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FÉ E TURISMO RELIGIOSO

Em uma longa reportagem do jornal A Tribuna do dia 19 de março de 2017 um tópico me chamou mais a atenção quando a jornalista nos informa que somente no Brasil por trás da fé se movimenta por ano 15 milhões de reais, decorrente de mais de 8 milhões de viagens domésticas movidas pela fé. São 96 destinos presentes em 334 municípios brasileiros.

Os principais lugares de peregrinação e turismo religioso são Nossa Senhora Aparecida (SP), Nossa Senhora de Nazaré (PA), Nossa Senhora da Penha (ES), São Francisco do Canindé (CE), Bom Jesus do Bonfim (BA), Bom Jesus de Pirapora (SP), Padre Cícero (CE). Em termos mundiais, o turismo religioso atrai entre 300 e 330 milhões de turistas por ano.

A partir destes dados uma questão nos parece central: até que ponto o turismo religioso pode ser considerado um quesito alimentador da fé? O que move tanta gente para estes lugares sagrados?
A primeira observação a ser feita se refere ao aspecto sensível presente no turismo religioso. São lugares de aparições, de milagres, de vida de algum líder religioso, ou santo canonizado pela Igreja, etc.. Nenhuma pessoa nasce com fé. A primeira entrada no caminho da fé se dá pela via sensível. Somos seres sensíveis. Não se devem menosprezar as atitudes destas pessoas.

As famosas salas dos milagres que encontramos nos lugares de peregrinação religiosa como Aparecida e Convento da Penha devem sem interpretadas no contexto da realidade social em que se vive. Elas expressam a carência das pessoas pelos bens da saúde. Quase sempre são desprezadas pelas instituições políticas que deveriam zelar pela saúde. Por isso, o único refúgio disponível é no espaço e na experiência religiosa. Trata-se de uma experiência popular da religião.

O Brasil tem em sua história uma enormidade dessas experiências. Devoções, santos, curas, milagres, rezas, peregrinações. Esses lugares também expressam, de fato, a miséria de tantas pessoas exploradas durante o processo colonizador. Era comum o dito: “muita reza, pouca missa, muito santo, pouco padre”. Isso era muito visível nas regiões da exploração do ouro brasileiro. O ouro produziu riquezas no exterior e miséria no Brasil. Desta forma, cabe uma interpretação mais social do fenômeno das curas e milagres.

Quanto à sua relação com a fé, as lideranças religiosas deveriam cuidar para que as pessoas possam resolver seus problemas sociais de outra forma, reivindicando junto aos poderes públicos o cumprimento de suas obrigações com a sociedade. Um Estado que não olha para a saúde de seu povo não é democrático. Ele irá representar sempre os interesses da burguesia que domina as relações sociais. Portanto, a pregação sobre o milagre ou cura nunca poderá estar desvinculada da pregação política, da reflexão que obriga os poderes constituídos a zelarem pela saúde de seu povo. Caso contrário, a religião se torna verdadeiramente “ópio do povo” como se diz no marxismo.

A segunda observação a ser feita se refere à distinção entre “turismo religioso” de “experiência religiosa da peregrinação”. O turismo de cunho religioso não afeta em quase nada a experiência de fé. O mercado é que lucra com este movimento das pessoas. Esse negócio tem tido muita atenção do Ministério do Turismo como nos relata a referida reportagem. Num turismo religioso cada pessoa chega num determinado lugar, tira fotos, olha rapidamente, e vai embora. Isso é feito como se estivesse visitando qualquer outro lugar turístico. Não é uma experiência religiosa de fé; o turismo religioso não produz nenhum efeito espiritual, apenas a satisfação estética.

Por outro lado, a experiência religiosa que se faz sob a forma de uma verdadeira peregrinação é uma viagem de pessoas em direção a um lugar sagrado ou consagrado em decorrência da manifestação divina. A questão estética tem valor reduzido. E o tempo para esta experiência não se reduz a poucos minutos e algumas fotos tiradas. A vivência religiosa nestes lugares fortifica a fé.
Os primeiros homens da história realizaram esta primeira peregrinação em direção ao deus Sol, que foi na história das religiões, a primeira expressão do sagrado, ou do divino. E assim se desenvolveram longas caminhadas rumo ao Oriente, onde nasce o Sol. Também lugares como montanhas, rios, foram aparecendo na experiência religiosa das pessoas como espaço para manifestação do sagrado, uma hierofania.

