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Há candidatos que prestam?

É comum depararmos com a afirmação de que “as eleições definem o destino do país”. Isso é verdade apenas em parte. O processo eleitoral é somente uma parte da política. O verdadeiro destino do país é decidido na capacidade da sociedade civil de se organizar em movimentos e entidades fortes, capazes de apresentar propostas de políticas públicas que beneficiem permanentemente a maioria da população e para os problemas gerais como meio ambiente, direitos humanos, mobilidade urbana, política econômica, etc. Não apenas de apresentá-las, mas de se constituir em força política suficiente para que tais propostas se transformem em leis e ações permanentes de governo. É apenas nessa última questão que o processo eleitoral adquire sua importância.

Não votamos para que os problemas do país sejam resolvidos pelos candidatos “mais bem preparados”. O que se precisa pensar é na capacidade desses candidatos para serem a expressão institucional (nos poderes do Estado) das demandas da sociedade civil. E isso inclui tanto um programa de governo claro e amplo como a integração com as lutas dos movimentos sociais e identificação com os clamores dos mais pobres e das populações que têm seus direitos negados.

Por isso, para o futuro de nossa nação, importa mais o que somos capazes de fazer como sociedade civil do que a decisão pontual a respeito de em quais candidatos iremos votar. Não estou retirando a importância desse momento eleitoral, mas simplesmente tentando colocá-lo como um evento relacionado a um processo político amplo, feito no cotidiano e pelo conjunto dos cidadãos de um país.

A crença messiânica em uma pessoa que irá transformar o país, ou em parlamentares que querem “cuidar” de nossa vida, é uma crença fadada a se transformar em ilusão e decepção logo depois que os eleitos tomam posse. Se formos votar apenas esperando o “ungido”, o que pode representar “o novo” (que nunca vem), não encontraremos nunca candidato ideal e a tentação de se eximir do processo (pensando que ninguém presta) ou de se apostar em promessas repetidas de mudança e de “nova política”, feitas por quem sempre colaborou com a velha, passa a ser grande.

Além disso, distinguir o que é bom ou ruim na velha política é uma tarefa necessária, pois o mau uso do que se chama de “velha política” não pode ser confundido com toda a política praticada até hoje, pois acumulamos diversos avanços desde que a ditadura militar acabou.

Portanto, devemos votar pensando em como contribuir para que medidas necessárias para melhorar o país possam ser implementadas por governos e parlamentos, mas não em resolver esses problemas apenas digitando números em uma urna eletrônica. As eleições decidem quem vai ocupar o papel que cabe aos poderes do Estado (Legislativo e Executivo), mas não decidem como a sociedade civil vai se organizar para que suas demandas sejam atendidas. Essa parte é nossa e deve acontecer mesmo quando não há eleições.

Pensando assim, poderemos escolher os candidatos que prestam: basta perguntar “prestam para quê?”. Se for para salvar o país sem nossa participação, nenhum presta. Se for para ousar em sua atuação parlamentar ou de governo, resolver demandas urgentes da população mais pobre e fazer avançar as lutas da sociedade civil, vários prestam. Essa pergunta deve vir antes da escolha.

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