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 Uma Sociedade desafinada?

Muitas vezes fico pensando sobre a nossa sociedade e suas contradições. Percebo grandes avanços em determinados setores seja no mundo da saúde, no mundo da justiça ou da comunicação. Porém, ao mesmo tempo, percebo a existência de uma profunda crise de valores que me deixam preocupado. Entre os valores chamam-me a atenção a falta de respeito à vida humana ou até mesmo à vida vegetal. Até a importância que se dá à vida é estranha, pois parece-me que esta é menos valorizada do que a vida vegetal. Mas, torna-se mais aguda a insensibilidade e falta de hierarquia de valores que pessoas, com certo grau de formação intelectual, revelam em suas atitudes no trato com o ser humano.

Conto-lhe um fato verídico, acontecido em algum lugar deste planeta, a título de confirmação do que acabo de afirmar.

Era uma vez uma família de classe média alta. A senhora, muito atarefada no exercício de sua profissão liberal, contratou uma empregada doméstica para prestar-lhe os serviços essenciais no governo de sua casa, como cozinheira, faxineira etc. Esta empregada doméstica, Maria Das Dores, morava longe da residência da patroa. Vivia com sua família numa casa situada na periferia da grande cidade. Levantava-se bem cedo, pelas quatro horas da manhã. Caminhava até o ponto e depois de duas baldeações em ônibus desconfortáveis e superlotados de passageiros, no calor intenso ou em tempo chuvoso, entre solavancos e freadas bruscas, conseguia chegar ao local de trabalho, onde, com seu precioso serviço, dava condições à patroa para exercer sua profissão liberal, tão necessária e importante para o bem comum da sociedade.

A empregada doméstica, “Dorinha”, trabalhava o dia inteiro. A volta para a sua residência era outra longa viagem cansativa e desgastante. Peregrina e, cochilando, nos mesmos ônibus superlotados, suportando muitas vezes brigas, mau cheiro, músicas barulhentas dos vizinhos de viagem, e, orando para não ocorrer algum assalto, conseguia chegar à  sua residência, pelas vinte horas.

Um novo precioso serviço a esperava. Deveria preparar o jantar para a família, cujo marido era, também, operário, e, passava todos os dias, pelos mesmos desgastes provocados pelo deficiente transporte urbano. Jantar e limpeza da casa, além de prever a manhã seguinte para o alimento da família. Vai descansar depois das vinte duas ou 23 horas para o justo sono, e, poder novamente reiniciar o dia seguinte pelas quatro horas da manhã.

É a dura realidade de muitas mulheres e homens, pais de família que lutam, dia e noite, para sobreviverem. Dura realidade da vida de tanta gente.

Mas, a história não termina aqui. Sucedeu que a senhora de profissão liberal viu – se obrigada a viajar para outra cidade industrial, capital de um dos estados da nação. Aproveitou desta oportunidade para tirar suas merecidas férias. Porém, apareceu-lhe uma grande dificuldade: o  seu lindo cachorrinho. Ela não podia deixar o cão de estimação sozinho e sem os cuidados necessários. E não podia levá-lo consigo. Como resolver problema? Ela, sequer duvidou de sua decisão diante do problema. Confiava em sua empregada, a Maria das Dores, ou, “Dorinha”! Sem duvidar, pediu-lhe que cuidasse do seu lindo cachorrinho. Para levá-lo à residência provisória simplesmente contratou um motorista de taxi para transportar o cachorrinho até a casa da sua empregada doméstica até o final de suas férias, quando contratou novamente um motorista de taxi para reconduzir o lindo cachorrinho para sua residência.

O marido de Dorinha ao tomar conhecimento de que cachorrinho que veio de taxi para a sua casa e agora estava sendo reconduzido para a casa da patroa de sua esposa sorriu e comentou com ela: “ô mulher, este cachorrinho tem mais sorte do que você. Ele vai de taxi e com ar bem fresquinho. E você? Vai a pé e mais dois ônibus… E que ônibus?!…uma gargalhada…um olhar triste…”

“Das Dores” ou “Dorinha”, todos os dias, para chegar ao lugar de trabalho, à residência da profissional liberal que a havia contratado, levava, pelo menos, duas horas através dos já referidos meios de transporte ou condução urbana da grande cidade. Nunca lhe fora oferecido um taxi ou algo mais humano para que pudesse servir bem a patroa e depois poder chegar à sua casa, que deixara pela madrugada e atender a sofrida família depois das vinte horas longe dela.

Fatos como esse são comuns atualmente. Pergunto-me: não estaria faltando à nossa sociedade uma hierarquia de valores que a ajudasse a priorizar a pessoa humana e considerá-la com maior respeito do que com as plantas e animais domésticos? Cada valor no seu lugar. O centro de toda a criação é a pessoa humana. Quando se perde a ordem dos valores corre-se o risco de quebrar a harmonia que deve existir entre as criaturas conforme o projeto de Deus Criador. A beleza divina reflete-se na criação, em sua unidade multicolor e pluralidade existencial, onde cada ser tem o seu lugar, o seu valor, compondo como que um belo hino àquele que lhe deu origem e sentido de ser. A pessoa humana ocupando o lugar central do universo não pode ser rebaixada ou nivelada aos demais seres que com ela, nas diferenças específicas, revelam o Belo de onde surgiram.

Uma sociedade sem a hierarquia de valores é uma sociedade desafinada e infeliz na orquestra da criação!

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