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Sofremos de projetos

              

Há um tempo venho pensando que andamos sofrendo de projetos. Sim, como se fossemos portadores de certa síndrome. Ter esse sofrimento, é claro, é consequência de sermos os filhos atuais do tempo. Ou seja, à maneira que somos constituídos pela nossa época, dentre outras características, gostamos de propor e elaborar projetos. Muitos. É quase uma obsessão.

Sofremos disso desde a simples e estimulada elaboração de metas pessoais para um próximo ano até os mais sofisticados projetos dos governos e de outras instituições. Bom é o projeto, viver o projeto, o “olhar à frente”, o lançar-se. O envolvimento com um projeto nos dá uma espécie de garantia de futuro e nos oferece uma sensação de sentido, de norte a nos guiar. E além do mais encantar-se com seu desenho, envolver-se em sua elaboração cataliza boas energias, a energia da vida, seu poder criativo, sua força de transformação, o que nos dá a sensação de vivacidade. E no que diz respeito às instituições elas precisam se renovar frente aos olhos dos seus “clientes” pelos muitos e sempre novos projetos de modo a se mostrarem sempre atualizadas e merecedoras de crédito.

Lendo aqui e lendo ali me deparei dia desses exatamente como uma elaboração sobre essa obsessão num livro de Peter Pal Belpart (um dos autores que li para a elaboração da minha dissertação de mestrado em que procurei entender a importância dos dispositivos eletrônicos, e especialmente a internet, na constituição das subjetividades nos tempos atuais). Este texto, portanto, vem dessa convergência e diálogo entre minhas percepções e pensamentos e a elaboração do autor; e não quer senão ser a expressão de um incômodo com essa obsessão por projetos. Projeto disso, projeto daquilo, projeto para, projeto sobre, etc., ai meu Deus!

O capitalismo no seu estágio atual que molda e define os jeitos de ser e viver no mundo globalizado é um capitalismo difuso, sem quartel general, e que se articula em rede. E neste mundo assim estruturado e a todo o momento reestruturado o que importa são os projetos mais do que atividades. Os projetos mantêm a rede, precisam dela. Eles ganham extraordinária importância, seus mentores são “gurus” idolatrados (o que muitas vezes provoca a constelação nas pessoas de seu complexo de “vira-lata”. O complexo de “vira-lata”, resumidamente, consiste na negação dos próprios valores, qualidades, experiências e habilidades e na supervalorização das competências dos propositores e assessores do projeto). O engendramento dos projetos recebe apoios e investimentos fartos, sua elaboração é alardeada e sua visibilidade é componente fundamental. Todo esse aparato, no entanto, deverá logo mais ceder lugar – o que já é sabido – a outros projetos.

Pensar na vida que circulará no projeto? Ah, isso deixa pra depois. Pensar na vida como razão daquele projeto? Ah, não, depois faremos outro projeto para isso. Nesta perspectiva a vida como fonte inesgotável de possibilidades é colocada em segundo lugar, como capital a ser explorado em todas as suas possibilidades até a exaustão, a vida, é claro, é colocada em primeiríssimo lugar. Mal comparando diria que é como uma rica mina situada num jardim, onde o que importa é o valor que o jardim comporta, e não o que ele é.

Mas o que é um projeto? No capitalismo e no seu mundo globalizado o projeto sempre é um dispositivo transitório e a vida passa a ser tão somente um campo onde ele se ergue formoso e exuberante. Depois, é claro, aquela vida tocada, mobilizada, explorada ficará para trás como um jardim abandonado, sem olhares atenciosos, que já se vão cativos de outros projetos.

É claro que a elaboração, apresentação e execução de projetos ganha um glamour sedutor. E sempre mais importa a preparação do que os resultados. O projeto gera desejos e propõe sua realização. É a execução festiva do projeto que mais importa e não sua eficácia de fato sobre a realidade a que se propõe atuar. Essa fase mobiliza o capital, impulsiona o mercado. Importa vender a ideia, mobilizar as pessoas – e quanto mais melhor – e gerar lucros, vantagens (para quem?). Mas elas, as pessoas, inexoravelmente serão enquadradas nas suas devidas categorias de temporárias, substituíveis. Outros projetos virão depois, outros executores, e o que importa? O mundo é assim mesmo – surgem as justificativas – qual o problema?

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