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Religião e política: riscos nas alianças e apoios

Em recente encontro do Pastor Silas Malafaia com políticos na capital paulista, uma situação mencionada deve ser objeto de reflexão a respeito das relações entre religião e política. Ele foi claro ao dizer que não se trata de colocar um crente na Presidência do Brasil, mas alguém que defenda os “nossos” valores. E vai mais além em sua compreensão desta relação: católicos e evangélicos são, juntos, a maioria da população brasileira (80%). E assim, continua, quem quiser defender a tal “ideologia de gênero” e outras coisas que se constituem como “uma das maiores engenharias do diabo para destruir a família”, já sabe que perderá a eleição diante desta quantidade de cristãos reunidos. “Vamos nos fazer prevalecer e isso é inegociável”.

Na avaliação do Pastor, a percentagem acima é expressão do apoio às pautas de ordem moral, que uniria politicamente a nação brasileira. E naquele momento em São Paulo, um candidato à presidência do Brasil já ensaiava um “glória a Deus”, sinalizando aderência a esta pauta obtendo assim o aval para a vitória nas eleições. E logo foi aconselhado a abandonar o partido em que estava filiado. E ali mesmo recebeu o apoio do Pastor.

Seria muita ingenuidade nossa achar que esse Pastor estaria blefando ao apontar a união de 80% de cristãos evangélicos e católicos em defesa política de uma pauta moral. Ele sabe muito bem onde pisa; em qual terreno semeia suas ideias e ações políticas. Ingênuo é o católico que adota a pauta conservadora para pautar seu apoio a candidaturas achando que isso representa distância política do segmento fundamentalista evangélico. Como estamos a caminho de novas eleições no Brasil, precisamos refletir muito bem a respeito do caminho a seguir. Algumas ideias podem ser mostradas sem pretensão de esgotar seus diversos matizes.

Já é comum no meio acadêmico considerar os conceitos “evangélicos fundamentalistas” e “integralistas católicos” como visões de mundo que diferem da perspectiva tradicional e doutrinária de católicos e evangélicos. Não se pode colocar tudo num mesmo saco. Não é verdade que os evangélicos sejam fundamentalistas e nem que os católicos sejam integralistas. Mas crescem entre os dois grupos de cristãos posturas que estão distantes do conteúdo fundamental das Sagradas Escrituras.

O berço contemporâneo que uniu evangélicos fundamentalistas e católicos integralistas está nos Estados Unidos. Ali se constituiu um “ecumenismo” contrário ao ecumenismo, ao diálogo entre as religiões, contra os imigrantes, contra os muçulmanos, contra o aborto e os gays. Foi ali que se projetou a ideia de um ensino religioso sob a forma de catequese cristã, e contra o Ensino Religioso a partir da ideia de um Estado laico. Foi ali que se estruturou uma postura política de ocupação do espaço público pela Bíblia. O Estado vai sendo instrumentalizado em benefício desta visão religiosa. Surge ali a “Church Militant” – igreja militante. Assim, entende-se o movimento do Pastor citado acima em direção de possível candidato à Presidência da República. Este é um projeto de poder conduzido por liderança religiosa. Uma igreja militante.

Nos meios acadêmicos, é praxe considerar a origem do fundamentalismo evangélico como “direita evangélica” ou “teoconservadorismo” quando o milionário do sul dos EUA – Lyman Stewart – entre 1910 e 1915 publicou os doze volumes de uma obra chamada “Os Fundamentos”, onde reúne o pensamento de autores que atuam na luta contra as ideias modernistas. Os presidentes Ronald Reagan e George W. Busch foram os principais presidentes admiradores desta postura doutrinária que implicava aspectos morais, sociais, coletivos e individuais, colocando os EUA como uma nação abençoada por Deus. O seu progresso material é expressão concreta desta bênção celeste, assim pregam seus líderes religiosos.

Agora é possível entender por que o Pastor citado busca uma candidatura que defenda “os nossos valores”. Os presidentes que seguirem esta pauta serão considerados como sucessores de Gideão e Davi, e conduzirão o povo para conquistas em nome do “Deus dos exércitos”. Por isso, cresce nesse meio a estigmatização ao diferente, ao estrangeiro, ao outro. E assim se justifica o investimento em armas de guerra, em sua venda junto ao povo e apoio às guerras.

Os diferentes são inimigos da nação de Deus. As novas Cruzadas dos tempos atuais estão cada dia mais numerosas em todos os lugares. Os novos cruzados são convocados nos púlpitos das igrejas fundamentalistas e integralistas. Nada escapa desta atitude conquistadora e dominadora. Por isso a falta de sensibilidade em relação aos desastres ecológicos. Entendem estes teoconservadores que o mundo foi criado por Deus para ser objeto de domínio.

Em relação ao integralismo hoje fica mais evidente sua postura semelhante ao fundamentalismo evangélico no que se refere à influência religiosa direta sobre a dimensão política. A era que se inicia tendo como presidente dos EUA D. Trump deu força a este movimento. Trata-se de uma postura de direita estruturada também dentro da Igreja católica.

O Papa Francisco tem empreendido muitas forças no sentido da construção de um mundo sem muros e contra todas as formas de guerra de religião. E mais ainda: contra todas as formas de instrumentalização mútua entre o poder político e o religioso. Ele quer uma “Igreja em saída”.

Do ponto de vista político, o eleitorado é atraído por promessas que remetem quase sempre a eliminação do diferente e estrangeiro. Há uma verdadeira aversão ao estrangeiro – xenofobia – inclusive com a construção de muros separando nações. Há também uma islamofobia que se desenvolve na esteira dos atos terroristas. Novamente a política apoiada pelo fundamentalismo e integralismo generaliza as ações do Estado Islâmico para o conjunto do mundo muçulmano. E entre nós brasileiros, aumenta a exclusão racial e cultural das pessoas de origem afro-indígena e todas as suas manifestações culturais. Tudo vira “coisa do demônio”. É impressionante como se demoniza no Brasil!

Intolerância e ódio são os grandes alimentadores do fortalecimento político de candidaturas que recebem apoio de líderes fundamentalistas e integralistas. A vitória desta visão numa eleição significará o definhamento completo da democracia e o fortalecimento de uma “teocracia” sem nenhuma base bíblica. Não é a “vontade de Deus”!

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