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Para dissolver o duro calhau de açúcar

Somos céus atravessados por nuvens de energias vindas da profundidade dos tempos. Pierre Lévy

Foi espantoso deparar-se com o grosso caldo de agressividade que tão fortemente apareceu na campanha eleitoral este ano. Os endurecimentos atravessaram os eleitores, os candidatos, e infelizmente também a toda poderosa mídia. Na verdade a agressividade escorre constantemente dos modos de vida que nos são vendidos atualmente. Mas temos alternativas. Temos um referencial para nos ajudar a pensar estes endurecimentos: a vida.

Parece que há na vida e na história um movimento que procura sempre seguir do duro para o doce, do áspero para a suave, da força para o toque, da mão para a ponta dos dedos, do dado para a informação, da realidade para a linguagem, da coisa mesma para o signo, da vida não qualificada para a vida enquanto sentido. E se a vida e a história favorecem este movimento, então, em resposta, e mais do que lógico, somos convocados a nos associar a ele. Ex ducere. Conduzir para fora. Educar. Movimentar-se de dentro de si mesmo para o que existe a mais, além, o outro, o mundo.

Michel Serres, filósofo francês, seguindo dados demonstrados por engenheiros, diz que motoristas que transitam por estradas esburacadas obedecem mais às placas de sinalização afixadas ao longo da via do que aos solavancos que também fartamente recebem na mesma via. Isto é bem interessante visto que, a principio, poderíamos pensar que os muitos solavancos e o desconforto pudessem diminuir a velocidade. Mas não. O que faz com que os motoristas diminuam a velocidade não é a pista em si, mas as palavras e sinais que ele vê diante de si alertando para os buracos.

Para reduzir os acidentes – usando a imagem que ele tomou para falar da vida – estamos sempre diante de dois modos de seguir por caminhos. Um é o que implica em quebrar pedras, usar pás e picaretas, bombas, rolo compressor e etc. O outro consiste em não esquecer o uso dos pinceis e das tintas, o uso da ponta dos dedos para traçar letras e sinais.

As forças duras nos cercam e nos ameaçam. Elas nos desafiam e, sabemos pelas nossas fragilidades frente ao poderio da natureza e às adversidades, que só poderemos vencê-las pelas delicadezas da inteligência e dos sentimentos. Não poucas vezes somos seduzidos a responder ao duro com o duro. Isto até pode acontecer em determinadas circunstâncias, mas não podemos mais nos submeter a esta lei. A submissão a essa lei faz parte de capítulos infelizes da história da humanidade.

Eis um apelo contundente: conduzir-nos para fora (ex ducere), do ego para a comunidade, do punho teso e das mãos grossas para os dígitos e seus toques suaves, do material para o aplicativo, da força para o sensível, da energia para a informação, da coisa para o sentido. Educar-nos. E educar-nos não apenas como aquisição cognitiva de conteúdos. Mas educar-nos como processo que chama a todos ao movimento da vida. Vida que só é vida enquanto se movimenta e se aperfeiçoa. Vida que nos indaga: para onde você quer olhar?

O mundo não é o paraíso que queríamos. Vivemos na borda insegura entre o caos e um pouco de civilidade que construímos. Os processos de endurecimentos se avolumam. Os modos agressivos de ser se levantam. Muitos usam a dureza em nome da verdade, outros em nome dos direitos, de idéias, de Deus. Mas bom é olhar a vida que organiza forças, que articula complexidades, que se aperfeiçoa frente aos desafios, que evolui na dificuldade, que ganha cada vez mais sensibilidade e se diviniza… Sim, mirar-se na vida e escolher caminhos como os que a saliva encontra na boca de uma criança para dissolver o inquebrável calhau de açúcar.

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