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Pescoço: por onde os nervos passam

Em 2003 numa viagem que fiz a Curitiba, Paraná, para participar de um curso, aproveitei para conversar com a irmã de um paciente que eu tratava há mais de seis meses devido a dores crônicas na coluna lombar e ombros. Ela era fisioterapeuta e tinha curiosidade para saber como era o meu tratamento, pois seu irmão havia melhorado muito de dores com as quais já convivia há muitos anos.

Para ela, que tratava seus pacientes com aparelhos e atendendo a convênios com guias de 10 em 10 sessões, era estranho que eu só o atendesse uma vez a cada duas semanas, utilizando apenas as mãos e orientando exercícios que ele praticava em casa e, mesmo assim, sua melhora fosse tão significativa.

Hoje o paciente vai ao médico, recebe um encaminhamento para 10 procedimentos fisioterapêuticos que são realizados diariamente e ao final de duas semanas o paciente retorna ao médico para reavaliação. Quando necessário recebe novo encaminhamento para continuar o tratamento até que a queixa de dor seja eliminada. A continuidade das sessões depende de liberação dos procedimentos exigidos por planos de saúde ou SUS e disponibilidade de vagas na clínica. Por isso a maioria dos pacientes fica pouco tempo frequentando a clínica ou vai em várias conforme as vagas.

Já trabalhei dessa maneira mas, com esse tipo de tratamento os pacientes até melhoravam de suas queixas porém, como são os hábitos que causam as disfunções e dores, pelo fato de não os mudarem, os pacientes geralmente voltavam para a clínica se queixando das mesmas dores. Quase sempre com um quadro piorado. Tratar uma disfunção ou dor sem que a pessoa mude os hábitos que originaram o problema, faz com que os problemas reapareçam e geralmente com maior intensidade.

A fisioterapeuta com quem eu conversei perguntou se eu não me cansava de ver a cara dos pacientes, perguntou se não era muito maçante ter um paciente voltando a clínica durante meses para tratamento e, claro, comparou com seu método no qual o paciente fica pouco tempo frequentando a clínica.

Mal sabia ela que é naquela hora que fico com cada paciente, ouço suas queixas e necessidades, oriento e esclarecer suas dúvidas, fico informado sobre o que ele percebeu de novo, se houve alguma alteração, é o que me serve de base para orientar os exercícios, alongamentos e cuidados para uma melhor recuperação. é nesse contato que conheço realmente a pessoa e seus hábitos e, com isso, posso tratar a origem dos problemas e promover melhora em sua qualidade de vida.

Mais de 10 anos haviam se passado desde o dia que conversei com aquela fisioterapeuta, quando, caprichosamente por uma necessidade minha, uma dor de cabeça que estava me incomodando intensamente, foi necessário mobilizar um nervo do meu pescoço que estava provocando dor irradiada para a cabeça. Durante a estimulação do nervo no pescoço senti refletir no ponto onde eu estava sentindo a dor do lado direito da cabeça. Foi também nesse momento que senti um relaxamento na minha perna e pé do lado direito e, por sentir em meu próprio corpo, pude entender melhor a importância do pescoço.

Apesar de já ter noção sobre a condição do pescoço ser a área de transição do sistema nervoso entre o cérebro e todo corpo, pois é por ali que passam todos os nervos que saem do cérebro para o corpo, foi a minha experiência que reforçou esse entendimento. Posso dizer que ‘caiu a ficha’ sobre como o pescoço interfere em tudo no nosso corpo e, de que eu deveria dar ainda maior importância a estimulação do pescoço de todos os meus pacientes durante o tratamento de qualquer disfunção que acomete a saúde humana.

O cérebro depende exclusivamente dos nervos para poder receber todas as informações captadas pelos 5 sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato). A partir do momento que as recebe, irá processar essas informações e só então poderá tomar as decisões para manter o corpo em equilíbrio e interagir com o meio. Também é através dos nervos que o cérebro manda os estímulos que controlam a forma e a função de cada parte do organismo, bem como a maneira como a pessoa irá se comportar para interagir e se integrar no meio social em que vive.

Como os nervos estão sujeitos a alterações por interferência de forças mecânicas as informações podem ser aumentadas quando a compressão do nervo desencadeia a aceleração dos estímulos neurais ou diminuídas quando a compressão do nervo desacelera o estímulo neural.

Por ser no pescoço o ponto de passagem de todos os nervos que ligam corpo e cérebro, as tensões, tão comuns nesse local, provocam a condição de arrasto de todo sistema nervoso simpático e parassimpático, alterando a percepção e o controle do cérebro sobre o corpo, interferindo na interação e integração do indivíduo com o meio.

A interferência na função dos nervos também provoca alterações na produção de hormônios, neurotransmissores, enzimas, proteínas e demais substâncias químicas necessárias ao correto funcionamento do organismo.

E, foi dando maior importância ao pescoço que pude observar uma significativa aceleração na melhora da saúde de todos os meus pacientes bem como na minha própria condição de qualidade de vida, pois com a mesma terapia que trato os pacientes eu sou beneficiado quando através da terapia manual, sou atendido por meu colega de profissão, o Dr. Walmer ou quando pratico os exercícios que alongam e relaxam o meu pescoço.

Assim como eu, Dr. Walmer e todos os pacientes que atualmente frequentam minha clínica e se beneficiam desse conhecimento, espero que esse texto possa beneficiar a muitos outros fisioterapeutas e seus pacientes. Mais que isso, espero que esse conhecimento se estenda a todos os profissionais da saúde e seus pacientes, pois é muito importante para se ter qualidade de vida.

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