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Fino, estranho, inacabado, é sempre o destino da gente

Fino, estranho, inacabado, é sempre o destino da gente, diz Guimarães Rosa, o grande de Grandes Sertões, Veredas. Acho que é isso mesmo. Transitamos sempre entre as provisoriedades da vida que segue e as finezas dos sucessos e realizações que almejamos.

Estamos permanentemente em construção. Em nossas Igrejas também esta é uma realidade bem atual. Paredes se levantam, formas se definem, belezas se anunciam. O olhar curioso, indagador, atento percorre alturas, varre o chão, esquadrinha demoras. Queríamos já tudo acabado, arranjado, bonito… mas, não está. Nossos projetos continuamente estão inacabados. Estamos sempre em construção.

Mais ou menos assim comecei um texto em que me dirigi – como pároco – aos membros da Paróquia de São Pedro da Praia do Suá (que levanta de seu antigo e pequeno templo um novo, grande e bonito). Disponibilizo agora, aqui, estas idéias, pois a realidade que vivemos na construção da nova igreja de São Pedro é, num momento ou noutro, a experiência de todas as comunidades. Desejei falar das obras que se dão em nossos templos e os inacabamentos em nossas vidas, o que desejamos para o templo e o que deveríamos buscar como aperfeiçoamento de nós mesmos. Grandes obras podem prender nossos investimentos no templo em detrimento dos investimentos na vida e no seguimento de Jesus Cristo.

O inacabamento, a incompletude, a imperfeição nos incomodam. Quanto às obras do templo temos pressas; quanto ao crescimento da comunidade nem tanto; quanto ao avanço na estrada do seguimento de Jesus talvez também não sejamos tão apressados; quanto à superação de nossos vícios, manias e defeitos também deixamos a desejar. Pode até ser que levemos para o fim da vida – Deus nos livre disso – o que poderia ser bem trabalhado desde a juventude.

Mas é preciso dizer, as obras em nossas igrejas e nossos inacabamentos pessoais funcionam – ou podem funcionar – como um belo apelo ao aperfeiçoamento. Zelai pelo aperfeiçoamento, precisaríamos dizer sempre a nós mesmos, parafraseando a Jesus na sua clássica exortação “sede perfeitos como vosso Pai é perfeito”. Sabemos – e disso não há duvidas – há em Deus um contentamento quando vamos construindo nossas vidas como verdadeiros templos onde se entoam os mais belos louvores em sua honra.

Mas também o inacabamento pode nos desanimar. Cansados do longo processo de construção podemos tender ao desânimo, às soluções rápidas, saídas outras como as que incluem o abandono da obra. Mas a vida que nos habita, a vida que precisa habitar nossos templos está sempre e vigorosamente a nos recordar: é preciso continuar com a construção.

É certo, o templo se levantará mais cedo ou mais tarde com todos os seus acabamentos, adornos e belezas. Não sossegaremos enquanto a obra não chegar ao seu término. Quanto a nós seguiremos inacabados. E se nos tranquilizaremos com o fim das obras do templo, não haveremos de nos acomodar, nem nos contentar com o atual estágio do nosso avanço na demorada construção de nós mesmos, o que supõe o convívio inquietante com nossas imperfeições, e a decisão firme de superá-las.

Afinal, há privilégios em ser membro de uma comunidade que se reúne num templo inacabado, pois que ele é sempre e explicitamente um apelo: retomar a cada dia, com mais amor e coragem, a construção de nós mesmos, da solidariedade entre todos, da vida comum em Cristo Jesus. Essa obra, ah… essa obra não acaba

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