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Justiça seja feita segundo a lógica de Deus

A justiça, segundo a concepção ocidental, é cega, surda e imparcial. “Ela está cristalizada na imagem/símbolo da deusa Têmis: uma imponente figura feminina com os olhos vendados (imparcialidade), carregando em uma das mãos uma balança (equilíbrio) e na outra uma espada (poder/força). Na Bíblia, por sua vez, o justo por excelência é Javé. E, ao contrário da deusa Têmis, nem é cego/surdo nem imparcial. Pelo contrário. É um Deus que ‘vê’ a opressão do seu povo, ‘escuta’ seus clamores contra os opressores e ‘desce’ para libertá-los da opressão dos egípcios e conduzi-los a uma terra que ‘mana leite e mel’ (Ex 3,7-9)” (Pe. Francisco de Aquino Junior*).

Deus, portanto, não é neutral, mas fica ao lado das vítimas. “É parcial. Por isso mesmo é conhecido como o Deus dos pobres e dos oprimidos”. Essa não é conversa de esquerdista, mas a fala da Bíblia que muitos cristãos fazem questão de carregar debaixo do braço ou de colocar à cabeceira da cama. O Deus da Bíblia é o “Deus dos humildes, socorro dos pequenos, protetor dos fracos, defensor dos desanimados, salvador dos desesperados’ (Jd 9,11). É ainda “o Deus que ‘derruba do trono os poderosos e exalta os humildes; cumula de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias’ (Lc 1,25)” (Pe. Aquino).

É a fé nesse Deus e em sua justiça que inspira quem, ainda hoje, mesmo nesse clima de difamação, criminalização e perseguição, escolhe o lado dos oprimidos e junto com eles luta pela garantia dos direitos fundamentais. É lastimável que alguns deles estejam sendo presos, conduzidos diante dos tribunais e processados a partir de denúncias caluniosas.

Há setores do judiciário que precisam inspirar-se mais na justiça de Deus. Está na hora de deixar cair a venda dos olhos para enxergar o sofrimento das verdadeiras vítimas do sistema e não se deixar “conduzir” por argumentos artificiais “tecnicamente construídos a rigor da lei” por técnicos da área muito bem pagos para servirem os interesses dos poderosos. Está na hora de abandonar a suposta imparcialidade para fazer justiça aos oprimidos, sobretudo quando “o direito à voracidade” de uns poucos privilegiados deixa a natureza devastada e a dignidade humana pisoteada. O direito ao necessário para viver com dignidade está acima de qualquer outro direito.

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