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O fermento dos Fariseus e de Herodes

O controle da mídia

Prestem atenção e tomem cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes” (Mc 8, 15).

A advertência de Jesus a seus discípulos, no evangelho de Marcos, logo depois de ter alimentado uma grande multidão com o que tinha à disposição (“sete pães”), partilhando e distribuindo os alimentos, revela que na sociedade de sua época havia distintos projetos e ideias que disputavam a capacidade de “fermentar” as mentes de seu tempo.

O seu, chamado de Reino de Deus – fundado nos ideais de justiça, partilha dos bens, amor irrestrito a todos os seres humanos, tolerância, perdão, igualdade social e paz – competia com o dos fariseus e de Herodes (na mesma passagem do evangelho de Mateus aparecem os saduceus no lugar de Herodes) – baseado no domínio político de uma casta social, na aplicação rigorosa da lei, no exclusivismo étnico e religioso (só os judeus se salvam), na concentração de bens, na submissão ao Império, etc.

A preocupação de Jesus era de que as ideias dos dominantes acabassem penetrando nas mentes e práticas daqueles que o seguiam, fermentando-as com o fermento ruim. Nem todo fermento é bom para ser acrescentado à nossa massa. Essa mesma advertência serve para os cristãos de hoje, pois ainda vivemos em uma sociedade onde disputam projetos distintos e todos eles concorrem para ter o poder de fermentar nossas ideias e ações.

Se no tempo de Jesus, quando não existiam jornais, canais de TV e rádio, revistas semanais ou Internet, o fermento dos fariseus e de Herodes representava uma ameaça ao projeto do Reino pela sua propagação na sociedade, ameaçando ser reproduzido até por seus próprios discípulos, hoje, com os avançados meios de divulgação de informações e de formação de opinião, a ameaça é muito maior.
No Brasil, apenas seis grandes famílias controlam os principais meios de comunicação nacionais. Nossa mídia é controlada por grandes conglomerados econômicos que gerem outros tipos de negócios e possuem capitais estrangeiros investidos.

Apenas para citar exemplos, a revista Veja tem entre seus acionistas o grupo Naspers, sustentáculo midiático do antigo regime do apartheid da África do Sul. O megaempresário de mídia Rupert Murdoch (dono, dentre outros meios, do canal conservador estadunidense FOX) é parceiro comercial das Organizações Globo, e assim por diante.

Esses grupos pertencem a uma classe social com interesses próprios, que defendem projetos de país e de mundo onde a concentração de riquezas não tenha limites e onde os interesses do mercado se sobreponham à liberdade, à democracia, à justiça social ou ao cultivo de valores morais. Além de despejarem lixo cultural e pornográfico sobre a cabeça de seus consumidores, atacam qualquer tipo de iniciativas, governos, movimentos, personalidades ou instituições que não se alinhem a seu projeto. Não têm escrúpulos em criar bandidos e mocinhos falsos de acordo com sua visão de mundo.

Poucas são as agências internacionais que produzem as notícias retransmitidas por nossa mídia local, e a maior parte delas é formada por grandes empresas dos EUA ou das potências da Europa Ocidental. A Associated Press (EUA), Reuters (Londres), France Presse (França) e EFE (Espanha) controlam entre 70% e 90% das notícias distribuídas aos veículos de comunicação de todo o mundo (1).

É por meio dessa megaestrutura midiática que os telespectadores, leitores ou radio-ouvintes formam as ideias sobre o que se passa no mundo. Na verdade, o mundo que se vê na mídia é o mundo que ela quer que vejamos. Seu fermento deve penetrar em nossa massa mental, a fim de garantir a concordância com seu projeto de sociedade.

As pessoas que se acham “informadas” apenas por sorverem acriticamente as notícias dos grandes veículos de comunicação podem estar, na verdade, fermentando sua cabeça com o fermento dos fariseus e dos Herodes modernos. É assim, infelizmente, que grande parte da população, principalmente os setores de classe média, forma sua opinião sobre o que se passa em outros países e no seu próprio (o caso dos médicos cubanos, da situação política da Venezuela e da Ucrânia são os exemplos mais atuais).

Essa rede de formação de nossa opinião sobre o mundo em que vivemos levou um dos maiores intelectuais da atualidade, o estadunidense Noam Chomsky a afirmar que “é possível que os setores mais instruídos tendam a ser os mais profundamente doutrinados” (2). Pois muita gente acha que ser “instruído” é ler e repetir o máximo possível as notícias e comentários veiculados na grande mídia.

A advertência de Jesus serve também para a quantidade de ideias a respeito da política, segurança, criminalidade, saúde, etc. que são defendidas abertamente por âncoras e comentaristas da imprensa local. Da mesma maneira, nos pede cuidado para o recorte que fazem das notícias com intuito de termos um olhar sobre a sociedade cada vez mais adequado aos interesses das grandes empresas e dos grupos econômicos e políticos tradicionais, sejam nacionais ou estrangeiros.

Esse é o atual “fermento dos fariseus e de Herodes”. Prestemos atenção e tomemos cuidado com ele. Principalmente porque este ano teremos eleições e não há momento mais propício para formar cabeças na intenção de se chegar ao poder. As empresas de comunicação já sabem disso muito bem. Resta saber se nós estamos preparados para resistir ao seu fermento.
 
Fontes:
(1) https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/CSO/article/viewFile/3269/3134
(2) http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/3/09/mais!/16.html

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