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Francisco no Chile: o papel da universidade católica

A visita do Papa Francisco ao Chile nos apresenta um grande conjunto de temas e questões fundamentais para a reflexão. Poderíamos nos perguntar por que motivos ocorreram tantas reações contrárias à visita. Também podemos nos ater ao problema seríssimo da pedofilia cometida por alguns líderes religiosos bem como o papel desempenhado por grupos conservadores que tentam desqualificar o papa diante de suas posições contra as desigualdades sociais, o apoio aos segmentos marginalizados da sociedade, principalmente os povos ancestrais daquele país representados pelos indígenas Mapuche e a crítica ao modelo exclusivista e concentrador das riquezas que deixam 15% da população chilena abaixo da linha de pobreza definida pelo Banco Mundial.
Contudo, o discurso do Papa para mais de 3.000 convidados e alunos da Universidade Católica do Chile nos coloca alguns referenciais fundamentais a respeito do papel da instituição de ensino católica. Por isso, queremos nos dedicar neste texto abordando um pouco o papel que uma Universidade Católica como a do Chile, considerada entre as melhores da América do Sul, tendo superado a própria USP. A última avaliação coloca esta instituição como a terceira melhor universidade da América Latina.
Em uma sociedade como a chilena na qual cresce cada vez mais o laicismo e o agnosticismo, bem como os níveis de exclusão social, que papel deverá ter uma instituição católica de ensino superior? Deveria continuar no caminho do mercado educacional disponibilizando produtos e angariando fundos para sua manutenção? Ou deveria incorporar outras finalidades? Seria uma Universidade Católica uma entidade caritativa? E como ela se manteria? Eis alguns desafios. Ao mesmo tempo não podemos esquecer que foi à sombra das Igrejas medievais que nasceram as grandes universidades no mundo ocidental, e que foi a própria Igreja Católica a responsável pela conservação e manutenção da cultura e da tradição acadêmica e científica até os inícios da Idade Moderna.
Comunidade educativa
O Papa Francisco em seu discurso na Universidade Católica do Chile convoca os acadêmicos para ampliar o conceito de “comunidade educativa”. Parece óbvio, pois poderíamos entender isso como a reunião do corpo docente, do quadro de funcionários da instituição e do corpo de alunos. Mas não é isso que o Papa está indicando. Uma comunidade educativa não se reduz aos limites dos muros que cercam as instituições de ensino. Algumas faculdades ou universidade parecem mais castelos medievais muito bem cercados e guarnecidos, formando uma bolha no meio social onde estão situadas.
Por comunidade educativa o chamado do papa nos convoca para além dos muros, para além de suas missões tradicionais de ensino, pesquisa, extensão e assistência. Isso se exige de toda e qualquer universidade. Muitas vezes, através do eixo da extensão, as universidades públicas desenvolvem mais projetos e programas que as instituições cristãs. Por ser católica, ela não pode se reduzir aos princípios fundamentais de uma universidade: ensino, pesquisa e extensão. Senão para que cunhar esta instituição como “católica”? Seria puramente marketing, trivializando a mensagem evangélica. Cunhar uma instituição como católica para angariar alunos não é papel cristão. Isso é mercado. Isso é religião de mercado.
Alfabetização integradora
A universidade católica deverá pautar-se como “força profética capaz de abrir horizontes e iluminar o caminho especificamente para os homens descartados da sociedade”, afirma o Papa. Eis aqui a missão central de uma instituição universitária cristã e católica; também deveria ser esta a missão das instituições luteranas, metodistas, presbiterianas, batistas, etc. O ensino dos conteúdos científicos é fundamental, contudo, a missão da instituição católica nas palavras do Papa “não é tanto uma questão de conteúdo, mas de ensinar a pensar e raciocinar de maneira integradora”. O papel central deverá ser sempre por uma “alfabetização integradora”. Mas isso não deveria ser proposta das escolas de ensino fundamental?
Interpretando as palavras do Pontífice e situando-as no contexto da pedagogia desenvolvida por Paulo Freire, alfabetizar é muito mais que unir sílabas e formar palavras. Trata-se de obter um domínio crítico da realidade. Cada palavra deve servir como força geradora, transformadora da realidade. Se o chamado do Papa é por uma “alfabetização integradora” nos espaços universitários é por que o caminho educativo das sociedades atuais conduz para uma pedagogia bancária, de domínio de conteúdos de maneira mecânica, dissociados da realidade social. Caberá à instituição de ensino superior católica desenvolver desde os inícios dos cursos de graduação processos de alfabetização integradora. Nas palavras do Papa: “que seja capaz de gerar novas dinâmicas para superar a fragmentação do saber”.
Se formos pesquisar a respeito deste conceito, o mundo laico nos coloca um horizonte de novas práticas pedagógicas, principalmente a adoção dos princípios da interdisciplinaridade e transversalidade nos processos educativos. Com certeza, estes são valores que devem ser encontrados em toda e qualquer instituição de ensino superior. Mas, nem isso encontramos. O mundo acadêmico ainda está estruturado de modo fragmentado, com disciplinas isoladas, professores que cumprem seu horário de aula e não buscam desenvolver nenhum processo de comunicação com os demais colegas de outras disciplinas e muito menos são capazes de alterar a lógica dissociativa entre teoria e prática. Cada um “vende o seu peixe” e deixa os alunos satisfeitos aplicando provas com conteúdos isolados e deslocados da realidade. Este ensino é abstrato e ilusório, pois dá a impressão de se conhecer a realidade, mas, na verdade, o que se conhece são imagens. É preciso mais atenção às palavras do Papa. Ele não é um pensador da educação que está convocando os professores para rever esta prática bancária.

