depois é que se descobrem as falcatruas.

Que mecanismo a sociedade tem para impedir que estes “santos” saiam vencedores nos pleitos eleitorais? Estamos muito acostumados a ver os políticos que estão em Brasília. Deveríamos olhar para aqueles que estão pertinho de nós, nas câmaras municipais, nas prefeituras e nos governos e Assembleias Legislativas.

Os textos bíblicos que condenam a falta de caráter como a desonestidade são muito presentes. E logo no Decálogo encontramos o mandamento “Não Furtarás”. A corrupção é furto, assim como uma eleição ganha com caixa 2, ou seja, com dinheiro não declarado legalmente.
A desonestidade ou falta de transparência atentam contra este mandamento.

Este fica associado ao Provérbio que diz “Suave é ao homem o pão ganho por fraude, mas, depois, a sua boca se encherá de pedrinhas de areia” (Prov 20, 17), e em outra citação “Pesos fraudulentos são abomináveis ao Senhor” (Prov 20, 23).

Neste mar de tantas falcatruas em que o Brasil está navegando, as pedrinhas de areia parecem não cair na boca de todos aqueles que ganharam o pão por fraude. A justiça que deveria aplicar esta penalidade, muitas vezes segue o ritmo das forças políticas e não imputa correção de conduta aos fraudadores dos cofres públicos, e aos pleitos eleitorais ganhos de forma desonesta.

Resta o maior valor que se expressa nesta pesquisa: o nosso povo ainda acredita que ser honesto vale a pena. A crença é um grande bem, e esperança para a construção de uma sociedade transparente, ética, e justa. Escola e Igrejas deveriam estabelecer um grande projeto de formação moral e ética para a sociedade brasileira. Esta é a sua grande missão para os dias atuais.

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