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Falta Deus?

Falta Deus ou não se busca o Deus verdadeiro?

Vendo os noticiários a respeito do período de Carnaval no Espírito Santo nota-se um rastro de sangue nos lugares mais frequentados por nossos jovens e nas estradas. O sangue derramado em abundância não tem origem no senso comum cotidiano das brigas entre traficantes. As pessoas mortas estavam convivendo praticamente no mesmo embalo carnavalesco. Então, pais e parentes são chamados às pressas para recolher seus familiares mortos. Fica-se com a sensação da dificuldade da polícia em deter a força da vingança retida no dedo que aperta o gatilho ou no pé que pisa forte o acelerador dos carros.

As cenas com os mortos estendidos no chão à espera de serem recolhidos e os feridos levados para os hospitais, mas a folia não podia parar. Tragédia e comédia da vida humana! Virou brinquedo! Vendo os depoimentos das pessoas marcadas por esta violência, nos deparamos com algumas explicações que eu gostaria de destacar:

“A violência está ao nosso lado e não percebemos. Não falta policiamento. Falta família na vida dos jovens”, afirmou uma autoridade política do Estado. E ainda outra pessoa pública delega o problema para a esfera legal: “Mais um jovem que perdemos para a violência. Não é por falta de amor da família. As leis deixam brechas para a impunidade”. E uma mãe desabafa: “Meu filho estava morto no chão e o Carnaval continuou. Perdeu-se o valor de tudo”. E, por fim, um líder religioso conclui que “isso aconteceu por que falta Deus”.

Ao mesmo tempo em que essas tragédias acontecem, outros jovens e adultos optam por uma “folia da fé” com samba e oração. Católicos e evangélicos reúnem milhares de pessoas todos os anos no período de Carnaval. Um grupo de universitários disse que mais importante que se preparar para uma profissão na faculdade é mostrar que no Carnaval é possível se divertir sem confusão. A mesma opção é encontrada por grupos de amigos que aproveitam o período para se reunirem curtindo a alegria de viver.

Gostaria de refletir um pouco sobre um ponto presente neste cenário de alegria e também de dor e desespero: o papel da religião na formação de uma sociedade de alegria e paz. O que alguém quer dizer com a expressão “falta Deus”? Será que está faltando Deus realmente ou não estamos no caminho do Deus verdadeiro? Se 96% dos brasileiros se dizem religiosos, por que tanto cresce entre nós, bem próximo de nossos lares, a marca do sangue derramado no asfalto de nossas ruas e avenidas? A que Deus estão conduzindo as diversas vias religiosas que tanto crescem em nossa sociedade?

Em todos os tempos, o viver em sociedade requer a constituição de limites à própria liberdade. O maior engano moderno é pensar e agir como se a minha liberdade fosse absoluta. Ela está intrinsecamente limitada pela existência do outro, do mundo e do próprio Deus. A primeira necessidade de normatizar estes limites aconteceu no povo judeu com a presença das “Tábuas da Lei”, contendo os Dez Mandamentos.

Era visível que a relação familiar estava se deteriorando a cada dia, ameaçando a estabilidade do grupo social. Torna-se necessário e se deseja impor um limite legal. Surge o Mandamento: “honrar pai e mãe”.  Quem não obedecer a esta ordem estará pecando contra Deus e sujeito às diversas penalidades determinadas pela divindade. Nenhuma relação com Deus deixa de implicar a relação com o outro, com o próximo, com o mundo. Talvez entre nós existam muitas orações a Deus que excluem o outro. Talvez sejam orações de pedido de bens para si mesmo. Isso não é fé; é puro farisaísmo.

Os outros mandamentos seguem a mesma direção: “Não matarás; Não roubarás; Não cobiçarás a mulher do próximo e nem seus bens”. Deus nos vê através do outro; Deus nos salva através do outro. Aquela pessoa que diz que falta Deus tem razão. Se a força de apertar o gatilho ou acelerar o carro for mais forte que a minha fé, o meu desejo de respeitar o outro, realmente falta Deus.

Deus falta quando o outro desaparece do horizonte da minha vida cotidiana, quando o outro é exterminado, eliminado num assassinato sem razão de ser. Religião que tem a atenção mais voltada para o dinheiro da oferta e não para o pobre ali presente, não está levando o Deus verdadeiro. Nesse tempo de Quaresma temos a possibilidade litúrgica de rever o caminho que estamos seguindo em direção a Deus. Talvez tenhamos necessidade de fazermos muitos mais exercícios quaresmais para que possamos reconhecer a gravidade e urgência na construção desse caminho para o Deus verdadeiro. O caminho da Cruz é incompatível com a força do gatilho e o peso do pé no acelerador.

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