Alfabetização integradora e Evangelho
O conceito de “alfabetização integradora” no modo cristão e católico de pensar e agir está situado na pedagogia evangélica. Trata-se do modo como Jesus Cristo formou seus discípulos para irem ao mundo pregando e batizando. A alfabetização integradora reúne dois pilares centrais do modo de ser cristão: fé e vida. Uma instituição de ensino superior católica que não insere em seu modo de ser este fundamento, não difere de nenhuma outra instituição congênere de cunho laico. O grande desafio para a Universidade Católica é integrar “fé e vida” em seu Projeto Político Institucional (PPI) e em seu Plano de Desenvolvimento Institucional (PPDI). Tive a oportunidade de visitar uma instituição que não é católica e seus dirigentes impuseram como prática a distribuição da Bíblia para todos os alunos no primeiro período, com a capa incorporando a logomarca da instituição. A Bíblia neste caso não serve como instrumento evangelizador, mas propaganda da faculdade. Outras instituições instituíram uma disciplina ofertada a todos os cursos achando que com isso está garantida a especificidade cristã católica. Isso é um desencargo de consciência e não atende à convocação feita pelo Papa na Universidade Católica do Chile.

Missão da universidade católica
Nas sociedades com tantas desigualdades sociais, com altos índices de pessoas abaixo da linha de pobreza, a universidade católica é convocada para colocar suas competências acadêmicas e científicas a serviço do conhecimento desta realidade e propor projetos arrojados para as instâncias responsáveis a sua execução. Por exemplo: no caso da tragédia de Mariana cabe a Universidade Católica colocar suas competências para o conhecimento adequado da situação tanto da população ribeirinha, como do próprio ambiente, e ser voz profética junto aos poderes estabelecidos do Estado. Uma instituição cristã que se cala diante de tamanha tragédia, com certeza não está adotando uma alfabetização integradora. A universidade católica também deverá ser na sociedade um espaço de vigilância constante na defesa da justiça, na proposição de ações de solidariedade e no fortalecimento dos mecanismos de transformação desta realidade. Uma comunidade educativa católica que se fecha no interior de seus muros não está cumprindo sua missão fundamental de ser “força profética”.
Através do discurso proferido na Universidade Católica do Chile o Papa Francisco está convocando todas as instituições católicas de ensino superior para um movimento de fortalecimento da “convivência nacional e capacidade de avançar em comunidade”. Diante do crescimento do ódio e da intolerância, a universidade católica é chamada a enfrentar este desafio nos tempos atuais sob o risco de se perder como identidade e referência fundamental e como força integradora e evangélica para a transformação social.
A universidade não pode estar dissociada da vida e da sabedoria dos diversos povos que compõem uma nação. No Brasil, foi preciso uma Lei obrigando as instituições a incluírem Estudos da Formação Étnico-Racial dos Afrodescendentes e Indígenas, e na maioria das vezes, o que se vê sendo desenvolvido são meros mecanismos de cumprimento da Lei sem resultados eficazes. Neste sentido, ela deve “incorporar em si a vida e o peregrinar do povo, sendo capaz de assumir uma lógica plural e a interdependência do saber”. Daí a “interação entre a aula e a sabedoria dos povos”, entre a aula e os valores evangélicos. Nisso e somente nisso ela será reconhecida como espaço dos discípulos de Cristo, “progredindo em comunidade” e sendo “sinal de uma Igreja jovem, viva e em saída”.
Edebrande Cavalieri
Dr. Ciências da Religião

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