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Natal; celebração da proximidade

A cada ano neste momento fico pensando em alguma mensagem significativa para esta festa tão importante no calendário cristão. E me veio o eixo teológico único entre todas as religiões que é a Encarnação do Verbo. Deus quis ficar tão próximo do mundo criado que rompeu a distância da transcendência aproximando-se da imanência plena ao fazer-se carne e entregar-se como carne. E só poderia haver Ressurreição se houvesse Encarnação. Somente o Cristianismo traz esta grande novidade sagrada, este grande mistério de fé. Como nos afirma Paulo, do contrário nossa fé seria vã. Nenhuma outra religião possui algo parecido com a Encarnação e com a Ressurreição. Deus se faz tão próximo da realidade mais dura da vida, a ponto de não ter sequer lugar para o nascimento. E não restou outra alternativa senão buscar abrigo num estábulo para animais em Belém. O Verbo se faz carne na realidade pobre e carente, habitando entre nós.
No Brasil, um movimento da sociedade civil retoma a luta por um “Natal sem Fome” depois de 10 anos. Em 1993 Herbet de Souza – Betinho – dizia que “quem tem fome, tem pressa”. Sim. Muita pressa, pois a vida se esvai rapidamente. Infelizmente o Brasil passou a figurar no Mapa da Fome das Nações Unidas. Sente-se a fome na carne e no espírito.
A Igreja Católica assume a proposta do Papa Francisco de um Natal para Todos e instituiu o Dia Mundial do Pobre, celebrando no penúltimo domingo antes do Advento. A Igreja em saída é uma Igreja para a proximidade dos que mais necessitam. Em artigo anterior já desenvolvi reflexão a respeito deste dia.
O Natal não pode ser reduzido a um mero costume tradicional de oferta de cestas de natal às pessoas carentes de nosso país e nossa cidade. Trata-se de uma realidade cruel que reaparece em destaque negativo para o aumento da pobreza e o aumento da vulnerabilidade social. Pensávamos que a batalha da fome já tinha sido vencida. Temos no Brasil 7 milhões de pessoas que não têm o que comer segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD – elaborada pelo IBGE e no mundo são 11% da população sem comida.
As Igrejas desenvolvem o Natal Para Todos com um conjunto grande de iniciativas que visam aprofundar o compromisso cristão por uma opção com os pobres e não apenas pelos pobres. Ou seja, trata-se de atingir um conjunto maior de necessidades de nossa proximidade no cotidiano das pessoas menos favorecidas.
Hoje poderíamos dizer que o brasileiro está passando fome também de esperança. Isso é triste e desesperador. Quando uma pessoa perde a esperança, sua vida se aniquila rapidamente. A morte da esperança é um verdadeiro assassinato das pessoas e os responsáveis deveriam ser punidos rigorosamente.
Estas campanhas não podem desaparecer no dia seguinte ao Natal. É muito fácil estimular a consciência das pessoas no período natalino para ações de solidariedade. Sabemos que é preciso de algo duradouro em termos de políticas públicas e mobilização da sociedade permanentemente. Contudo, uma ação pontual poderá ser o início de um movimento maior das Igrejas cristãs, da sociedade e das organizações políticas. Betinho dizia que a fome é o último passo antes da perda da cidadania. Estamos repletos de discursos de indignação, contudo isso não enche a barriga das pessoas.
Os meios cristãos foram educados para o valor da prática da esmola. Ao longo do tempo a esmola caiu numa visão pejorativa. Contudo, ela pode ser o primeiro passo concreto para um movimento de solidariedade ainda maior. Da esmola chegamos a campanha de alimentos não perecíveis. Isso já é uma grande ação na direção da solidariedade. Em minha percepção, a sensibilidade social tem decaído muito entre nós. E isso nos tem transformado em seres egoístas, isolados, e sem nenhum compromisso para além do próprio umbigo. O Natal enquanto celebração da proximidade pode se tornar a oportunidade para uma verdadeira conversão cristã.
Betinho também dizia que “a alma da fome é política”. Esta é a grande verdade. Trata-se de nos empenharmos numa luta e trabalho em prol da cidadania e pela vida. A idealização do projeto Natal sem Fome repercute no centro do movimento “Ética na Política”. Não apenas estamos tristes porque a fome retornou, mas também porque a política brasileira descambou para os piores pecados da vida democrática, a imoralidade da corrupção e a enormidade de recursos desviados das mesas dos pobres. A luta contra a fome então se transforma também na luta concreta contra os desvios de recursos públicos, contra a perda dos direitos sociais que deixa ainda mais vulnerável a sociedade dos menos favorecidos.
O Papa Francisco nos diz que “O dom precioso do Natal é a paz, e Cristo é a nossa paz verdadeira. Cristo bate à porta dos nossos corações para nos conceder a paz, a paz da alma. Abramos as portas a Cristo!” Não existe proximidade enquanto existir ódio entre as pessoas, enquanto se tentar fazer justiça com as próprias mãos. E mais ainda nos lembra o Papa: “Hoje, o Filho de Deus nasceu: tudo muda. O Salvador do mundo vem para se tornar participante da nossa natureza humana: já não estamos sós e abandonados.” O Verbo se faz carne para estar o mais próximo da humanidade. E com ternura nos acolheu e nos devolveu a esperança mais profunda. É na proximidade que fortificamos a esperança. Deus está entre nós! Nada mais importa!

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