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Os candidatos e as ações definidoras da retórica

 Sentei-me diante da televisão. Impunha-me uma obrigação: ver o segundo debate entre os candidatos à Presidência da República. E impunha-me esta tarefa agora pois que eu ficara completamente alheio ao primeiro. Busquei motivações não sei exatamente onde, ou em quê.

Não consegui. Não consegui seguir todos os blocos com interesse. Intercalei uns pedaços com um capítulo do livro que leio (1933 foi um ano ruim, de John Fante), com idas à cozinha, com mudanças de canal. E então comecei a me fazer perguntas: por que não consigo assistir tranquilamente ao debate? Por que as personagens do livro acabam me prendendo mais do que as três mais importantes figuras do país neste momento, e que estão bem ali, em tela ampla e nítida diante dos meus olhos?

Incomodado procurei encontrar umas respostas para as minhas indagações. Tomei como chave uns elementos da retórica segundo os gregos (clássicos) que propõem três operações como definidoras desta arte. 1. Movere (comover); 2. Docere (demover, ensinar); 3. delectare (deleitar, agradar).

Não que a retórica seja a coisa mais importante a se observar num candidato. Importam mais muitas outras coisas. E sabemos que esta arte – que também ganhou outras operações dos romanos e do cristianismo – faz tempo que perdeu a importância. Hoje ela se tornou simplesmente técnica de convencimento, de venda, se prestando bem ao império do dinheiro, do consumismo, do engodo (religioso inclusive). Mas, porque cabe aos candidatos a tarefa e a responsabilidade de nos colocar mais intimamente em contato com suas histórias e vidas, suas ideias e seus propósitos, me pareceu interessante pensar suas performances pelo viés destas ações definidoras da retórica.

E pensei: alguém que pretende ser Presidente da República, entre outras tantas coisas, precisa me afetar com seus gestos, suas convicções, sua lucidez (se a possui), sua forma de viver e também pela sua forma de expressar com palavras – e boas palavras – o que ele carrega em si como convicção. Ou seja, que ele seja capaz de provocar diálogos em mim e comigo que não aconteceriam se ele não falasse. Ah, fui me entendendo, os três são bem desprovidos desta habilidade. Talvez porque estejam carregados demais com as próprias contradições e não as enxerguem; talvez porque não se agradem eles mesmos do que falam e assim mesmo são obrigados a falar; talvez porque se assessorem demais com clichês e técnicas manjadas de convencimento.

Movere? Nenhum deles movimentou sentimentos alegres em mim, fiquei parado, como se o que falavam não me dissesse respeito. E se houve um movimento em mim, além do desinteresse, foi o de desencanto. Um sentimento triste, portanto. Fiquei pensando nos milhões de brasileiros que também estariam vendo aquelas imagens, assim, de modos semelhantes ao meu.

Docere? Ensinar. Também não. Em nada eles me ensinavam sobre o Brasil além do que todo mundo fala, além do que os jornais e as redes sociais estão cheios. Ah, sim, penso que um debate entre eles deveria trazer visões novas sobre horizontes que eu precisaria ver a partir do seus pontos de vista para dar a eles o aval, o consentimento para que nos levem para o futuro.

Delectare? Deleitar. Claro que não. Nenhum deles foi capaz de resgatar contentamentos e propor esperanças. Nenhum deles me fez ouvir com prazer o que propunham. Faltava-lhes autenticidade, faltava-lhes realidade. Ali era um jogo a ser jogado, e o que importava era jogar o jogo, mais do que comunicar-se. E os jogadores jogaram um jogo sem graça.

 

 

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