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Sexta-feira Santa: dois reinos a confronto

 

O diálogo entre Pilatos e Jesus, assim como é relatado pelo evangelista João, coloca a confronto dois reinos.

O reino de Pilatos usa e abusa da força; pisoteia os direitos fundamentais; criminaliza e manda matar quem ousa questioná-lo; manuseia o dinheiro público como se fosse “seu”; prioriza os interesses pessoais e/ou “partidários” em detrimento do bem comum; pisca o olho para os poderosos e destina as migalhas para os pobres; faz propaganda enganosa; encara com arrogância qualquer crítica; gosta de sentar à corte dos bajuladores; coopta seus colaboradores através de cargos e salários; emudece o dissenso chantageando seus funcionários, sobretudo aqueles vinculados com contratos precários; seduz e engana seus apoiadores com promessas e esmolas que ousa chamar de benefícios.

O Reino de Jesus tira o colarinho branco e veste o avental; ajoelha-se aos pés das pessoas para colocar-se a serviço de seus direitos; trata o dinheiro público com responsabilidade; prioriza as demandas dos mais pobres; promove políticas públicas emancipadoras; implanta sistemas econômicos que garantam o acesso universal aos bens da terra; não cede à tentação da violência, mas opta pelas práticas restaurativas; não tem medo da verdade; deixa-se questionar e tem coragem de cortar na própria carne quando se deixa contaminar pela gangrena da corrupção.

Esse confronto não pode ser negado ou, ainda uma vez, espiritualizado. A tentação é sempre aquela de despachar o Reino de Jesus para o espaço sideral, até usando de maneira distorcida as suas palavras. Em nenhum momento Jesus diz que seu Reino não é deste mundo. No texto grego, conforme dizem os exegetas Jesus diz que seu Reino não vem deste mundo, mas é nesse mundo que desde já deve acontecer. Não se trata de implantar um poder de matiz religiosa, mas um projeto de mundo inspirado nos valores da justiça, de serviço, da paz, da solidariedade, da partilha e do cuidado com a vida em todas suas manifestações.

Espero que nesta sexta-feira santa, as multidões que irão atrás de Jesus sejam as mesmas que irão se comprometer para que seu Reino de justiça e paz já comece a valer nesse mundo.

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