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Mais uma lição de Francisco

O Papa Francisco mais uma vez chama a atenção ao recusar o beijo no Anel de Pescador da fila de pessoas na cidade de Loreto, Itália, neste final do mês de março. Outros papas também recusaram este gesto como é o caso de São João Paulo II. O antecessor Bento XVI também não era simpático a esta tradição. Para ele, o anel era apenas um símbolo.

De fato, caminhando pela história iremos encontrar a menção ao Anel de Pescador com o Papa Clemente IV, em 1265, que o usou como lacre (selo) pressionando a cera vermelha num envelope de uma carta enviada a seu sobrinho, Pedro Grossi. Daí em diante passou a significar um símbolo de autoridade e servindo para fechar correspondências privadas. A prática de autenticar documentos oficiais com o anel foi abolida em 1842, sendo substituído pelo carimbo. O Papa Bento XVI, ao ser escolhido, pediu que se fizesse “uma peça simples, austera, que não fosse ostentosa e que fosse fácil de levar”, diferente daquela que lhe foi entregue no rito de inauguração do pontificado.

As reações relativas ao gesto de recusa do beijo no anel vieram imediatamente. A ala mais conservadora da Igreja chamou a atitude do Papa de “perturbadora”. Já o biógrafo papal Austen Ivereigh disse: “É hora do hábito de beijar os anéis dos bispos desaparecer por completo. É ridículo e não tem nada a ver com a tradição. É uma importação das monarquias. Grande parte da pompa em torno dos bispos deveria ser descartada”. E completa: “Ele é o vigário de Cristo, não um imperador romano”. Paolo Nodari, vaticanista, foi incisivo ao dizer que o “papa não quer ser tratado como um monarca”. O próprio Francisco já declarou por diversas vezes que “o papa, os bispos e os padres não são príncipes”.

Desta forma, percebemos que o gesto de recusa do beijo no anel não se coloca em contraposição ao que desde o início ele sinalizou para toda a Igreja. Assim, logo que foi escolhido solicitou um anel de prata dourado, ainda mais simples, bem na linha da proposta de uma Igreja pobre para os pobres, sempre de portas abertas, em que o poder deva se reduzir ao serviço. Ao mesmo tempo, desde o início do pontificado, denuncia o clericalismo e o servilismo na Igreja.

Portanto, não tem nenhum sentido um gesto de veneração como se ele fosse um monarca. Ele sempre insiste que as pessoas o olhem de frente e não se rebaixem diante dele. Prefere imagens dele beijando terços, sendo tocado pelas pessoas, abraçado por ela, trocando sorrisos, onde as pessoas olham de frente e não se rebaixem diante dele. Essa é a mensagem genuinamente cristã e evangélica. O resto foi poeira acumulada ao longo da história.

Na história da Igreja podemos constatar que a preocupação maior sempre foi com os Ministérios e Serviços, ou seja, quem se dispusesse às diversas ordens deveria mostrar de maneira radical a vontade de servir à comunidade eclesial. O que distinguia os ministros da Igreja não eram as vestes. E principalmente nos tempos primeiros do cristianismo, não havia nada que os diferenciasse das demais pessoas da comunidade.

Nos dias atuais, as lições de Francisco incomodam muitos bispos e padres que fazem das vestes e dos símbolos os sinais maiores do ministério cristão. Nem sempre certos gestos nasceram da mensagem cristã, mas foram incorporados na história com o contato com diversos ambientes culturais e políticos, especialmente provindos do Império Romano e Império Carolíngio na Idade Média. Foi no século IV, com a oficialização do cristianismo como religião do Império Romano que a Igreja cristã passou a assimilar aspectos da cultura monárquica e sacerdotal.

Com o Concílio Vaticano II a Igreja busca uma volta às origens cristãs dos tempos apostólicos. E o Papa que conduz a barca de Pedro – imagem da Igreja – como uma Igreja Povo de Deus, tem alertado sempre para que se fortaleça o sentido original da missão cristã com testemunho de pobreza, de simplicidade e de desapego.

O barco de Pedro, usado em diversas ocasiões por Jesus Cristo, não era um iate de imperador, mas barco de pescador. As celebrações cristãs devem demonstrar permanentemente essa perspectiva, e não ser momento ou espaço para os ritos pomposos, de ostentação. A beleza reside mais nas coisas simples e singelas, que nas vestes pomposas, nos anéis dourados e nos tronos de imperadores. Com outro Francisco (de Assis), podemos dizer a qualquer ministro da Igreja: se preciso for fique até sem as vestes e não apenas o anel.

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