Na Grécia antiga o Olimpo era o habitat dos deuses. Na cultura judaica, a Bíblia Sagrada descreve inúmeros lugares que foram centros de peregrinação do povo de Israel. Assim podemos citar a manifestação de Deus a Abraão em Siquém, a Isaac em Bersabéia e a Jacó em Betel. Estes lugares logo se constituíram em grandes centros de peregrinação, onde o povo manifestava sua busca de Deus. Também nasceram os santuários de Ofra e Saraa, e assim foram se multiplicando pelo território israelita.
As leis antigas de Israel prescreviam a toda a população apresentar-se três vezes ao ano diante de Javé nos diversos santuários do país. Foi a reforma religiosa de Josias que centralizou as peregrinações num único lugar: Jerusalém. Era nas peregrinações que aconteciam as assembleias de todo o povo judeu que expressava seu apego à casa do Senhor, sua fé, sua adoração e sua alegria em celebrar este encontro. Jesus, aos 12 anos, também participa desta peregrinação a Jerusalém, e vemos repetidamente realizar este percurso por ocasião das festas
Por fim, cabe mais uma observação.

A mistura de fé e mercado sempre foi muito perigosa na história do cristianismo, resvalando quase sempre em desvios dos princípios do Evangelho. Não se negocia com Deus. O Evangelho de Jesus Cristo é o da partilha e não o do mercado como prega o capitalismo. Infelizmente muitos líderes religiosos tratam a fé como negócio de prosperidade e bem-estar. Este não é o Evangelho de Jesus Cristo. É preciso ter cuidado para que as viagens para os lugares sagrados não se torne um desvio da fé para se tornar um alimentador do mercado capitalista.

Também a busca de milagre a qualquer preço revela sempre uma incompreensão do verdadeiro significado da pregação de Jesus Cristo. Deus não é um mágico para realizar os mais diversos prodígios. Uma fé baseada apenas na busca do milagre para se acreditar é muito frágil e passível de desaparecer levando a pessoa às posturas de descrédito. Não é o milagre o princípio fundamental da fé, mas é esta que pode resultar num milagre. Jesus sempre fez questão de eliminar esta confusão das pessoas. Milagre é decorrência da fé e não motivo para aumentar a fé. A abertura ao mistério da vida é muito mais que a realização de um milagre.

O turismo religioso muitas vezes toma como referência central o lugar do milagre ocorrido. A experiência religiosa da peregrinação busca sempre a contemplação do espaço sagrado como manifestação de Deus. Enfim, as viagens para os diversos lugares sagrados deveriam ter como escopo fundamental a abertura ao Transcendente, abertura ao Outro e abertura ao Mundo.

Uma fé que se diz “em Deus”, mas que se fecha em relação ao próximo e ao mundo contradiz os princípios fundamentais da própria fé cristã. Em 1 Jo 4, 20 se diz: “Se alguém diz: Eu amo a Deus e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu” e assim todos “reconhecerão que sois meus discípulos”. O ódio é irmão da intolerância, da indiferença e mentira que objetiva a destruição do outro. Somente a verdade nos libertará! E somente a Justiça nos torna irmãos.

Vivemos tempos de profunda decadência da experiência de fé, apesar do aumento das pessoas para os lugares sagrados e para o interior das Igrejas. Uma sociedade onde o ódio se sobrepõe ao amor não demonstra força de fé, mas decadência. Muitos líderes religiosos e muitas lideranças políticas estão contribuindo para esta decadência.

No caso brasileiro, infelizmente muitas lideranças religiosas não estão a serviço da fortificação da fé de seus fiéis, mas na disseminação do ódio, da intolerância e do extermínio do outro e no incremento do mercado. É triste constar isso em nosso meio. No Congresso Nacional nunca se falou tanto de Deus. Que Deus pode querer estar presente onde as práticas políticas são contrárias à justiça? Que Deus poderá querer estar presente nos lugares em que predomina a presença dos “vendilhões dos tempos e lugares sagrados”? A fé não pode ser mercantilizada!

Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião

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