buscar
por

Insegurança civil, um drama social

Tânia Maria Silveira

A insegurança civil é um drama social. A violência é a prova disso. E, de fato, o Brasil é um país violento. Com apenas 3% da população mundial responde por 13% dos assassinatos do planeta computando cinco pessoas mortas por arma de fogo a cada hora, ou seja, um país com risco de agressão cotidiana. Dentre os estados brasileiros, o Espírito Santo lidera a matança desde os anos noventa, ocupando posições de destaque em algumas modalidades criminais. Por exemplo, a morte brutal dos jovens irmãos capixabas, Damião dos Reis (22) e Ruan dos Reis (19), indica o predomínio da cultura da violência contra a juventude. Em nosso país são assassinados 30 mil jovens por ano desde 2012, ou seja, uma carnificina de 150.000 jovens no último quinquênio.

Viver sob a ameaça da morte e do medo de agressões pode resultar na formação de opiniões perigosas, de propostas controversas, de atitudes dúbias. Insegurança social. Isto é comum nas regiões embrutecidas pela violência, tais como, a Região Metropolitana de Vitória que ocupa os primeiros lugares do rankinq nacional desde a década de 1990. Neste contexto, o comportamento violento brasileiro torna-se uma marca cultural com estilo próprio: habilmente irreverente; cuidadosamente dissimulado; perigosamente mordaz, nocivo, sinistro, letal.

Neste contexto, o debate sobre a superação da violência está, cada vez mais, embasado em argumentos perigosos, normalmente ancorados em chavões que são proclamados sem avaliar a adequação à realidade local. Em prol da segurança são recorrentes as falas calorosas de apologia e incitação ao crime, tanto em meios de comunicação, quanto em debates públicos ou em rodas de conversas informais. De tanto repetir, algumas ideias criminosas tornam-se usuais deixando a forma subliminar arrancando risos coniventes dos ouvintes quando deveriam causar surpresa ou indignação.

Por isso, é importante lembrar que a promoção e proteção do indivíduo são premissas da sociedade moderna. Mas, recorrentemente se ouve questionamentos sobre os excessos do papel do Estado na proteção e promoção social. A ideia de Estado Mínimo ou de redução do papel do Estado perde o poder explicativo diante de problemas sociais graves. Por exemplo, basta acontecer algum tumulto para se escutar o questionamento veemente: “Onde estão as autoridades?” Ou então, em qualquer situação de conflito prevalece a ironia: “Esse país não tem lei?” Existe, também, a reação previsível das pessoas ao constatarem situação de abandono: “Porque não viram isso antes?” Enfim, as pessoas conhecem e reconhecem a existência do sistema de gestão da sociedade moderna, normatizado por leis, o Estado, que custa caro, mas que se faz necessário.

A proteção civil são as garantias do Estado Moderno às pessoas e aos seus bens. São garantias necessárias que devem ser em conformidade com os pressupostos do Estado de Direito. Elas são necessárias porque a modernização tornou as relações sociais muito complexas e, com isso, distanciou os indivíduos da proteção dos seus grupos familiar e social. Sem essas garantias temos as rupturas e as crises que levam à insegurança civil. Portanto, as falhas na proteção dos indivíduos resultam em crise que coloca o Estado no centro do debate público.

Enfim, a superação da violência requer mudanças de comportamentos em todos os níveis, tanto dos indivíduos e seu entorno convivial, quanto da comunidade, das instituições e da sociedade em geral. A violência tem causas estruturais, institucionais, culturais, porém é bom lembrar que as ideias e atitudes dos indivíduos são determinantes para as mudanças estruturais, institucionais e culturais.

——————————————————————————————————————————————

*Tânia Maria Silveira é mestre em Política Social (UFES).

 

 

 

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS